Racismo-Alemanha: Jogadores em perigo

Berlim, 23/05/2006 – Os jogadores estrangeiros que participarão da Copa do Mundo da Alemanha, especialmente se forem negros, deverão estar alertas diante de possíveis ataques, segundo ex-funcionários do governo e especialistas. O ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble, garantiu que o país “é seguro para os visitantes estrangeiros”. Os 12 estádios em que serão disputadas as partidas do Mundial são “totalmente seguros”, acrescentou. Entretanto, nem todos compartilham dessa opinião oficial. O ex-porta-voz do governo anterior, Iwe-Karsten Eye, entrevistado pelo jornal social-democrata Vorwaerts, alertou que uma pessoa que não seja caucasiana não deve visitar determinadas localidades do país, por razões de segurança. Trata-se de "povoados médios de Brandenburgo (o estado que rodeia Berlim) que não recomendaria a ninguém com uma cor de pele diferente. É possível que não saiam vivos dali", afirmou. O ex-ministro da Defesa, Peter Struck, disse que as declarações de Heye "não ajudam em nada". Por sua vez, Volvgang Huber, bispo protestante de Berlim-Brandenburgo, considerou que o ex-porta-voz foi "muito longe". Huber assegurou que foram tomadas muitas medidas no Estado ao longo dos anos para acabar com o racismo e a xenofobia. "Certamente que aqui reconhecemos que essa violência deve ser combatida", disse.

No entanto, várias organizações concordaram com o que disse Heye. A Anistia Internacional afirmou que o ex-porta-voz expôs "um problema sério". Por sua vez, Arwa Hassan, da organização Transparência Internacional, com sede em Berlim, disse à IPS que Heye fez o certo ao apontar o perigo. "Os negros correm risco especial de serem ridicularizados ou abordados por provocadores em alguns lugares do país", acrescentou. A própria Hassan, alemã de ascendência egípcia, foi atacada há pouco tempo em um bonde no norte de Berlim. "Começaram com comentários insultantes. Disseram que eu era estrangeira, puxaram meu cabelo e me empurraram. Quando procurei ajuda com o condutor, me puseram para fora", contou.

As autoridades trabalham para impedir esses incidentes durante a Copa do Mundo. O prefeito de Nuremberg, Ulrich Maly, disse à IPS que foram tomadas medidas nesse sentido e que haverá "contínua vigilância durante todo o mundial". Consultado sobre a violência que costuma cercar as partidas de futebol, e especialmente sobre os antecedentes de alguns fanáticos da seleção inglesa, Maly assegurou que "nenhum país está mais preocupado com isso" do que a Grã-Bretanha. "Aqueles fanáticos com antecedentes de violência serão impedidos de entrar na Alemanha no próximo mês", afirmou o prefeito.

Acostumado a responder perguntas de visitantes sobre o papel de Nuremberg durante o período nazista, Maly disse: "Esse foi um capítulo horrível de nossa história. Agora, se vê outro, o de uma cidade moderna, tolerante, aberta ao mundo e muito entusiasmada com a perspectiva de dar as boas-vendas a muitos turistas neste verão". Com meio milhão de habitantes, Nuremberg é a segunda cidade do Estado da Bavária e se prepara para receber uma grande quantidade de visitantes quando as seleções de México e Irã se enfrentarem no estádio Franken, no dia 11 de junho. Depois jogarão, nesse mesmo estádio, Inglaterra e Trinidad Tobago, Japão e Croácia, Gana e Estados Unidos.

O estádio Franken fica em meio a um complexo desportivo de 15 quilômetros quadrados que no período nazista foi palco de gigantescas manifestações de seguidores de Adolf Hitler. Ainda se pode ver ali muitos dos edifícios dessa época.

Uma agência de inteligência policial encarregada de vigiar a prática de esportes, chamada ZIS (sigla em alemão), compilou milhares de arquivos sobre hooligans (torcedores violentos). O subdiretor da ZIS, Andréas Morbach, afirmou que "os agentes de polícia começaram a contatar policiais dos 32 países participantes e estão reforçando vínculos já existentes", disse Morbach à IPS. Cerca de 250 mil policiais alemães, e outros em roupas civis, estarão cuidando da segurança durante a Copa do Mundo. A maioria dos agentes da ZIS estará "trabalhando sob o mesmo teto, analisando a informação minuto a minuto. Será um enorme desafio", acrescentou Morbach. (IPS/Envolverde)

Clive Freeman

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *