Biodiversidade: Uma inovação latino-americana

Rio de Janeiro, 29/03/2006 – O principal capital da Rede de Fundos Ambientais da América Latina e do Caribe (Redlac) não são os US$ 700 milhões que maneja, mas a capacidade acumulada em mais de três mil projetos financiados e a experiência intercambiada entre seus 21 filiados de 14 países. Essa avaliação de Elias de Araújo, diretor do brasileiro Fundo Nacional de Meio Ambiente (FNMA), fundamenta a proposta de que o Convênio sobre a Diversidade Biológica incorpore os fundos ambientais como "mecanismos eficientes" para atrair recursos e financiar a conservação e o uso sustentável da biodiversidade. A proposta sugerida pela Redlac foi oficialmente apresentada pelo Peru com apoio regional. "Será uma das melhores contribuições latino-americanas" para a conferência das partes do Convênio que acontece em Curitiba (PR), disse Araújo à IPS.

Esses fundos são "flexíveis, compreendem a realidade cultural e política das comunidades" e se adaptam de maneira mais eficiente às exigências locais, algo difícil para as instituições internacionais, resumiu Charles Barber, da governamental Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid). Mas essa é uma conquista da América Latina, onde os fundos ambientais se consolidaram. Entretanto, sua implementação em outras regiões em desenvolvimento enfrenta obstáculos, por situações institucionais e financeiras menos favoráveis, observou Barber, baseado em sua longa experiência em outros continentes.

A Redlac decidiu destinar uma pequena parte de seus recursos para "facilitar a fundos de outras regiões a concretização de sua própria experiência", sem imposição de modelos, anunciou o peruano Alberto Paniagua, presidente da Rede. Trata-se de formar redes de intercâmbio de tecnologias e boas práticas, diante do interesse despertado pela experiência latino-americana. A idéia se verá impulsionada pela concessão de um empréstimo de US$ 1 milhão pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, sigla em inglês), destinados a fazer com que a Redlac desenvolva um banco da dados de boas práticas de conservação e uso da biodiversidade.

A Rede foi constituída formalmente em 1999, depois que proliferaram os fundos ambientais como resposta à Cúpula da Terra, realizada em 1992 no Rio de Janeiro. A América Latina é reconhecida como a região onde mais progrediu o intercâmbio de conhecimentos e boas práticas. Os recursos financeiros que manejam parecem limitados, mas os empréstimos concedidos servem de alavanca para créditos adicionais, e o mais importante é que esses fundos fomentam "bons projetos", capacitando comunidades rurais, indígenas e organizações de variadas índoles, destacou Araújo.

A Fundação Pnuma (Proteção e Uso Sustentável do Meio Ambiente), da Bolívia, mantém desde 2003 uma Escola de Projetos onde se capacita comunidades pobres para que transformem suas idéias e atividades em planos qualificados para o financiamento. Ultimamente, vem descentralizando os cursos, que são gratuitos, levando-os aos lugares onde surgem as propostas. Entre os projetos financiados em comunidades indígenas figuram o manejo, processamento e comercialização de recursos medicinais agroflorestais e frutas silvestres, o repovoamento de lagos com peixes endêmicos e seu aproveitamento e o uso de fibra de vicunha em duas províncias de Oruro. A rede latino-americana tem entre suas principais missões "promover a inter-relação", para que todos aproveitem as experiências.

O FNMA brasileiro, por exemplo, acostumado a financiamentos de centenas de milhares de dólares, teve dificuldades para financiar pequenas organizações. A solução foi enviar uma coordenadora do setor a um curso da Fundação Pnuma, informou Araújo. O Brasil, o FNMA e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade integram a Redlac, mas foram identificados 56 fundos que oferecem US$ 47 milhões ao ano em créditos para projetos ambientais, excluindo os de saneamento básico, que exige recursos maiores. O Brasil se prepara para formar sua própria Rede de Fundos Sócio-ambientais, seguindo o modelo latino-americano, acrescentou Araújo.

Os fundos ambientais são instrumentos participativos, que envolvem múltiplos setores da sociedade e em sua atuação promovem estudos sobre uso sustentável da biodiversidade e acabam influindo nas políticas ambientais, afirmou Juan Carlos Chávez, gerente-geral da Fundação Pnuma. Além de financiadores que complementam os grandes fundos como o GEF, "também são um instrumento de gestão", que, por estarem próximos das comunidades beneficiadas, têm "sensibilidade para a agricultura e atividades comunitárias" e conhecem a língua local, afirmou Alain Lambert, especialista do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Além disso, são "replicáveis" em outras regiões, por isso constituem uma prioridade do Pnuma como "mecanismo-chave" para o futuro da biodiversidade da Terra, concluiu. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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