Iraque: As sombrias perspectivas da "reconstrução"

Bagdá, 12/01/2006 – O aumento da violência no Iraque e a decisão do governo dos Estados Unidos de não destinar mais fundos para a reconstrução desse país, que ocupa desde março de 2003, representam para muitos iraquianos dias obscuros. "É óbvio que a situação é muito pior do que antes", disse à IPS o general da reserva Ahmed Abdul Aziz. "Alguém pode caminhar livremente pelas ruas? Recebeu a ração de alimentos do mês passado? É essencial para a maioria dos iraquianos receber essa ração para poder alimentar suas famílias", afirmou. "Quando alguém vai ao hospital, encontra remédios? A resposta é: não tem remédios, nem serviços, nem cobertores, nem travesseiros, nem cama, nem enfermeiras, nem ambulâncias para transportar doentes", acrescentou o ex-militar.

O presidente do Banco Mundial e ex-subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, havia dito que o Iraque poderia "realmente financiar sua própria reconstrução". Mas tais palavras não significam muito, porque o estado da infra-estrutura é pior agora do que jamais foi durante as severas sanções econômicas internacionais dos anos 90. "Os Estados Unidos nunca pretenderam reconstruir completamente o Iraque", disse em entrevista coletiva o general William McCoy, comandante do corpo de engenheiros do exército encarregado de supervisionar a reconstrução. "Supunha-se que isto seria apenas um impulso inicial", disse McCoy, na semana passada, ao jornal The Washington Post.

Entretanto, estas afirmações se chocam com declarações anteriores de Washington. Em um discurso de agosto de 2003, o presidente George W. Bush disse: "Em muitos lugares, a infra-estrutura é tão boa quanto era antes da guerra, o que é satisfatório, mas esse não é o objetivo final. O propósito principal é que a infra-estrutura seja a melhor da região". Até agora foi gasta uma parte relativamente pequena dos US$ 30 bilhões destinados por Washington à reconstrução, e a autoridade para gastar esse orçamento termina em junho de 2007. Uma decisão de não renovar o programa de reconstrução deixará o Iraque com projetos inconclusos no valor de dezenas de milhares de milhões de dólares e com uma indústria petrolífera e uma geração elétrica que ainda não recuperou seus níveis de produção anteriores à guerra.

Enquanto se aproxima o terceiro aniversário do Iraque liderada pelos Estados Unidos, um estudo feito por Linda Bilmes, da Universidade de Harvard, e pelo prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz, da universidade de Colúmbia, afirma que "os custos econômicos totais da guerra, incluindo os custos diretos e os macroeconômicos, estão entre um bilhão e dois bilhões de dólares". Esse dinheiro fez pouco pelo Iraque. A situação econômica é muito dura. Estima-se que o desemprego esteja em 70%.

"Meus três filhos se formaram na universidade, mas não conseguem encontrar trabalho decente porque não tem empregos disponíveis", disse à IPS o ex-vice-ministro de Comércio, Abdul Hadi. O regime de Saddam Hussein (1979-2003) "não permitia que nenhum diplomado ficasse sem trabalho", afirmou. Agora, inclusive, existe uma severa escassez de professores nas universidades. "Não estarei tranqüilo até ver que todas as pessoas têm a vontade de reconstruir seu país, em lugar de humilhar seus irmãos", disse Hadi. "Quero dizer a Bush que destruiu nosso país por, pelo menos, os próximos 25 anos. Os árabes nunca poderão esquecer que ele é o maior terrorista", acrescentou.

Os cidadãos já não podem recorrer às leis. "Não vivemos de maneira apropriada", disse à IPS Qassim Abdul Hamed, proprietário de um restaurante. "Estamos sofrendo nas mãos daqueles que vieram em seus veículos apenas para comer sem pagar". Ele contou que seu restaurante tem de continuar servindo refeições gratuitas à polícia iraquiana. "Não podemos dizer uma palavra porque eles têm armas", acrescentou. Isto acontece enquanto o custo dos alimentos aumenta por causa da escassez de combustível. "No restaurante houve enfrentamentos que nunca tínhamos visto", acrescentou.

Munaim Abid Hassna, uma camareira de 22 anos, disse que trabalha para alimentar 12 pessoas de sua família, pois é única que tem emprego. "Costumávamos gostar do povo norte-americano, mas já não o queremos mais", afirmou. "O ódio agora está aumentando, e todos querem se vingar deles. Você (Bush) está causando desastres às pessoas de seu próprio país, não só aos iraquianos", acrescentou. Com 2.206 soldados norte-americanos mortos até agora e mais de cem ataques diários contra as forças da coalizão, estas parecem incapazes de proteger a si mesmas ou aos iraquianos. Segundo as convenções de Genebra, é responsabilidade da potência ocupante dar segurança à população civil. "Os norte-americanos destruíram tudo no Iraque", disse o general Aziz. "Penso que cada iraquiano deveria chorar toda sua vida pelo que está ocorrendo. Bush deveria estar entre os maiores terroristas, junto com seus colegas da Grã-Bretanha, porque todos eles são criminosos que mataram centenas de milhares de civis iraquianos", afirmou. (IPS/Envolverde)

* Com a colaboração de William Fisher (Nova York).

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *