Desarmamento: Oferta condicional dos EUA é rechaçada

Washington, 02/06/2006 – A oferta dos Estados Unidos para somar-se às negociações multilaterais sobre o programa nuclear do Irã, em troca de esse país deixar de enriquecer urânio, foi rechaçada esta quinta-feira por Teerã, que reivindicou seu "direito legítimo" de possuir a tecnologia atômica. Cedendo à crescente pressão de seus aliados do outro lado do Atlântico, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, havia anunciado na quarta-feira que Washington estava disposto a colaborar com o grupo de países da União Européia que negociam com o governo iraniano sobre questões nucleares, integrado por Alemanha, França e Grã-Bretanha, e conhecido como UE-3.

Entretanto, Rice colocou como condição que antes o Irã deve aceitar um congelamento "verificável" de seu plano de enriquecimento de urânio. Essa condição já havia despertado dúvidas entre analistas norte-americanos a respeito do resultado que a proposta teria. Foi "um passo positivo, mas também perigoso, já que ao serem impostas condições, por mais razoáveis que sejam, abre-se caminho para que os iranianos imponham as suas", afirmou Trita Parsi, especialista em questões iranianas da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados. "E, então, recomeçamos do zero, sem negociações, sem progressos, sem diplomacia, enquanto os iranianos seguem adiante com seu programa", disse à IPS.

Por sua vez, o diretor do Instituto do Oriente Médio da Universidade de Colúmbia, Gary Sick, havia advertido que "com o diálogo condicionado, no qual eles primeiro têm de aceitar nossos desejos, Teerã poderia se mostrar muito recitente". Sick atuou como especialista em temas iranianos para o Conselho de Segurança Nacional durante o governo do presidente Jimmy Carter (1977-1981). O anúncio de Rice foi feito às vésperas da última rodada de conversações entre China, Estados Unidos, Rússia e o UE-3, em Viena, a respeito de um pacote de ofertas com as quais pretendem convencer o Irã a parar seu programa de enriquecimento de urânio, o passo prévio para a fabricação de armas atômicas.

Nesta quinta-feira, o chanceler iraniano, Manuichehr Mottaki, saudou a nova oferta de Rice, mas rechaçou a condição imposta e ressaltou que seu país não fará nenhum tipo de concessão em seu "direito legítimo" de possuir tecnologia nuclear. Com o apoio do UE-3, o governo Bush pressiona o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para que aprove uma resolução com sanções internacionais contra o Irã caso o país não concorde em suspender seu programa atômico. Entretanto, China e Rússia se opõem a essa medida e pedem que Washington seja mais flexível.

Teerã garante que seu programa tem apenas fins pacíficos, amparados pelo Tratado de Não-Proliferação Nuclear, mas os Estados Unidos e outras potências européias suspeitam que pretende fabricar armas de destruição em massa. Os países europeus, que atuaram nos últimos três anos como representantes de Washington nas conversações com o Irã, agora pedem mais urgência ao presidente Bush no sentido de se unirem na mesa de negociações. Esse foi um dos temas tratados durante a visita feita na semana passada aos Estados Unidos pelo primeiro-ministro britânico, Tony Blair.

Os pedidos aumentaram nas últimas semanas, sobretudo diante dos sinais positivos de Teerã, incluindo uma carta de 18 páginas enviada a Bush por seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, na qual expressa sua disposição de participar de conversações diretas sobre vários temas, entre eles seu plano nuclear. "Algum tipo de resposta positiva (por parte dos EUA) se converteu em algo praticamente obrigatório, sobretudo no contexto da carta de Ahmadinejad", afirmou o diretor de Estudos Europeus do independente Conselho de Relações Exteriores, Charles Kupchan.

Além de pedir a Washington que se una às negociações, o UE-3 também promoveu um pacote de propostas para o Irã, que inclui a entrega de reatores nucleares de água leve, benefícios comerciais e outros incentivos econômicos, bem como a discussão de um "contexto" para tratar os temores de Teerã a respeito de sua segurança. Esta última questão recebe forte oposição por parte dos falcões em Washington, liderados pelo vice-presidente Dick Cheney, que desejam "uma mudança de regime" no Irã. Uma fonte sugeriu que os falcões teriam avalizado a oferta de Rice em troca de um compromisso da UE para não pedir a Washington que dê a Teerã garantias de segurança como parte de uma eventual negociação.

De fato, Rice disse aos jornalistas, na quarta-feira, referindo-se aos países europeus que negociam com o Irã: "Não nos perguntaram sobre garantias de segurança, e espero que não o façam". A secretária de Estado também disse que não foram descartadas as opções militares e ressaltou que, pelo menos no momento, Washington não está interessado nem em conversações bilaterais nem em negociações para um "grande pacto" com Teerã que resolva os assuntos mais importantes que dividem os dois países.

Esta postura foi defendida por vários líderes do governante Partido Republicano, incluindo o presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Richard Lugar, e Ricard Armitage, que foi subsecretário de Estado no primeiro mandato de Bush. "Não estamos em posição de falar sobre relações diplomáticas plenas com um Estado com o qual temos tantas diferenças fundamentais", afirmou Rice, assinalando que, entretanto, uma resolução positiva da crise nuclear poderia "mudar o relacionado que o Irã tem com os Estados Unidos e abrir novas possibilidades para a cooperação". Os cuidadosos termos que usou para fazer a oferta, bem como a condição que impôs, deixaram claro para os analistas que a batalha interna sobre a política com o Irã, entre os falcões e os chamados realistas, que dominam o Departamento de Estado, continua sem solução. Os realistas preferem a ação multilateral e priorizam o fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, especialmente a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por sua vez, os falcões são hostis aos processos multilaterais em geral e à ONU em particular. Seus postulados sobre política externa rejeitam o pragmatismo e formulam os conflitos em termos morais.

"Sabemos que este é um assunto pelo qual se derrama muito sangue nos corredores do poder. Eu diria que o lado do Departamento de Estado está prevalecendo neste assalto da luta, mas ela ainda não terminou", disse Kuphcan à IPS. "Para os puristas, inclusive a declarada disposição de dialogar com o regime de Teerã no governo Bush, é algo difícil de engolir, seja condicional, ou não", acrescentou. Os neoconservadores, que influem na administração Bush por meio do escritório do vice-presidente Cheney, argumentam que qualquer diálogo direto com Teerã seria cair em uma "armadilha" criada para tirar mais concessões dos Estados Unidos, e ainda desmoralizaria a "oposição" interna iraniana, pois significaria um reconhecimento implícito sem precedentes do regime islâmico por parte de Washington. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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