Aids: Caçadores de vírus

Nova York, 01/12/2006 – O sarampo, a poliomielites e outras doenças contagiosas e mortais tiveram seu avanço detido com simples vacinas. Após duas décadas de pesquisa sobre o volúvel vírus da aids, resta espaço para a esperança? Mitchell Warren, diretor-executivo da Coalizão Pró-Vacina contra a Aids, e Anjali Nayyar, vice-presidente encarregada de programas nacionais e regionais da Iniciativa Internacional para a Vacina contra a Aids (IAVI), falaram à IPS sobre este grande desafio cientifico.

IPS: O diretor da IAVI, Seth Berkley, disse que uma vacina parcialmente eficaz ministrada em apenas 30% da população reduziria pela metade as infecções com HIV no mundo em desenvolvimento. Isso é um retrocesso a respeito das expectativas anteriores ou, simplesmente, a constatação científica de que nenhuma vacina terá eficiência universal?

Mitchell Warren: A pesquisa para as vacinas contra a aids, como com as relacionadas a qualquer enfermidade, se fundamenta na mística segundo a qual a inoculação detém as epidemias. E, de fato, fazem isso: só o que pode acabar com uma epidemia viral é uma vacina. Não se trata de estarmos reduzindo nossas expectativas, nem que a realidade científica tenha mudado. Trata-se da própria natureza do avanço científico. A primeira vacina, o primeiro microbicida, a primeira camisinha feminina não serão o último progresso. E creio que isso é bom.

Anjali Nayyar: A primeira geração de vacinas poderia oferecer uma proteção parcial. De todo modo, terá a potência de causar impacto significativo na pandemia de aids. Mesmo uma vacina modestamente eficaz reduziria em um terço a quantidade de infecções em uma década. Isso significa salvar milhões de vidas. Uma vacina com eficácia de 70% teria um efeito ainda mais dramático. E, mesmo sendo administrada em apenas 40% da população, impediria 28 milhões de infecções entre 2015 e 2030.

IPS: Quais compromissos receberam de governos, doadores e indústria farmacêutica para garantir o acesso imediato de quem necessita a uma vacina, uma vez que esteja desenvolvida?

Warren: O caminho para a vacina contra a aids está engessada por boas intenções, promessas de assessibilidade. Mas, o que significa isto? Essas promessas sobreviverão à prova do tempo? A resposta mais honesta é: não sabemos. Não é por cinismo. Devemos deixar bem claro que ainda não sabemos o custo de fabricação da vacina. Ao mesmo tempo, vemos que cada vez mais são autorizadas vacinas para todo tipo de doença. No último ano foram mais do que em várias décadas juntas. Temos vacinas contra câncer de útero, contra rotavírus. O desafio é garantir com rapidez o acesso a essas vacinas pelas comunidades que mais necessitam.

Nayyar: O acesso dos pobres às vacinas é uma das pedras de toque de nosso programa. As companhias com as quais trabalhamos concordaram em fornecer as futuras vacinas ao setor público dos países em desenvolvimento em quantidades razoáveis, com prazos e custos adequados. Em caso contrário, temos direito de utilizar essa tecnologia, a possibilidade de fazer acordos sobre o lucro admissível na venda de medicamentos a países em desenvolvimento, a realização de licitação para sua compra e a propriedade intelectual total ou parcial ou o licenciamento em mãos da IAVI.

IPS: A busca de vacina contra a aids consome cerca de 1% do gasto total em pesquisa e desenvolvimento na área da saúde. É uma proporção adequada? Existe conflito entre o financiamento do tratamento e o da prevenção?

Warren: Deve-se usar mais para tudo. Precisamos de mais para a educação, necessitamos de mais para ampliar o acesso ao tratamento, para as vacinas. Mas, não é só de tudo isso que precisamos mais: necessitamos gastar melhor. Hoje, o fluxo financeiro para avançar na busca da vacina contra a aids se aproxima dos US$ 800 milhões ao ano, mas do que o dobro de cinco anos atrás. Dentro de pouco tempo teremos de gastar US$ 1 bilhão anuais. Não temos o que precisamos, mas, estamos perto.

Nayyar: Acreditamos, de fato, que o financiamento da pesquisa para a vacina contra a aids melhorou substancialmente, e os países contribuem equitativamente de acordo com seu produto interno bruto. As companhias farmacêuticas e biotecnológicas fazem sua parte, mas, apenas contribuem com 10% do gasto total. Com a experiência da indústria é crítica para o êxito da vacina, a IAVI trabalha com os setores público e privado, para incentivar um envolvimento mais forte. Os avanços médicos para todas as respostas – medicamentos, vacinas e diagnósticos – são essenciais se queremos derrotar a pandemia.

IPS: Como avançaram os testes clínicos e a pesquisa desde os primeiros dias da aids, na década de 80?

Warren: A boa noticia é que, olhando o mapa atual em termos de pesquisa para a vacina, constata-se que é um esforço verdadeiramente mundial, comparado com o que ocorria há cinco ou 10 anos. Há testes de laboratório e clínicos, e não apenas nos Estados Unidos e na Europa ocidental, mas, também, na China, Índia, África do Sul, Uganda Quênia… a lista é grande. Que os países onde são feitas as pesquisas tenham passado de seis para 20 é, para mim, um sinal de que o mundo melhorou.

Nayyar: Sabemos muito mais do que nos anos 80 sobre o HIV e sobre o modo como opera no corpo. Sabemos, por exemplo, que o sistema imunológico de virtualmente todos os seres humanos pode manter o vírus inerte durante 20 anos ou mais. Existem alguns casos isolados de pessoas com uma rara capacidade natural para rejeitar o HIV apesar de sofrer reiterada exposição ao vírus. Até agora, vacinas experimentais protegeram com êxito macacos do vírus da imunodeficiência símia (SIV), muito semelhante ao HIV. Atualmente, há 30 candidatos à vacina contra a aids em suas primeiras fases de avaliação em seres humanos, em duas dezenas de países. Boa parte desta pesquisa acontece na África a na Ásia, onde atualmente se registra a maior parte das infecções. Outras se encontram na segunda fase, e haverá novidades nos próximos anos.

IPS: Uma dificuldade é o tempo necessário para organizar os testes clínicos, especialmente no caminho para a terceira fase. Pode-se, ou deve-se, acelerar o processo sem violar princípios da ética médica?

Warren: Há alguns procedimentos que devem ser seguidos. Precisamos recrutar muita gente, entre outros elementos que levam tempo. Mas, também há coisas que nos detém desnecessariamente.

Precisamos preparar testes que nos permitam obter respostas com maior rapidez. Por exemplo, as comparações das vacinas com placebos poderiam começar mais cedo, nas primeira e segunda fase, para descartar o que não servir. (IPS/Envolverde)

Katherine Stapp

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