Iraque: Portar arma, tão importante quanto comer

Bagdá, 30/05/2006 – As armas de fogo são vistas pela população iraquiana como uma necessidade básica, apenas superada pela comida e a bebida. No regime de Saddam Hussein (1979-2003), a posse de arma de fogo era muito regulada. Mas após a invasão liderada pelos Estados Unidos que pôs fim a esse governo, as forças armadas entraram em colapso e os arsenais e depósitos de munição ficaram sem vigilância. Em um ambiente de falta de segurança, esses fatos alimentam o crescente apetite popular pelas armas. Muitos as compram – ou pegam as que encontram nas ruas – para se defender da erupção de anomia depois da queda de Bagdá.

Porém, a onda de massacres em represália desatada com o atentado contra a mesquita Al-Askariyah, na cidade de Samarra, em fevereiro, foi o que aumentou drasticamente o desejo de toda família iraniana de possuir pelo menos uma arma. "É importante que todo iraquiano tenha uma arma para proteger a si mesmo e à sua família", disse à IPS Abu Hasan, um vendedor de armas em Bagdá. "Não há nenhuma segurança no Iraque, e não temos um governo que nos proteja. As forças de ocupação só protegem a si mesmas", disse.

O ex-administrador da hoje dissolvida Autoridade Nacional de Coalizão, L. Paul Bremer, proibiu em 2003 a posse de mais de uma arma por família, o que frustrou muitos iraquianos que pretendiam ter pelo menos duas: uma para proteger sua casa e outra para quando algum membro da família atravessasse uma zona insegura. Essa necessidade se transformou em desespero depois do atentado em Samarra. O professor Abu Thu al-Fikar comprou uma arma pelo equivalente a US$ 250. Foi cara, mas "há massacres por todos os lados. Devo proteger minha família", disse á IPS.

Samir, vendedor de armas, afirmou que o negócio tem seus altos e baixos. "Quando as forças de ocupação entraram em Bagdá, o exército iraquiano se desfez de suas armas nas ruas. Os civis as pegaram e guardaram em suas casas", recordou. Isso causou uma queda nas venda. Em 2003, também foi difícil encontrar clientes, porque todos tinham uma ou mais em casa. "Alguns o fizeram para se juntar aos rebeldes, outros para dar de presente quando necessário", explicou.

A demanda voltou a crescer. Muitos iraquianos têm pistolas ou fuzis de assalto Kalashinikov (AK-47) para se proteger, tanto dos esquadrões da morte como da violência religiosa. Por outro lado, os integrantes da resistência têm armas mais avançadas e, segundo diversas versões, contam com pequenos mísseis e morteiros. Ali Minshid, funcionário do Ministério de Desportes, lembrou que os controles existem, pelo menos no papel. "Tenho uma identificação especial para portar minha pistola, mas muitos o fazem sem permissão, e o governo não pode controlar isso", afirmou.

Embora trabalhe para o governo, Minshid apóia as famílias que adquirem suas armas ilegalmente. "Nestas circunstâncias, todo iraquiano deve ter uma. Ainda que não tenha dinheiro, deveria pedir emprestado e comprar uma arma para proteger sua família. "Fazer isso é mais importante do que comer", ressaltou. O crescente fluxo de armas é conseqüência da ansiedade geral e da "violência sectária", contudo muitos iraquianos têm medos específicos. Samir teme a influência do Irã e acusa os Estados Unidos por se concentrarem muito pouco na fronteira leste do Iraque quando começou a ocupação. As falhas norte-americanas em matéria de segurança incentivaram os iraquianos a comprar armas.

Muitos iraquianos dizem que a resposta do governo não ajuda. Abú Assan, por exemplo, considera que as autoridades agem de maneira sectária. "Confiscam as armas em bairros sunitas e as deixam nas áreas xiitas. Creio que é porque os sunitas resistem à ocupação e os xiitas controlam o governo atual", afirmou. Samir disse que um de seus clientes é tão pobre que nunca poderia comprar a arma mais barata. "Mas até os pobres pedem dinheiro emprestado quando se trata de comprar uma arma", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Isam Rashid

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