Objetivos do Milênio: Indicadores não mostram bom desempenho

Santiago, 04/01/2007 – A meio caminho para chegar aos objetivos do milênio fixados pela Organização das Nações Unidas, alguns indicadores de desenvolvimento continuam não sendo muito positivos para muitos países da América Latina e do Caribe. Desafios aos quais se soma outro: fortalecer a capacidade estatística para medir os avanços. Em setembro de 2000, todos os países-membros da ONU se comprometeram a alcançar em 2015 oito grandes Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), entre eles erradicar a pobreza extrema e a fome, proporcionar ensino primário universal e promover a igualdade entre os gêneros e a autonomia da mulher.

Outros objetivos estabelecidos foram reduzir a mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o HIV/aids e outras doenças graves, garantir o uso sustentável dos recursos naturais e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Para medir os objetivos foram estabelecidos 48 indicadores e 18 metas, iguais para todos os países, e foi acordado apresentar, pelo menos, um informe do progresso ou retrocesso em 2005.

Nenhum país conta com informação sobre a totalidade dos indicadores ODM, mas a maioria das nações apresenta algum instrumento de medição relacionado quando carece do dado exato, segundo revelou um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), cujos resultados preliminares foram divulgados no final do ano em Santiago. A auto-avaliação de cada país, incluída na pesquisa, sobre a capacidade estatística para acompanhamento dos ODM também foi reveladora: 52% das nações consideram que é fraca ou baixa; 30% que é boa, média ou aceitável, e somente 18% que é alta ou forte.

Nos extremos estão República Dominicana, ao reconhecer que 99% de sua capacidade estatística é baixa ou fraca; e o Chile, que considera que 93% de seu trabalho é forte. Em geral, as áreas mais débeis são o acompanhamento e a análise estatística, bem como a destreza para aplicar os resultados a políticas e planos de destinação de recursos. A pesquisa da Cepal é parte do projeto “Fortalecimento da capacidade dos países da América Latina e do Caribe para monitorar o cumprimento dos ODM”, financiado pela Conta do Desenvolvimento da ONU (2005-2007).

O estudo também comparou os informes de acompanhamento dos ODM de 34 países da América com as bases de dados da ONU e concluiu que somente 11% das séries eram iguais; 25% distintas ou não-comparáveis, e o restante não tinha informação disponível. “Somente em 11% dos casos as séries de cifras são iguais entre informes nacionais e a bases de dados internacional. É uma porcentagem muito baixa, mas há muitas exceções. Não acreditamos que necessariamente tenhamos que atingir a igualdade”, já que depende do monitoramento, explicou à IPS Simone Cecchini, oficial da Divisão de Desenvolvimento Social da Cepal e um dos autores do estudo.

O pesquisador deu com exemplo o cálculo da extrema pobreza. “O Banco Mundial tem uma medida global, utilizada para os ODM, que é a porcentagem de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia, necessária para comparar todos os países do mundo, mas que não é relevante para a América Latina, porque é uma linha muito baixa”, disse Cecchini. “Aí é importante usar os dados da Cepal, que são séries nacionais comparáveis na região, diferentes da informação que manejam internamente aos países”, acrescentou. Entretanto, alertou que a disponibilidade de dados ainda é insuficiente e que a ONU possui registros mais acabados do que as próprias nações.

Cecchini atribui esta situação à escassez de orçamentos financeiros e de pessoal capacitado. “Como os escritórios nacionais de estatísticas não têm grande visibilidade política, não conseguem ter os recursos suficientes para fazer a avaliação do desenvolvimento”, afirmou. Mas advertiu que a região está comprometida com os ODM, já que todos os países cumpriram suas informações nacionais, alguns elaborando mais de um. “A situação da América Latina é melhor do que a dos pequenos Estados insulares do Caribe, porque os sistemas estatísticos nacionais são mais desenvolvidos”, particularmente na América do Sul, onde se destacam Brasil, Argentina e Chile.

No estudo da Cepal, entre os países que em sua auto-avaliação mostram uma média de baixa ou fraca capacidade estatísticas nos informes de acompanhamento, estão vários países centro-americanos, com Guatemala e Nicarágua. Segundo disse à IPS o diretor do Instituto Nacional de Estatística da Guatemala, Sigfrido Lee, este país se caracteriza, ultimamente, pelo menosprezo da informação estatística. Durante o conflito armado interno que açoitou o país por mais de três décadas desde 1960, muitos dados eram segredo de Estado e outros objeto de manipulação. Depois da assinatura dos acordos de paz em 1966, essa nação iniciou sua reconstrução, mas a desconfiança persiste.

“Fornecemos a informação básica, mas para atender as necessidades é preciso aumentar o orçamento. Estamos criando estruturas estatísticas para gerar dados com a periodicidade necessária”, disse Lee, alertando que somente em 2012 será feito o próximo censo geral. Na Nicarágua, entretanto, há uma excessiva dispersão no manejo da informação em várias instituições estatais, e faz falta destinar a uma entidade a responsabilidade sobre as estatísticas dos chamados objetivos do milênio, segundo María Rosa Renzi, responsável pelos ODM na Nicarágua do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

“Como o Instituto Nicaraguense de Estatísticas e Censos é uma instituição muito debilitada em matéria de recursos, inclusive no posicionamento hierárquico dentro da mesma estrutura governamental, e não pode cumprir seu papel”, por isso “os dados oficiais sempre têm uma margem de dúvida”, acrescentou a funcionária à IPS. Mas para Cecchini, “a situação é bastante boa em termos de disponibilidade de dados nas áreas de medição da pobreza, educação, igualdade de gênero, mortalidade infantil e saúde materna”, mas “são notados problemas muito grandes nas áreas do HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida), acesso à tecnologia e proteção ambiental”.

Além disso, falta informação para indicadores específicos como “a brecha de pobreza ou a porcentagem da população abaixo do nível mínimo de consumo de energia alimentar”, bem como para o desemprego juvenil, destacou o especialista. “Quando a informação não está em nenhum lugar, é preciso melhorar a fonte primária, os censos, as pesquisas domiciliares, os registros administrativos, os sistemas de monitoramento específicos, por exemplo, para o meio ambiente”, disse o funcionário da Cepal. Cecchini espera que melhore a transparência dos informes, os quais deveriam detalhar a metodologia e as fontes de informação utilizadas, e se avance na homogeneidade de indicadores, seguindo as práticas que deram resultado positivo.

A seu ver, a chave é a coordenação entre as dependências que coletam a informação e elaboram os informes e o grau de protagonismo do órgão nacional de estatística. Mas em alguns países nem toda informação é levada ao ente oficial encarregado das estatísticas nacionais, com é o caso da Venezuela, onde os programas sociais criados pelo governo de Hugo Chávez não foram implementados dentro da estrutura estatal e, portanto, não contam com a metodologia de medição dessa estrutura.

Isso fez com que no ano passado, quando entidades internacionais como a Cepal ou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) apresentaram dados sobre indicadores sociais na Venezuela, o governo de Chávez protestasse duramente e pedisse corretivos que incorporassem o impacto positivo desses programas, em particular nas áreas da saúde e educação. “Cremos que se pode melhorar a coordenação em nível nacional”, disse Cecchini, citando os casos do México, onde foi designada uma pessoa em cada ministério para reunir os dados, que são encaminhados à Presidência do país, e o do Paraguai, onde se incentiva o trabalho conjunto dos encarregados de cada setor para construir uma base de dados. (IPS/Envolverde)

* Colaborações de José Adán Silva (Nicarágua), Paco Fion (Guatemala) e Humberto Márquez (Venezuela).

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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