Fórum Social Mundial: A sociedade civil duvida da esquerda governante

Caracas, 07/02/2006 – A tensão entre as organizações da sociedade civil e os governos do variado arco da esquerda que proliferam na América do Sul, que muitas vezes se afastam do caminho comum pregado, ficou evidente no VI Fórum Social Mundial realizado recentemente na capital venezuelana. "É mais fácil enfrentar governos conservadores do que apoiar os progressistas", advertiu Lori Wallach, ativista da organização norte-americana Public Citizen. "Esse é o desafio de hoje", ressaltou. A rejeição aos tratados de livre comércio com o Norte e os cultivos transgênicos, bem como a impulsão da luta em favor da igualdade de gênero e pelo acesso universal à educação foram o centro da reflexão deste FSM, este ano realizado em três cenários, incluindo o anterior em Bamako e o de março em Karachi (Paquistão).

A ineficácia das receitas neoliberais para resolver os problemas das maiorias do planeta, em particular das centenas de milhões de pobres da América Latina e do Caribe, também voltou a ser confirmada pelas organizações sociais e populares reunidas entre os dias 24 e 29 de janeiro em Caracas. Organizações e movimentos da sociedade civil continuaram tecendo sua plataforma em Caracas, começando pelas indígenas que preparam a terceira cúpula continental de povos originários para outubro, na Guatemala. Nesse encontro "ratificaremos nossa rejeição aos tratados de livre comércio (com os Estados Unidos e a União Européia) em defesa de nossos territórios e da água", disseram em uma declaração setorial, que também cita como objetivos "a segurança alimentar de nossos países e uma reforma agrária integral".

"Reivindicamos a recuperação e defesa das sementes nativas. Rejeitamos categoricamente a venda e utilização de sementes produzidas com tecnologia "terminator" (plantas que produzem sementes estéreis), porque é imoral e atenta contra os alimentos da humanidade, uma vez que nega a semente a 1,4 milhão de camponeses no mundo", afirmou o coletivo de organizações indígenas em uma declaração entregue à IPS. A ong Via Camponesa e a Confederação Latino-americana de Organizações do Campo também convocaram "um levante mundial" contra essas políticas para nos dias 17 de abril, quando se comemora o Dia Internacional de Luta Camponesa, e 16 de outubro, Dia Mundial da Soberania Alimentar.

Na questão de gênero, diferentes fóruns e organizações exortaram no sentido de lutar "contra a mercantilização e exploração das mulheres, a violência machista, racista e homofóbica em todas suas manifestações", e a promover o diálogo Sul-Sul LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais). Também ficou acertado impulsionar o direito à saúde como um eixo central da sétima edição do Fórum Social Mundial, que acontecerá em 2007 em Nairóbi, "levando em conta a dramática situação na saúde da África subsaariana", a região do mundo mais afetada pelo vírus HIV, causador da aids.

Por sua vez, Bogotá receberá um acampamento humanitário pelo direito universal à saúde entre 4 e 7 de abril, e várias organizações decidiram estabelecer nessa ocasião um tribunal internacional dos povos pelo direito à saúde, reivindicando o conceito de genocídio a partir de iniqüidades geradas por políticas neoliberais. O VI FSM abrigou, por sua vez, o quarto fórum mundial de educação, que atuou em "defesa de elementos axiais da educação como seu caráter público, laico, obrigatório, de qualidade e que promova uma cultura de paz". Esse encontro específico registrou que avançam na América Latina "governos que, com diferentes características, tentam sair do rastro da subordinação às políticas neoliberais que foram aplicadas nos anos 90". A terceira semana de novembro, ou semana mundial pela defesa da Educação, ficou como referência para lutar por novas leis e políticas para a área.

Enquanto se defende padrões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, propondo que pelo menos 6% do produto interno bruto de cada país sejam destinados a essa área, se deve impulsionar o troca da dívida externa por educação e valorização da diversidade nessa esfera de atividade. A realização do VI FSM na Venezuela, cujo governo se define de esquerda e que convocou seus seguidores em um encontro sob o lema "socialismo ou morte", levou ao aprofundamento da discussão entre os que defendem essa reunião com um espaço para o encontro e os que buscam mecanismos para a ação, um debate que continuará nas próximas edições. Também a integração em marcha no Sul, que tem em Caracas um de seus motores, cruzou numerosas discussões na edição do FSM em Caracas.

Em um dos fóruns, a ativista chilena Sandra Larrain alertou para a ameaça desses processos porque são negociados acordos setoriais que ultrapassam os marcos constitucionais das nações e há contradições entre as necessidades dos Estados e as dos cidadãos. Larrain disse também que projetos de fachada progressista, como o anel energético (integração em petróleo e gás) sul-americano, "garantem segurança dos investimentos e monopólio de mercados sem controle estatal, enquanto os povos assumem os gastos". Também houve discussões sobre democracia. Falou-se de países "eleitoralmente liberados", com Brasil, Venezuela e Bolívia, mas nos quais "devem ser os povos a desenvolverem seus próprios projetos".

Por exemplo, o governo de Hugo Chávez "deve consultar as comunidades indígenas sobre seus projetos de gasodutos", afirmou um dos painéis a respeito das projetadas extensões de tubulações de gás desde a Venezuela até a costa colombiana do Pacífico e para o rio da Prata", com impacto ambiental sobre milhares de quilômetros percorridos. O FSM foi impactado por uma marcha de centenas de indígenas do noroeste venezuelano contra concessões de carvão em seus territórios ancestrais para multinacionais do Brasil, Europa e América do Norte. Os delegados da Confederação de Organizações Indígenas do Equador destacaram que "lutamos em todas as campanhas pela emancipação do continente (americano), mas na hora de armar a nova arquitetura dos Estados ficamos de fora". (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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