Jerusalém, 31/05/2006 – Mahmoud Abbas não é um líder que se possa qualificar de carismático e sociável ou com tendência a iniciativas políticas audazes. Triste, cauteloso e tecnocrata são alguns dos adjetivos utilizados comumente para descrever o presidente palestino. Mas Abbas, que pertence ao partido laico Fatah e deve co-habitar com um governo do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), se encontra em meio do que pode vir a ser a maior aposta de sua longa trajetória política. Trata-se de uma manobra inusitada e de alto risco para sair da crise e da escalada de violência, que pode chegar a redefinir a política palestina e redesenhar as relações entre seu povo e Israel.
Abbas anunciou que se o Hamas não aceitar no prazo de 10 dias a existência de um Estado palestino junto a Israel submeteria o programa político para a paz na região a um referendo nacional, a ser realizado dentro de 40 dias. Isto implica o reconhecimento do Estado judeu, uma questão delicada para o Hamas, que inclui a destruição de Israel como objetivo em um parágrafo de seus estatutos. "Se não chegarem a um acordo, quero dizer-lhes francamente que submeterei este documento a um referendo", afirmou o presidente palestino no dia 25 passado em Ramalá, na abertura de um "diálogo nacional" entre o Hamas e o Fatah convocado para acalmar os violentos choques entre os dois partidos.
O programa ao qual Abbas se referia foi redigido em uma prisão de Israel por prisioneiros pertencentes aos dois lados. Nesse documento é reclamado um tratado de paz com o Estado judeu no caso de se retirar dos territórios que invadiu em 1967 (Cisjordânia, Gaza e Jerusalém oriental). Os palestinos consideram que os presos em Israel são a vanguarda de sua luta pela independência. Suas opiniões têm um grande peso político. Tanto Israel, sem demora, quanto o Hamas, com certo atraso, rejeitaram a tática de Abbas de consultar a população.
O ministro israelense da Justiça, Haim Ramon, do centrista partido Kadima, que conduz a coalizão de governo, declarou que o documento não pode ser a base das negociações porque prevê o "direito de regresso" aos palestinos refugiados em outros países. Uma grande maioria dos israelenses é contrária a esse retorno, por medo de que a afluência de palestinos e as tendências demográficas signifiquem o fim do Estado judeu. "Quero ver um palestino que renuncie ao seu direito de voltar", disse Ramon. Os líderes do Hamas, pegos de surpresa pela aposta de Abbas, qualificaram seu ultimato de tentativa de invalidar a vontade dos eleitores palestinos, que conduziram o movimento islâmico a uma esmagadora vitória nas eleições parlamentares de janeiro.
Enfurecido pela jogada de Abbas, Mushir al-Masri, legislador do Hamas em Gaza, atacou a idéia de um referendo descrevendo-o como "golpe de Estado contra a preferência democrática" do povo palestino. O chanceler palestino, Mahmoud al-Zahar, expressou na segunda-feira o mais duro rechaço já manifestado por um funcionário palestino à proposta de Abbas. "Ninguém vai reconhecer Israel, não é necessário um referendo", disse na Malásia, onde se encontra em viagem. Além disso, o governo carece de dinheiro para organizar uma consulta popular, acrescentou.
O ultimato de Abbas deve ser visto como parte de seu confronto com o Hamas, cada vez mais virulento desde que este movimento islâmico derrotou a Fatah nas eleições de janeiro. O último episódio grave foi a recente decisão do Hamas de enviar para Gaza três mil combatentes bem armados para a manutenção da ordem, o que foi condenado pelo presidente e seu partido. Enfrentamentos destrutivos surgiram nas últimas semanas, geralmente tiroteios entre membros da Fatah e do Hamas, bem como atentados contra destacados funcionários de segurança. Até o momento foram registrados 10 mortos.
Os dois movimentos mantiveram reunião no fim de semana para aliviar a tensão, mas o ultimato de Abbas sacudiu o diálogo. A jogada surpreendente do presidente palestino, favorável ao diálogo com Israel, pretende pressionar o Hamas para que modere sua postura antiisraelense. "O Hamas não tem saída. Se aceitar a iniciativa dos presos, será uma vitória para Abu Mazen (apelido de Abbas). Se a rejeitar, perderá muitíssimos pontos frente à opinião pública Palestina. O povo está preparado para apoiar a proposta", disse á IPS o legislador árabe-israelense Ahme Tibi.
Tibi, que foi assessor pessoal de Yasser Arafat, considera que cerca de 70% dos palestinos apoiariam o documento, uma base sólida " para alcançar um acordo histórico" entre israelenses e palestinos. Entretanto, não espera que o movimento islâmico aceite e prevê que continuarão os conflitos, seguramente com Abbas promovendo um decreto que ordene a realização do referendo e o Hamas procurando bloqueá-lo no parlamento. "É óbvio que Abu Mazen passou a bola para o lado contrário".
O estratagema do referendo tem um duplo propósito. Também pretende contrapor-se ao impacto da última proposta de retirada da Cisjordânia feita pelo primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert. O plano implica uma retirada unilateral de vastas zonas da Cisjordânia, onde cerca de 240 mil colonos judeus vivem em mais de 120 assentamentos. O anúncio de Abbas coincidiu com o retorno de Olmert de Washington na semana passada, onde conseguiu um entusiasmado apoio do presidente George W. Bush para sua proposta.
Os palestinos se opõem duramente a uma retirada unilateral por medo de que Israel imponha a fronteira, roubando, assim, território do futuro Estado palestino na Cisjordânia. Entretanto, se Abbas pode aparecer como um negociador confiável com uma proposta séria, então Olmert teria de renunciar ao unilateralismo e voltar à mesa de negociações. Mas, Abbas já apostou. Se o seu lance falhar e não conseguir acalmar o Hamas, pode se tornar um presidente meramente figurativo sem influência no âmbito internacional. (IPS/Envolverde)

