México, 29/03/2006 – A porta aberta no Senado dos Estados Unidos em favor dos imigrantes alegrou líderes "latinos", incentivadores de enormes manifestações de rua nesse país contra uma reforma que os prejudica, bem como ao governo mexicano. Mas especialistas alertam que ainda é cedo para celebrar. "Estamos satisfeitos, embora não devamos diminuir a pressão até que finalmente nos considerem cidadãos com direitos", disse à IPS desde a cidade norte-americana de San Diego Enrique Morones, líder da não-governamental Anjos da Fronteira, organização que trabalha em favor dos imigrantes.
O comentário se refere ao projeto aprovado segunda-feira no comitê de Assuntos Judiciais do Senado norte-americano, que inclui vias para legalizar mais de 10 milhões de imigrantes sem documentos, a não-criminalização dessas pessoas e planos de entrada temporária para cerca de 400 mil trabalhadores estrangeiros por ano. A sanção deste projeto, que começou a ser examinado esta terça-feira em sessão plenária do Senado, surgiu após maciças mobilizações, jamais vistas antes, em várias cidades dos Estados Unidos. Mas o caminho ainda é longo e sinuoso para esta iniciativa, pois além da discussão em plenário entre senadores, deve conciliar-se com uma proposta de reforma migratória em sentido oposto decidida em dezembro na Câmara de Representantes, que inclui a ampliação do muro na fronteira com o México.
Convidados por organizações como Anjos da Fronteira e com incentivo de líderes da Igreja Católica, centenas de milhares de imigrantes "latinos" saíram no final de semana passado às ruas de várias cidades norte-americanas, especialmente em Los Angeles. Os manifestantes reclamaram uma reforma migratória humanitária que reconheça sua contribuição à economia do país no qual vivem. Além disso, expressaram sua indignação contra o projeto aprovado em dezembro na câmara baixa que criminaliza sua presença. O governo mexicano de Vicente Fox, que desde 2001 pede ao seu vizinho uma reforma migratória integral, aplaudiu as manifestações e aderiu às reivindicações. É que desde este país provém a maioria dos 40 milhões de imigrantes latino-americanos que vivem nos Estados Unidos com ou sem documentos.
A aprovação do projeto no comitê do Senado é um avanço muito importante e abre a porta para uma reforma integral, que é a que o México pede há vários anos, disse nesta terça-feira o chanceler Ernesto Derbez. Por sua vez, Fox fez votos de que antes do final deste ano se resolva de maneira definitiva a questão da imigração nos Estados Unidos. Mas o especialista em política mexicano Alan Urrutia advertiu, consultado pela IPS, que ainda é muito cedo para comemorar. "Resta muito caminho pela frente e é muito possível que o que foi aprovado pelo comitê do Senado se dilua em uma lei menos positiva para os imigrantes", afirmou. "Todos queremos uma lei racional para os imigrantes, mas com a política de Washington e seus interesses isso nem sempre é possível, já vimos isso por anos", ressaltou.
A última reforma migratória importante nos Estados Unidos que favoreceu com uma anistia os estrangeiros sem documentos, grande parte deles mexicana, foi assinada em 1986 pelo presidente Ronald Reagan (1981-1989) após cinco anos de discussão no Congresso. Fox, seu colega George W. Bush e o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, se reunirão nesta sexta-feira no balneário mexicano de Cancún para rever seus acordos de cooperação dentro do tratado de Livre Comércio da América do Norte. Fox indicou que aproveitará a oportunidade para voltar a falar a Bush da importância da reforma migratória.
"Fox deve falar forte nessa reunião não para sugerir ou pedir mudanças na política migratória a Bush, mas para exigir", disse à IPS Lucas Benítez, líder da Coalizão de Trabalhadores de Immokalee, no Estado da Flórida. Benítez, um camponês de origem mexicana que em 2004 recebeu o prêmio Robert F. Kennedy de direitos humanos, reclamou que Fox continue "a agir confiando na força que os latinos demonstraram ter nos Estados Unidos. As marchas do final de semana indicam que somos um gigante adormecido, mas que já despertou indignado de ver como é maltratado", afirmou.
Morones, o dirigente da Anjos da Fronteira, expressou algo semelhante sobre a reunião entre Fox e Bush. "Que nosso presidente aproveite a pressão que estamos gerando e que assim, de frente, fale sobre emigração e exija soluções", disse à IPS. O grupo Anjos da Fronteira iniciou em fevereiro uma caravana de veículos que percorreu desde a fronteira com o México até Washington. Segundo seu dirigente, foi uma viagem que animou muitos imigrantes latino-americanos a irem às ruas. Para o dia 10 de abril, esse grupo e outros prometem realizar nova manifestação de massa. "Ainda não sabemos se será uma marcha, uma greve ou um jejum", disse Morones.
Em 2005, mais de 400 mil imigrantes de origem latino-americana e caribenha entraram ilegalmente nos Estados Unidos apesar dos controles existentes, mas um milhão acabaram detidos e deportados. Embora a contribuição dos imigrantes para a economia norte-americana seja considerada significativa, setores legislativos e de governo dos Estados Unidos resistem a reconhecer essa situação. Assim que em dezembro a Câmara de Representantes aprovou um projeto para construir novos muros na fronteira com o México, endurecer os controles migratórios com o argumento da segurança e criminalizar os imigrantes ilegais. O governo fox convidou os países da América Central, a Colômbia e a República Dominicana a se manifestarem contra essa iniciativa, o que, finalmente, fizeram como bloco frente a Washington. (IPS/Envolverde)

