Jornalismo: Al Jazeera, sucesso, apesar da pressão

Doha, 07/02/2006 – A emissora de TV Al Jazeera sofreu bombardeios da aviação norte-americana no Afeganistão e no Iraque e está proibida de informar desde quatro países do Oriente Médio. Porém, esta rede via satélite do Qatar, longe de encolher, não mais do que crescer em popularidade. Um caminho interessante e freqüentemente trágico levou a Al Jazeera ao sucesso desde que iniciou suas transmissões, em novembro de 1996, fundada pela coroa do Qatar, mas administrada como empresa privada. A proibição de informar a partir do Iraque, Irã, Arábia Saudita e Argélia parece ter aumentado a fervorosa lealdade de mais de 40 milhões de espectadores.

O escritório da Al Jazeera no Afeganistão foi bombardeado por aviões dos Estados Unidos em 2001. Durante a invasão do Iraque, em 2003, tanques norte-americanos encurralaram jornalistas da emissora em um hotel da cidade de Basra. Pouco depois, sua sede em Bagdá foi atingida por um míssil lançado desde um avião norte-americano. No ataque morreu o correspondente Tareq Ayoub. Jornalistas da emissora foram detidos por forças dos Estados Unidos e enviados para prisões no Iraque e em Guantânamo (Cuba). A rede também suportou ataques verbais do secretário de Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, e de funcionários do governo em muitos países do Oriente Médio. "Definitivamente, posso dizer que a Al Jazeera age de maneira mal intencionada, imprecisa e indesculpável", disse Rumsfeld no dia 15 de abril de 2004.

A emissora havia mostrado cadáveres de mulheres e crianças vítimas de bombas norte-americanas na cidade iraquiana de Faluja. O presidente George W. Bush acusou a TV de "incendiária" por essas matérias. Bush também a qualificou de "porta-voz" da insurgência iraquiana e da rede terrorista Al Qaeda, liderada por Osama bin Laden, à qual são atribuídos os atentados que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington, em setembro de 2001. A emissora rechaça essas acusações. "Estamos muito preocupados pelas transmissões da Al Jazeera porque, uma e outra vez, encontramos informes imprecisos, falsos equivocados", disse por esses dias o porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher.

Em novembro desse mesmo ano, Bush tentou convencer o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, a realizar um bombardeio conjunto contra o escritório central da Al Jazeera em Doha, segundo atas secretas de uma reunião publicadas pelo jornal britânico Daily Mirror. "Você pensa que deixaríamos de trabalhar por causa de um memorando?" Essa foi a resposta do chefe de programação da emissora, Samir Khader, ao correspondente da IPS que lhe perguntara se o informe sobre o diálogo entre Bush e Blair havia afetado seu trabalho. "Naturalmente, não podemos. Temos de fazer nosso trabalho. Se o memorando existe e Bush queria bombardear a Al Jazeera, o que poderíamos fazer? Podem fazer isso, e o mundo inteiro o sabe", afirmou, em um fórum organizado pela emissora em Doha no começo do mês.

Khader, que produziu um documentário sobre a rede chamado "Control Room" (Sala de Controle"), acrescentou: "Não é pelo fato de estar ameaçado que um jornalista deixará de fazer seu trabalho". A Al Jazeera não recebeu nenhuma explicação sobre o informe, acrescentou. "O porta-voz oficial do governo britânico disse que não havia nada nesse memorando que se referisse à Al Jazeera, e Tony Blair também disse isso na Câmara dos Comuns" do parlamento em Londres, explicou. "Porém, ao responder outras perguntas de cidadãos britânicos, o mesmo porta-voz reconheceu que esse memorando existe e que há uma referência à emissora. Assim, existe uma contradição em suas próprias declarações", ressaltou Khader. A Al Jazeera ainda espera por uma resposta dos dois governos, acrescentou.

Esta emissora de TV via satélite alcançou destaque mundial e popularidade no mundo árabe por suas entrevistas com bin Laden e, também, pela cobertura da ocupação israelense na Palestina e pela invasão norte-americana no Afeganistão depois dos atentados de 2001. Ao cobrir a invasão do Iraque em 2003, a Al Jazeera conseguiu ganhar a corrida pela informação sobre muitos meios norte-americanos. A rede é chamada de "a CNN do mundo árabe", numa referência à rede de TV a cabo Cable News Networt, dos Estados Unidos. Mas os responsáveis pela Al Jazeera preferem dizer que sua influência maior procede da BBC de Londres.

"Às vezes só o que nos faz avançar é o apoio de nossa audiência", disse à IPS o diretor da rede, Wadah Khanfar. "Mas também porque realmente temos pessoas grandiosas trabalhando aqui", acrescentou. Entre elas, mencionou os jornalistas de tempo parcial e os motoristas. Khanfar disse que a Al Jazeera constrói uma reputação de sucesso em meio à hostilidade. "Existe uma cultura que criamos com nosso estilo de informar. Agora, os regimes opressivos têm mais problemas para nos deter", disse Khanfar. "Se você, como jornalista, quer ser leal à sua profissão, sabe que às vezes terá dificuldade para obter a notícia, mas tem de tentar de todo modo, se existe possibilidades", acrescentou.

Esta atitude impôs aos correspondentes da Al Jazeera em Faluja conseguir imagens de civis assassinados por soldados norte-americanos, que atacaram, inclusive, ambulâncias. O general Mark Kimmitt, principal porta-voz do exército norte-americano no Iraque durante o cerco a Faluja, em abril de 2004, havia dito que "as emissoras de televisão que mostram norte-americanos matando intencionalmente mulheres e crianças não são fontes noticiosas legítimas". Uma jornalista que escreve no site da Al Jazeera em inglês, que pediu para não ser identificada, disse que não sente pressão "direta" do exército dos Estados Unidos ou de governos repressores do Oriente Médio. "Mas desde que sabemos que estamos sendo tão controlados, sinto uma responsabilidade maior por fazer bem meu trabalho", afirmou. (IPS/Envolverde)

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

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