Oakland, EUA, 03/05/2006 – Uma onda de chamados à violência antiimigrante nos Estados Unidos serve como pano de fundo para o clamor pela regularização de 11 milhões de trabalhadores sem documentos. Este fenômeno reúne a retórica violenta de dirigentes nacionalistas e apresentadores de programas de rádio e televisão, bem como agressões reais contra os imigrantes. No dia 27 de abril – às vésperas do maciço protesto de 1º de maio denominado "o grande boicote", ou "dia sem imigrantes" – um milhar de pessoas participaram de um ato denominado "Desmagnetizar os Estados Unidos", na localidade de Franklin, no Estado do Tennessee. Ali, o apresentador de rádio de Nashville, Phil Valentine, exortou a Patrulha de Fronteira norte-americana a considerar a possibilidade de disparar contra imigrantes ilegais tão logo cruzem a fronteira desde o México.
A diretora da antiimigrante Federação para a Reforma Migratória dos Estados Unidos (Fair), Susan Tully, "segurou o riso, enquanto a multidão rompia em aplausos", segundo um informe publicado no site da Iniciativa para a Construção da Democracia do Centro para a Nova Comunidade. O ato foi transmitido ao vivo pela emissora de rádio de Valentine, a SuperTalk 99.7 WTN. O Centro para a Nova Comunidade "foi a primeira organização que informou" sobre as declarações de Valentine, disse à IPS Devin Burghart, especialista em nativismo dessa organização com sede em Washington.
Nativismo é a denominação de um movimento político e cultural norte-americano originado no século XIX e na época integrado por brancos protestantes de origem anglo-saxônica contrários à imigração européia. Essa corrente se alimentava de uma intensa rejeição aos católicos. O Centro para a Nova Comunidade recebeu vários informes sobre veladas ameaças de violências proferidas por apresentadores de programas de rádio de outras partes do país, além do Tennessee, disse Burghart. Brian James, apresentador da KFYI, uma emissora AM da cidade de Phoenix, sugeriu no ar, no mês passado, que uma solução para o problema da imigração no Estado do Arizona seria matar os imigrantes ilegais à medida em que cruzassem a fronteira, acrescentou o especialista.
"O que faremos será escolher uma noite por semana, ao acaso, e matar qualquer um que cruzar a fronteira", disse James, segundo relato de Burghart. "Passe por aí e morra. Tem de decidir se esta é sua noite de sorte, ou não. Creio que assim seria mais divertido. James "disse que seria 'feliz sentando-me ali com meu rifle de alta potência e mira de visão noturna? para matar as pessoas que cruzarem a fronteira. Também sugeriu que os membros da Guarda Nacional disparem contra os imigrantes ilegais e recebem US$ 100 por cabeça", afirmou o especialista do Centro para a Nova Comunidade. Pior ainda do que a violência retórica são as ocorrências de ataques.
"Há pouco tempo, dois skinheads (carecas) simpatizantes do "poder branco" atacaram brutalmente um latino de 16 anos no subúrbio de Spring, em Hoston, no Texas. Eles o violentaram sexualmente com um cano de plástico e pisotearam sua cabeça com as botas enquanto o maldiziam por ser mexicano", contou Burghart. Duas organizações de direitos civis (o Centro Legal Sureño da Pobreza (SPLC) e a Liga Antidifamatória) documentaram o aumento recente da violência e das ameaças contra imigrantes ilegais. O SPLC informou que a dirigente Laine Lawless, da organização antiimigrante Guardiões Fronteiriços, chamaram em reiteradas oportunidades à violência contra os trabalhadores sem documentos.
Lawless enviou no dia 3 de abril uma mensagem por e-mail para Mark Martin, "comandante" da "unidade de Ohio ocidental" do Movimento Nacionalista socialista. A carta tinha por título "Como tirá-los de cima". Lawless, integrante da milícia liderada por Chris Simcox antes que mudasse o nome para Projeto Minutemen no começo de 2005, sugeriu várias maneiras de fustigar e aterrorizar os imigrantes ilegais, incluindo roubo e surras às saídas das fábricas.
"Façamos com que todo estrangeiro ilegal sinta o que é carecer de status. Ouvi que os rednecks (camponeses brancos dos Estados do sul) estão batendo em ilegais e que as fábricas têxteis fecham. Usem sua imaginação", escreveu Lawless. "Desestimulem as crianças que falam espanhol de irem à escola. Sejam criativos", acrescentou. "Lancem uma campanha anônima de propaganda advertindo que qualquer novo imigrante ilegal receberá tiros, será mutilado ou seriamente surrado ao cruzar a fronteira. Seria bem fácil fazer isso, considerando a histeria da imprensa de língua espanhola e como qualificam os Minutemen de racistas e patrulheiros", acrescentou.
Em seu informe intitulado "Extremistas declaram 'temporada de caça" ao imigrantes: Hispânicos são alvo de incitação e violência", a Liga Antidifamatória examina "como supremacistas brancos, skinheads racistas e outros identificados com a extrema-direita usam o debate nacional sobre a reforma migratória como meio para incentivar aqueles que pensam de modo parecido como o deles a manifestar suas idéias e, inclusive, a cometer atos de violência. Este informe nos lembra que existe uma ligação direta entre o debate nacional e o clima que cerca a vida diária dos imigrantes", disse o diretor nacional da Liga, Abraham H. Froxman.
Políticos contrários à imigração e várias figuras conhecidas através de canais de televisão por cabo contribuem com a crescente toxidade do clima antiimigrante. A organização de jornalistas Imparcialidade e Exatidão na Informação advertiu que o apresentador da rede de notícias por cabo CNN Lou Dobbs, do programa "Lou Dobbs Tonight", incita regularmente os sentimentos antiimigrantes de sua audiência. "O tom de Dobbs é consistentemente alarmista. Alerta seu público de que os imigrantes mexicanos vêem a si mesmos como um 'exército invasor? que tenta reanexar ao seu país de origem parte do território do sudeste dos Estados Unidos", afirmou a organização em um comunicado.
Além disso, Dobbs costuma identificar os imigrantes com contrabando, tráfico de drogas e "importação mortal de doenças como lepra e malária", segundo a organização. Burghart, por sua vez, considerou que "o uso flagrante destes chamados à violência é sintomático de um movimento nativista de crescente desespero e radicalidade. Este novo nativismo se arraiga na violência: desde a histeria retórica da 'invasão? e da 'guerra civil?, passando pelas teorias racistas conspiratórias da 'reconquista?, até os chamados às milícias para 'pegar? imigrantes ou coisas piores", advertiu o especialista. "Sempre esteve ali. O atual contexto se limita a empurrar essa violência subjacente para a superfície", concluiu Burghart. (IPS/Envolverde)
(*) Bill Berkowitz é um destacado observador do movimento conservador norte-americano. Publica periodicamente a coluna "Conservative Watch" na revista eletrônica WorkingForChange.org.

