População: Quando as mulheres não contam

Nações Unidas, 23/01/2006 – A falta de estatísticas-chave que discriminem dados por gênero em matéria de população, saúde, educação e trabalho distorce a imagem do papel social e econômico das mulheres em todo o mundo, segundo um informe da Organização das Nações Unidas. A escassez de estatísticas nacionais confiáveis também influi negativamente sobre os conhecimentos disponíveis em quatro áreas relativamente novas: violência contra a mulher, pobreza, poder e tomada de decisões, e direitos humanos. A Europa tem o registro mais alto de dados precisos e a África o mais baixo, informou o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (DEAS) da ONU, em seu último relatório sobre "As mulheres do mundo 2005: Progresso em estatísticas".

As outras regiões do mundo – incluídas Ásia, América Latina e Caribe – estão entre os dois extremos. "As regiões mais desenvolvidas registram os dados mais altos e os (50) países menos desenvolvidos os menores", diz o estudo. Porém, mais da metade dos 54 países da África forneceram dados sobre população classificados por sexo, bem como sobre matrículas nos cursos primário, secundário e superior pelo menos uma vez entre 1995 e 2003. Entretanto, menos de um terço dessas nações forneceram informação discriminada por sexo sobre nascimentos, mortes e características econômicas da população.

"As estatísticas são ingredientes esquecidos, mas essenciais para o progresso econômico e social", afirmou o secretário-geral do DEAS, José Antonio Ocampo. "Uma das deficiências mais pronunciadas nesta área – com os efeitos mais prejudiciais – aparece na coleta de dados classificados por sexo e de dados focados em questões de gênero", disse aos jornalistas. No prefácio do informe, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, diz que 11 anos depois da histórica Conferência Mundial sobre Mulheres, realizada em Pequim, "a carência de estatísticas nacionais confiáveis sobre questões de gênero persiste em muitas partes do mundo".

A Plataforma para a Ação dessa conferência pediu urgência aos serviços de estatísticas nacionais, regionais e internacionais no sentido de se assegurarem de que os dados relativos a indivíduos sejam coletados, analisados e apresentados por sexo e idade, e que reflitam problemas e assuntos ligados a mulheres e homens. Segundo o estudo divulgado na quarta-feira, as contínuas melhoras na coleta de dados e na elaboração de relatórios são fatores-chave não só para realizar um acompanhamento da situação das mulheres no mundo, mas também para avançar nesse aspecto.

A chefe da DEAS, Mary Chamie, disse à IPS que não é possível produzir e manter programas nacionais de estatísticas de gênero sem apoiar e fortalecer a produção de estatísticas nacionais oficiais. "A débil coleta e elaboração de informes sobre as estatísticas leva à falta de evidências. O quanto estão bem representadas nas estatísticas as mulheres do mundo?", perguntou. "Esta é a questão do relatório. São necessários programas nacionais de estatísticas confiáveis para a formulação de políticas, planejamento e avaliação de objetivos de desenvolvimento nacional", acrescentou.

Chamie identificou entre os principais entraves o fato de os países menos desenvolvidos, e a África em particular, requererem compromisso nacional e apoio público de atores-chave, como as organizações femininas, para fortalecer três atividades estatísticas essenciais. Em primeiro lugar, segundo Chamie, é preciso realizar censos populacional e de moradia que enumerem a população total dos países e informe a ONU os resultados durante a rodada de censos da próxima década (2005-2014). Em segundo lugar, reclamou o fortalecimento de programas nacionais de melhoria de pesquisas em domicílios para abordar questões cuja análise requer informação mais detalhada. Por fim, pediu urgência no sentido de fortalecer a elaboração de estatísticas vitais através de um sistema de registro civil que deixe constante os nascimentos por sexo e as mortes por sexo e por idade.

"Estas são as atividades mais básicas dos escritórios nacionais de estatísticas, no tocante à avaliação e informação sobre a qualidade de vida de mulheres e homens, meninas e meninos", acrescentou Chamie. Os governos necessitam de estatísticas nacionais oficiais para uma detalhada avaliação do progresso, nos Estados, cidades, condados, pequenas localidades rurais e aldeias, e atravessando fronteiras sócio-econômicas e outros grupos especiais, prosseguiu. "Sem estatísticas, fica-se cego", ressaltou. Segundo o estudo, também escasseiam estatísticas vitais básicas discriminadas por sexo, inclusive quanto ao número de nascimentos e mortes em um país.

"Aumentou muito pouco a quantidade de países que coletaram e informaram com freqüência o número de nascimentos por sexo e mortes por sexo e idade em sua população nos últimos 30 anos. De fato, muitos países ainda não o fazem", diz o estudo. O chefe da Subdivisão de População e Desenvolvimento do Fundo de Popu8lação das Nações Unidas (UNPFA), François Farah, disse que a produção de estatísticas de gênero foi seriamente afetada pela pouca atenção ou pelo enfoque declaratório dedicados à igualdade de gênero na sociedade em geral e em políticas de desenvolvimento e de erradicação da pobreza em particular. "As mulheres não são visíveis na maioria das estatísticas vitais – tais como as que incluem nascimentos e mortes – porque freqüentemente elas simplesmente não são visíveis em suas próprias sociedades e comunidades", disse Farah à IPS.

O nascimento de meninas freqüentemente não é registrado porque não são tão valorizadas como os meninos. Muitos censos informam pouco sobre enfermidades femininas e muitas estatísticas trabalhistas e agrícolas sub-representam as mulheres, devido a uma séria falta de reconhecimento de sua contribuição econômica e social, acrescentou. As estatísticas de gênero sistemáticas são absolutamente essenciais para controlar a magnitude da discriminação de gênero e para informar políticas e programas adequados. "Toda mulher deveria contar, para que todos possam contar", disse Farah. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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