Mulheres-Alemanha: Tráfico humano turva festa do futebol

Berlim, 14/06/2006 – Entre os milhões de pessoas que chegam à Alemanha durante a Copa do Mundo, muitas viajam contra sua vontade: são mulheres vítimas do tráfico humano para exploração sexual. . Organizações não-governamentais exigiram ações mais concretas sobre a trágica realidade destas mulheres, em sua maioria procedentes da Europa oriental, enganadas com falsas promessas de trabalhos temporários ou diretamente seqüestradas de seus países. Nos primeiros dias do Mundial, que começou no último dia 9, os grupos já denunciaram casos de prostituição forçada

"Recebemos telefonemas de vítimas. As clínicas também nos colocaram em contato com mulheres forçadas a se prostituir que necessitam de ajuda", disse à IPS a presidente do grupo católico Slowodi, Lea Ackdermann. Na segunda-feria, o comissário de Liberdade, Segurança e Justiça da União Européia, Franco Frattini, alertou que o tráfico de pessoas aumentaria em razão da Copa do Mundo. Frattini exortou no sentido de redobrar os controles na fronteira alemão com Hungria, Polônia e República Checa. "É este efeito dominó que temos", disse no Parlamento Europeu, para, em seguida, criticar "a frieza da Fifa" quando a UE solicitou que colocasse em sua página na Internet informações sobre a prostituição forçada, com o objetivo de sensibilizar o público.

Segundo a imprensa, pelo menos 40 mil mulheres viajariam para a Alemanha a fim de trabalhar no mercado do sexo durante o Mundial. As associações de prostitutas e bordéis, incluindo um grande complexo de prostíbulos em Berlim, esperam aumentar seus lucros durante o campeonato. É difícil saber se as prostitutas recém-chegadas são voluntárias ou vítimas dos traficantes de pessoas. Organizações não-governamentais disponibilizam quatro números de telefone diretos durante o torneio para assessoras as vítimas dos traficantes sobre como escapar de seus captores, que, em geral, as amedrontam com violência ou por meio de chantagem. Slowodi administra um desses números, através do qual fornece ajuda em seis idiomas.

A poucos metros do famoso Portão de Brandemburgo, na capital alemã, centenas de milhares de pessoas atestam a chamada "milha do fanático", um grande corredor formado por barracas de comércio em geral, telões e que que vendem cerveja, tudo em meio a uma buliçosa música. Entre a multidão, o Conselho das Mulheres Alemãs abriu um posto de informação para conscientizar o público sobre o tráfico humano para exploração sexual. As mulheres que conseguem escapar de seus captores após receberem ajuda pelas linhas de acesso direto em Berlim, são, geralmente, enviadas para abrigos, como o administrado pela organização Ban Ying (Casa de mulheres, em tailandês), fundada em 1988 com o objetivo de atender as conseqüências emocionais das vítimas do tráfico humano.

Entretanto, após ter analisada com a polícia a situação no contexto da Copa do Mundo, a coordenadora do abrigo, Nivedita Prasad, rejeita a idéia de que o problema se agrave por causa do campeonato. "Há rumores por aí, mas na realidade não esperamos que muito mais mulheres cheguem ao abrigo nestes dias. Nas quatro semanas que dura a competição, as mulheres nunca farão dinheiro suficiente para pagar aos seus traficantes. Além disso, a Alemanha está cheia de policiais, o que torna mais fácil para elas e os traficantes serem detidos", disse à IPS.

Aproximadamente mil mulheres são traficadas para a Alemanha todos os anos, segundo dados oficiais, embora Prasad estime que a cifra, na verdade, seja seis vezes maior. O tráfico de pessoas não é um problema restrito aos torneios esportivos de grande atração turística, disse a ativista. Para ilustrar a questão, contou uma típica história do abrigo de Ban Ying: uma mulher ucraniana, professora de profissão, precisava comprar remédios muito caros para seu filho. Sem dinheiro, pediu emprestado a um vizinho que, em troca, exigiu que trabalhasse alguns meses cuidando de crianças na Alemanha. Tão logo cruzou a fronteira, foi obrigada a se prostituir.

Seus captores usaram de violência e chantagem para impedir que fugisse. A ameaçaram enviar para sua família fotos dela vestida com prostituta, caso tentasse escapar. "Estas mulheres se vêem presas na Alemanha sem dinheiro e sem capacidade de se comunicar (já que não falam alemão). Fugir dos captores não põe fim ao calvário. As que testemunham contra eles correm risco de represálias. "Se não testemunham, novamente são feitas cativas quando voltam às suas casas", contou Prasad. Na Alemanha, como em todos os países europeus, com exceção da Itália, as pessoas vítimas de tráfico humano só têm permissão para permanecer no país se testemunham contra seus captores.

"Mas algumas estão tão traumatizadas por suas experiências que não podem se apresentar como testemunhas, e, portanto, são enviadas diretamente para casa. Uma vez de volta, correm sérios riscos de serem novamente vítimas dos traficantes", disse a ativista. A organização Anistia Internacional, que aproveita a atração turística da Copa do Mundo para divulgar informações sobre a prostituição forçada, exortou as autoridades alemãs a não repatriarem as mulheres vítimas de tráfico humanos sem antes lhes oferecer ajuda médica, psicológica e legal. Além disso, afirma que esta ajuda não deve ser condicional à sua cooperação nos processos contra os traficantes.

Às vésperas da Copa do Mundo, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Suécia exortaram a Alemanha a combater a exploração sexual durante o campeonato, que deve atrair mais de três milhões de visitantes, em sua maioria homens. O congressista norte-americano Christopher Smith, do governante Partido Republicano, alertou que o país anfitrião do Mundial está criando uma virtual sociedade com proprietários de bordéis, cafetões e traficantes de pessoas. Por sua vez, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, afirmou na segunda-feira que a luta contra o tráfico humano é "um grande chamado moral de nosso tempo". (IPS/Envolverde)

Jess Smee

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