Katmandu, 26/04/2006 – Centenas de milhares de pessoas festejaram, nesta terça-feira, na capital do Nepal, a restauração democrática, prometida pelo enfraquecido rei Gyanendra. Mas os rebeldes maoístas rechaçam o acordo entre os partidos políticos e o monarca. Nesta terça-feira, Katmandu passou por outro dia de manifestações maciças contra o regime de Gyanendra, mas sem repressão e em um contexto de alegria. Centenas de milhares de pessoas fizeram passeatas, cantaram e dançaram nas ruas. O alívio e certo ar de normalidade se impuseram na capital, horas depois de o rei se comprometer a aceitar o "poder popular", para não enfrentar uma enorme manifestação às portas do palácio real.
Os sete partidos políticos de oposição aceitaram a oferta do rei, feita na noite de segunda-feira: restabelecer o Parlamento, cuja câmara baixa foi dissolvida em 2002. Dois dias antes, haviam se negado a nomear um primeiro-ministro, como havia proposto Gyanendra, com a condição de suspender a greve geral e a mobilização de rua. Os líderes da aliança opositora designaram, na terça-feira, como primeiro-ministro o líder do Partido do Congresso, G. P. Koirala, e começaram a se preparar para a restauração da vida parlamentar, prevista para a próxima sexta-feira. Centenas de milhares de pessoas se preparavam, até então, para outra jornada de protestos, incluindo uma "cadeia humana" ao redor de Katmandu, mas o anúncio dos partidos foi interpretado pelas massas como a convocação para uma festa popular nas ruas.
Os manifestantes, que um dia antes desafiaram as forças de segurança que disparavam a queima-roupa para impor o toque de recolher, saíram às ruas para comemorar com os rostos pintados de vermelho, a cor da bandeira do Nepal. Em seis pontos do anel rodoviário que circunda a capital, explodiram festejos espontâneos, com danças tradicionais nepalesas e milhares de pessoas gritando a palavra democracia. "Estou feliz porque vem a democracia e estamos expulsando o rei", disse um homem, que pegou o repórter pelo braço para levá-lo até uma multidão que dançava.
O cheiro de pneus queimados ainda estava no ar, bem como os restos de borracha queimada nas ruas durante as jornadas anteriores pelos manifestantes que, assim, procuravam evitar a violenta repressão que sofreram durante 18 dias. Quinze pessoas foram mortas pelas forças de segurança durante a greve, que conseguiu grande adesão em todo o território nacional. Mais de cinco mil pessoas ficaram feridas em diversos graus e mil foram detidas, segundo o Partido do Congresso. No começo, as multidões foram notórias em cidades pequenas como a ocidental Pokhara e a meridional Bharapur.
Muitos observadores consideraram, então, que a apatia da classe média de Katmandu seria um obstáculo à convocação por parte da oposição. Contudo, a apatia se converteu em entusiasmo, na sexta-feira. O líder do Partido Comunista, Madhav Kumar Nepal, nesse dia acenava para a multidão, de uma janela de sua casa, diante do anel rodoviário, e gritava diante de jornalistas e funcionários estrangeiros: "Este é nosso tsunami humano". Um jovem taxista da capital dizia, nesta terça-feira: "Isto está certo. A gente estava morrendo, sem comida, sem trabalho".
Os líderes políticos de oposição previam que nesta terça-feira seria registrada a maior manifestação, talvez com a participação de um milhão de pessoas. "A multidão teria se dirigido ao palácio", disse um informante ligado a assessores religiosos da família real, para quem a oferta de Gyanendra, embora tardia, impediu um massacre. "O exército teria disparado", afirmou. O fim da greve geral implica o reinício do tráfego de mercadorias nas estradas e, por conseguinte, o fornecimento de combustível e alimento ao vale de Katmandu. Entretanto, os rebeldes maoístas rejeitaram o acordo entre o rei e os sete partidos opositores, e anunciaram que manterão o bloqueio das estradas, incluindo a única que leva à capital.
Em uma declaração divulgada na terça-feira, os líderes rebeldes advertiram os políticos que se sentiam traídos. No décimo-primeiro aniversário do levante para pôr fim à monarquia e acabar com a discriminação contra mulheres, indígenas e dalits (a classe mais baixa no sistema de castas hindu), os maoístas contam com sete mil combatentes em tempo integral e 25 mil milicianos, que controlam boa parte do interior do Nepal. Os partidos políticos opositores e o proscrito Partido Comunista do Nepal-Maoísta (que lidera a guerrilha) havia superado, em novembro, suas tradicionais diferenças ao chegarem a um acordo contra o regime de Gyanendra, que incluía a convocação de uma Assembléia Constituinte que analisaria o fim da monarquia.
Os maoístas pretendem manter o bloqueio até que os partidos de oposição consigam que o monarca concorde em convocar uma assembléia constituinte. Os partidos asseguraram, nesta terça-feira, que o próprio Parlamento se encarregaria da convocação. "O anúncio de eleições para a formação da Constituinte será a principal medida do Parlamento restaurado", disse o secretário-geral do Partido do Congresso, Ram Chanra Paudel, no site noticioso Ekantipur.com. Os líderes partidários também anunciaram a realização de uma reunião ao ar livre, com presença de público, para anunciar sua agenda, o que representa uma enorme mudança em suas práticas políticas tradicionais.
Muitos cidadãos estão desiludidos com os partidos políticos e a democracia em geral, anos depois da revolução democrática que pôs fim à monarquia absolutista. O então rei Birendra se despojou, em 1990, de suas faculdades discrecionais e instaurou uma monarquia constitucional e parlamentar. Neste período, a corrupção campeou e os dirigentes políticos pareceram esquecer o desenvolvimento deste país desesperadamente pobre da Ásia meridional. Por isso, muitos pareciam dispostos a dar um crédito de confiança ao rei Gyanendra no dia 1º de fevereiro de 2005, quando o monarca deu o golpe de Estado pelo qual destituiu seu primeiro-ministro e seu gabinete e assumiu todo o poder político.
Entre os motivos que alegou, estavam o fracasso dos partidos em frear a corrupção e as lutas internas que dominaram o país desde a revolução popular de 1990. Porém, o principal argumento foi a falta de progresso do governo civil para acabar com a insurgência maoísta. O conflito armado fez mais de 13 mil mortes em dez anos. Entretanto, o rei não deu mostras de acabar com os rebeldes, e sua estratégia de mão dura originou queixas por parte dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha e da Índia, o que o privou da vital assistência militar.
Depois de dar o golpe de Estado, Gyanendra se cercou de políticos experientes – muitos deles do sistema "panchayat", anterior à democracia – e rechaçou todos os apelos para negociar com os maoístas e os partidos, os quais ameaçou declarar como "terroristas" se mantivessem seu pacto com os rebeldes. Quando se estava no meio do caminho para uma paz formulada por Gyanendra, de três anos, ainda não havia sinais de solução para a guerra civil. A campanha contra seu regime se acelerou antes das eleições locais de fevereiro, boicotadas pela oposição. Poucas semanas depois, a oposição passou à ação. Organizações de profissionais, donas de casa e funcionários públicos foram às ruas da capital e de outras cidades demonstrar sua oposição à ditadura. (IPS/Envolverde)

