Sudão: Isolados por ruínas e minas terrestres

Johannesburgo, 26/04/2006 – O Programa Mundial de Alimentos (PMA) expressou preocupação pela situação no sul do Sudão, para onde as agências humanitárias enviam ajuda apenas por ar, por causa das más condições das estradas na região, devastada por mais de duas décadas de guerra civil. "É catastrófico. O sul estava extremamente subdesenvolvido antes da guerra. E a guerra destruiu tudo", disse à IPS, por telefone, de Nairóbi, Peter Smerdon, dessa agência da Organização das Nações Unidas. "As comunidades estão isoladas. É difícil chegar a algumas delas. Desmontar as minas terrestres e melhorar as estradas ajudará as pessoas a se moverem dentro do país", acrescentou. Entretanto, isto poderia demorar um bom tempo por causa da falta de recursos.

O PMA estima que seu programa de reparação urgente de estradas e desmantelamento de minas terrestres ao longo de três mil quilômetros das principais rotas do Sudão, no valor de US$ 183 milhões, enfrenta um déficit de US$ 70 milhões. "Desde o final de 2003, o PMA reconstruiu cerca de 1,4 mil quilômetros de estradas, reparou pontes e redes de água, e removeu e destruiu cerca de 200 mil peças de artefatos explosivos", disse a agência em um comunicado divulgado no dia 12. "Se forem feitas as contribuições necessárias, o PMA abrirá finalmente toda a região e será possível transitar das fronteiras do sul do Sudão até Cartum, e inclusive chegar ao Egito, pela primeira vez em uma geração", acrescentou.

Apesar dos obstáculos, já são visíveis os progressos com a iniciativa para reparar estradas. "Por exemplo, ir de Yei a Juba (distantes cerca de 160 quilômetros) costumava demorar dois dias de automóvel. Agora o percurso é feito em três horas e meia", disse Smerdon. As autoridades sudanesas dizem estar comprometidas com a abertura das estradas. "Não pode haver um desenvolvimento significativo sem uma boa rede de estradas no sul do país. A política do governo é construir estradas modernas, que liguem várias partes do sul entre si e com o mundo", disse este mês, no Parlamento da região, o vice-presidente do Sudão e chefe de governo no sul, Salva Kiir.

O sul do país goza de certa autonomia graças ao acordo de paz que pôs fim à guerra civil no ano passado. A região prevê submeter a votação a possibilidade de separar-se do resto do país em 2011. A guerra civil colocou frente a frente, durante 20 anos, o governo islâmico de Cartum e o rebelde Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM). O Exército Popular de Libertação do Sudão, braço armado do SPLM, combate pela autonomia do sul, onde a população é majoritariamente negra e cristã ou animista, enquanto a do norte, em sua maioria árabe e muçulmana, controla o governo central e tentou, em 1983, aplicar no país a lei islâmica, o que desencadeou o conflito.

Essa guerra, a mais antiga da África, causou a morte de mais de dois milhões de pessoas, em sua maioria civis e, em grande parte, pela fome provocada pelo conflito, bem como o deslocamento de quatro milhões de pessoas. Kirr anunciou que planejava a construção de uma ferrovia para ligar Juba, capital regional, com a cidade portuária queniana de Mobasa, atravessando Uganda ou a região ocidental do Quênia. "Também estamos discutindo com a República Democrática do Congo (RDC) ligar Juba-Yei-Lasu com a cidade congolesa de Kinsangani, para que a RDC abra seus mercados ao sul do Sudão", afirmou.

Rebecca Nyandeng, viúva do fundador do SPLM, John Garang, foi designada ministra de Transportes e Estradas pelo vice-presidente Kiir. Garang morreu em um acidente de helicóptero quando voltava de Uganda, em julho passado, apenas três semanas após ter assumido o cargo de vice-presidente. O ex-líder rebelde costumava dizer que no sul do Sudão não havia estradas "desde a Criação". A maior dificuldade de Nyandeng será remover as minas terrestres, legado mortal de vários conflitos bélicos. Entre 500 mil e dois milhões de minas foram implantadas no Sudão, segundo a MineTech International, empresa britânica dedicada à remoção desse tipo de explosivos e que opera nesse país africano. A companhia diz que o Sudão é um dos dez países com mais minas ativas no mundo, o que limita severamente as operações das agências humanitárias.

O Escritório de Ação contra as Minas, criado em 2003 pela ONU para coordenar todos os programas de remoção destes artefatos no Sudão, estima que 155 comunidades e 4.270 quilômetros quadrados de terreno estão em risco no sul do país. Os explosivos foram deixados tanto por forças rebeldes quanto do governo. A tarefa de Nyandeng será dificultada também pelas atividades do Exército de Resistência do Senhor (LRA), grupo rebelde ugandense que recruta à força meninos e meninas como combatentes e mutila suas vítimas. O LRA continua agindo no sul do Sudão. Em novembro passado, matou dois trabalhadores dedicados à remoção de minas, um sudanês e um iraquiano, o que levou a Fundação Suíça para a Ação contra as Minas a suspender temporariamente seus programas no sul do Sudão. (IPS/Envolverde)

Moyiga Nduru

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