Bangcoc, 11/04/2006 – O processo da queda do ex-primeiro-ministro da Tailândia, Thaksin Shinawatra, permitiu aos meios de comunicação deste país redescobrir a crítica e o questionamento da autoridade, características pelas quais foram conhecidos no sudeste asiático. Nos últimos dois meses, notou-se certos sinais de renovada liberdade na imprensa, ao mesmo tempo em que dezenas de milhares de cidadãos da ampla classe média de Bangcoc saíram às ruas para se manifestarem contra o governo de Thaksin e pedir sua renúncia. Foi então que ele começou a ouvir o ressurgimento das vozes críticas – marginalizadas e caladas durante a maior parte dos cinco anos de seu governo – nos meios de comunicação controlados pelo Estado.
"As notícias que criticavam o governo estavam motivadas pela conjuntura política que se vivia nas ruas e pela grande consciência política imperante no público", disse á IPS a defensora da liberdade de expressão Supinya Klangnarong. "Do contrário, não teriam refletido o sentimento da população". Também os principais jornais independentes abandonaram sua anterior tolerância em relação ao governo de Thaksin para fazer eco aos questionamentos ao governo. "A cobertura da campanha eleitoral foi muito diferente da anterior. Ficou claro que a imprensa dominante gozava de uma liberdade sem precedentes", disse em uma entrevista o representante tailandês da Aliança da Imprensa do Sudeste Asiático, Kulachada Chaipipat. "Foi audaz e não dava sinais de medo diante das ameaças e do assédio", acrescentou.
No dia 4, Thaksin informou que não ocuparia a chefia de governo por um terceiro período, apesar de seu partido, Thai Rak Thai (Tailandeses Amam os Tailandeses, TRT) ter obtido 55,5% dos votos nas eleições realizadas no dia 2, o que considerou um referendo sobre sua gestão. Entretanto, uma altíssima proporção de cidadãos emitiu "não-votos" – marcando um quadro na folha de votação impresso para esse fim – como mostra de rejeição ao governo, ao mesmo tempo em que se registrou uma grande abstenção pelo boicote dos três principais partidos de oposição.
Supinya considera que a reivindicação reinante de liberdade de imprensa não será fácil de se apagar. Os jornalistas e os meios de comunicação foram reiteradamente alvo de ataques de Thaskin, ele próprio um magnata das telecomunicações antes de se converter em governante. Porém, "há um sentimento de que se voltou à liberdade que tínhamos antes" de seu governo, acrescentou Supinya. Inclusive, os numerosos seminários realizados por organizações não-governamentais refletiram a mudança que se respirava no ar. Existe um sentimento de liberdade para discutir assuntos políticos sem medo de represálias do governo.
Esta confiança é atribuída às maciças manifestações opositoras. Às vésperas das eleições, mais de cem mil tailandeses foram às ruas de Bangcoc gritando "Thaksin, oak pai" (Fora Thaksin). A pouca simpatia que o TRT e seu líder despertam entre jornalistas, acadêmicos, e inclusive burocratas, ficou evidente depois das eleições de janeiro de 2001, quando Thaksin conduziu seu partido a uma vitória massacrante. Contudo, quando assumiu o poder pela segunda vez consecutiva, nas eleições de fevereiro de 2005, obtendo um triunfo sem precedentes ao ganhar 377 das 500 cadeiras do parlamento, seu governo ficou famoso pela intolerância diante da crítica.
A pressão não era exercida no estilo tradicional dos autocratas, prendendo seus críticos por seus comentários. A imprensa enfrentou novos mecanismos de intimidação governamental, com ameaças de corte de publicidade oficial, investigações de bens dos proprietários e esforços para mudar jornalistas de suas áreas habituais de trabalho. Em julho passado, os editores de todos os jornais se reuniram, como não faziam desde 1997, para opor-se a um decreto do governo para acabar com a violência religiosa nas províncias do sul do país.
A lei dava amplos poderes ao primeiro-ministro para censurar as notícias enviadas dessa problemática região, onde vive a minoria malaia e muçulmana neste país de maioria budista. Em agosto de 2005, o conselho de imprensa da Tailândia, órgão autogestionado, havia registrado cerca de 50 casos de difamação contra jornalistas, quase o dobro de todo ano de 2004. Poucos se surpreenderam quando a organização Repórteres Sem Fronteiras, com sede em Paris, em outubro de 2005, passou a Tailândia do 59º, em 2004, para 107º, em 2005, em termos de respeito à liberdade de imprensa.
"Constantemente se recordava aos jornalistas que Thaksin era sensível e podia adotar represálias e reações desagradáveis", comentou o editor regional do jornal The Nation, Don Pathon, ao descrever o ambiente reinante na redação dos jornais nos últimos cinco anos. "Havia uma tendência à autocensura, sem desconhecer a responsabilidade que tínhamos. Devíamos nos arriscar", afirmou. A intolerância de Thaksin em relação aos seus críticos era famosa e freqüentemente atingia o tom de desdenho quando se ventilavam as deficiências de sua administração. Uma vez, quando um enviado da área de direitos humanos da Organização das Nações Unidas expôs abusos do regime, Thaksin respondeu: "A ONU não é meu pai". (IPS/Envolverde)

