Racismo-Alemanha: Neonazismo, o gol contra

Berlim, 24/05/2006 – Enquanto a Alemanha se prepara para receber uma onda de turistas de todo o mundo durante a Copa do Mundo, o ataque racista contra um político e uma anunciada manifestação neonazista jogam uma sombra sobre os preparativos do máximo torneio internacional de futebol. No que constitui o mais recente atentado racista neste país, um político de origem turca foi insultado e ferido na cabeça com uma garrafa por dois homens que o interpelaram em um bairro do leste de Berlim. Gyiasettin Sayan, de 56 anos, porta-voz dos imigrantes no governo local, foi internado na última sexta-feira com coma cerebral. Enquanto isso, grupos neonazistas preparam um protesto durante o Mundial em apoio às polêmicas declarações do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que qualificou de ?mito? o genocídio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A manifestação acontecerá na cidade de Leipzig, onde jogará a seleção de Angola. As autoridades alemãs esperam um aumento da violência racista durante a Copa do Mundo, que acontecerá entre 9 de junho e 9 de julho.

Na segunda-feira, os serviços de inteligência alemães revelaram um aumento nos crimes cometidos por grupos de ultradireita. Ao apresentar seu informe anual 2005, o ministro do Interior, Wolfgang Schaeuble, destacou o compromisso do governo no combate à violência extremista. ?O comportamento dos eleitores jovens, sobretudo dos homens, me preocupa porque demonstra uma alta susceptibilidade para o pensamento de extrema direita?, afirmou. O ministro disse que mais de 5% dos homens entre 18 e 24 anos votaram no ultradireitista Partido Nacional Democrático (PND) nas eleições federais do ano passado.

No país, quase 10% dos integrantes da mesma faixa etária apoiaram o PND. O ministro disse que não somente a Alemanha estaria ameaçada pela ultradireita, mas admitiu que se encontra em circunstâncias especiais devido ao seu passado nazista. ?Temos uma responsabilidade especial porque aprendemos com a história?, afirmou Schaeuble. Os serviços de inteligência indicaram que o número de ultradireitistas dispostos a cometer atos de violência aumentou de 40 para 10.400 no ano passado, em relação a 2004. Por outro lado, o número de ataques por motivos raciais cresceu quase um quarto, chegando a 958.

Ativistas contra o racismo dizem que muitos crimes não são registrados e, portanto, não constam das estatísticas oficiais. Os líderes políticos alemães debatem há vários anos como acabar com as atividades neonazistas. Após a reunificação alemã em 1990 houve um aumento da violência de extrema direita, sobretudo no leste, onde havia um alto desemprego e uma grande incerteza econômica e social. Entre os piores ataques destaca-se o incêndio em 1992 de um abrigo de imigrantes solicitantes de asilo na cidade de Rostock. O incidente comoveu os habitantes do lugar, que aplaudiram quando os estrangeiros conseguiram fugir das chamas. Um ano depois, cinco membros de uma família turca morreram quando sua casa foi incendiada, na cidade de Solingen.

A estes crimes seguiram uma indignação geral, medidas drásticas da polícia e campanhas de informação governamentais para promover a tolerância, mas a violência racista continua, principalmente no leste. Desde a reunificação, cerca de cem pessoas morreram em ataques cometidos por ultradireitistas. Os ataques racistas e antijudeus são mais comuns nos Estados de Brandenburgo e Saxônia-Anhalt. No mês passado, em Potsdam, capital de Brandenburgo, um cidadão alemão de origem etíope foi atacado e deixado em estado de coma.

Anetta Kahane, presidente da Fundação Amadeu Antonio, uma organização defensora dos direitos humanos cujo nome homenageia um angolano assassinado em 1990 por skinheads (cabeças raspadas), em Brandenburgo, disse à IPS que ?para os estrangeiros que vivem na Alemanha os ataques são algo da vida diária?. Mas com a Copa do Mundo esta situação pode se agravar. A União de Oficiais de Polícia solicitou à justiça que proíba manifestações perto dos estádios onde haverá jogos do Mundial, argumentando que as forças de segurança estão voltadas à vigilância dos espetáculos esportivos.

O presidente do não-governamental Conselho de África, Moctar Kamara, alertou que muitas pessoas não-brancas podem ser atacadas durante o torneio. ?Já recebemos informes de que skinheads italianos se preparam para viajar à Alemanha. Está claro que os extremistas de ultradireita estarão ativos?, disse à IPS. O risco da violência racista vai na contramão do lema da Copa do Mundo, que é ?Tempo de fazer amigos?, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Jess Smee

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