Colunistas: As sementes assassinas

NOVA DÉLHI, 27/03/2006 – O algodão Bt da empresa norte-americana Monsanto leva milhares de agricultores indianos ao endividamento, ao desespero e à morte, escreve nesta coluna exclusiva para o Terramérica a escritora e ativista Vandana Shiva. As sementes homicidas da indústria biotecnológica estão em primeiro lugar na agenda da oitava Conferência das Partes do Convênio sobre a Diversidade Biológica (COP-8), que acontece em Curitiba, Brasil, até o dia 31 de março. Essas são sementes que matam a biodiversidade, os agricultores e a liberdade dos povos. O algodão Bt da empresa Monsanto leva milhares de agricultores indianos ao endividamento, ao desespero e à morte. Os governos australiano, neozelandês e canadense, que atuam como instrumentos do governo dos Estados Unidos e da indústria biotecnológica, estão tentando minar a moratória sobre o que se passou a chamar Tecnologia Terminator, isto é, aquela especializada em criar plantas geneticamente modificadas que produzem sementes estéreis.

No dia 7 de fevereiro, em um processo dos Estados Unidos, Argentina e Canadá contra a Europa, a Organização Mundial do Comércio (OMC) decidiu que a liberdade dos cidadãos para escolher as plantas que cultivam e os alimentos que comem não tem lugar em um mundo onde as regras são criadas para a liberdade das corporações comerciarem e lucrarem. O algodão Bt, um algodão geneticamente modificado, prejudica reiteradamente os agricultores da Índia desde que foi permitida a venda de suas sementes, em 2002. Nos anúncios publicitários da Monsanto prometiam aos agricultores colheitas de 15 quintais de algodão por acre e US$ 226 de renda adicional. Mas para muitos produtores o algodão Bt fracassou totalmente.

Na safra 2005, os agricultores de Vidharba, Maarashtra, perderam toda a colheita. Outros tiveram colheitas médias de três quintais por acre a um custo médio de US$ 135. Nossas pesquisas sobre temporadas anteriores de cultivos apresentam números de colheitas de 1,2 quintais por acre em Maharashtra e Andhra Pradesh. Um estudo feito pelo Centro pela Agricultura Sustentável mostrou que os agricultores que plantaram algodão Bt usaram sementes que custaram mais de US$ 36 por acre, enquanto os agricultores orgânicos gastaram pouco mais de US$ 10 por acre.

Os altos custos do cultivo e o pequeno lucro colocam os camponeses indianos na armadilha da dívida, da qual estão saindo com o suicídio. Mais de 40 mil suicídios de pequenos agricultores aconteceram na década passada na Índia. Na realidade, trata-se não de suicídio, mas de genocídio. Mais de 90% dos produtores que morreram em Andhra Pradesh e Vidharbha na temporada 2005 haviam plantado algodão Bt. Membros do lobby da biotecnologia como Graham Brookes e Peter Barfoot manipulam dados. Em uma recente visita à Índia, Brookes afirmou que os agricultores indianos ganharam US$ 113 milhões ao economizarem US$ 45 por hectare. Na realidade, os produtores indianos tiveram cargas adicionais de US$ 51 a US$ 172 por acre.

Isso implica perdas superiores a US$ 226 milhões. Por isso, os governos de Andhra Pradesh e Gujarat levaram a Monsanto aos tribunais. O fornecimento de sementes monopolizado pelas grandes corporações é uma receita segura para destruir a biodiversidade e a vida dos agricultores. O estudo de Brookes e Barfoot não se baseia em dados empíricos primários, mas em extrapolações de falsas presunções. Os membros do lobby afirmam que nos Estados Unidos se obtêm ganhos adicionais de US$ 66,59 por hectare graças ao algodão resistente aos herbicidas.

Entretanto, 90 agricultores do Estado do Texas entraram com processo contra a Monsanto e afirmam ter sofrido grandes perdas em suas colheitas porque essa empresa não os avisou sobre um defeito em seu algodão modificado geneticamente. Com a tentativa de introduzir a Tecnologia Terminator, aumentou-se a vulnerabilidade dos agricultores e a ameaça contra a biodiversidade. Quando o Grupo de Trabalho da Convenção sobre Diversidade Biológica se reuniu na cidade espanhola de Granada, em janeiro, o governo norte-americano afirmou falsamente que a Terminator "incrementaria a produtividade".

Os povos indígenas vêem a Tecnologia Terminator como uma ameaça à sua liberdade e soberania. Em nome do Fórum Indígena Internacional sobre Biodiversidade, Mariana Marcos Tarine, do Brasil, afirmou que "a Terminator representa uma ameaça para nosso bem-estar e soberania alimentar e constitui uma violação de nosso direito humano à autodeterminação". A decisão da OMC sobre a disputa em relação aos organismos geneticamente modificados ameaça a liberdade de todos os povos em matéria de alimentos e de sementes. Quando a disputa foi iniciada pelo presidente George W. Bush, em 2003, iniciamos uma campanha em nível mundial.

Na reunião ministerial da OMC, José Bové, fundador da Confederação Camponesa da França, e eu apresentamos uma declaração assinada por 60 milhões de pessoas afirmando que a liberdade de prescindir dos organismos geneticamente modificados é inerente à nossa liberdade para escolher as plantas que cultivamos e os alimentos que comemos. Não permitiremos que as sementes homicidas continuem matando nossos agricultores e nossas liberdades. Continuaremos guardando nossas sementes como um dever pela criação e por nossas comunidades. Continuaremos estendendo as zonas livres de organismos geneticamente modificados como zonas de biodiversidade e de liberdade alimentar. Espalharemos sementes de vida e deteremos a expansão das sementes da morte.

* A autora é escritora e promotora de campanhas a favor das mulheres e do meio ambiente.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Vandana Shiva

Vandana Shiva is an author and international campaigner for women and the environment. She received the Right Livelihood Award (Alternative Nobel Prize) in 1993.

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