Nações Unidas, 12/01/2007 – Menos de duas semanas após assumir a Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon é alvo de críticas por parte de grupos da sociedade civil porque –afirmam – fez uma nomeação não merecida para um alto cargo. Depois de prestar juramento em dezembro, Ban anunciou que faria as nomeações para os cargos máximos da ONU com base no mérito de cada candidato, porém, os críticos afirmam que não honrou sua palavra. O novo secretário-geral escolheu como subsecretário-geral para Assuntos Humanitários o diplomata britânico John Holmes, que, segundo organizações da sociedade civil, carece de experiência nesse campo.
Holmes, estreito amigo do primeiro-ministro Tony Blair, era embaixador da Grã-Bretanha na França desde outubro de 2001. Antes, havia representado seu país em Moscou, Nova Délhi e Lisboa, entre outras capitais. Em 1995, Holmes se transformou em assessor diplomático do então primeiro-ministro britânico John Major, e continuou exercendo sua função no governo Blair, entre 1997 e 1999. Ao anunciar sua nomeação na semana passada, Michele Montas, porta-voz da ONU, afirmou que Holmes “tem comprovada visão estratégica, além de experiência no manejo de crises e em negociações multilaterais, dedicação e esforço”.
Holmes vai substituir Jan Egeland, da Noruega, altamente respeitado pela comunidade internacional e por ativistas do desenvolvimento por seu profundo envolvimento no trabalho humanitário. Durante sua carreira no Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (CAH) da União Européia, resistiu a pressões políticas e criticou duramente as grandes potências por sua inoperância. Após o fim da última guerra no Líbano, por exemplo, Egeland condenou o uso de bombas de fragmentação por parte de Israel. Antes, ganhou a ira do governo dos Estados Unidos por sugerir que os países mais ricos do mundo foram “mesquinhos” em sua resposta à tragédia causada pelo tsunami de 2004, que deixou mais de 220 mil mortos no litoral do oceano Índico.
“Por acaso, Ban foi influenciado pelas cinco potências quando decidiu escolher John Holmes?”, perguntou William Pace, antigo observador da ONU e diretor do Institute for Global Policy (Instituto de Políticas Mundiais), em referência aos cinco membros permamentes do Conselho de Segurança, com poder de veto, que são Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China. “Como pode a Grã-Bretanha, que defende a prestação de contas na ONU, envolver-se na nomeação de alguém considerado amplamente um político despreparado e cujas qualificações não se ajustam às de um cargo de tamanha importância”, questionou Pace. Permitir que um punhado de países-membros poderosos influam em designações-chave é “um precoce sinal negativo” por parte de Ban, acrescentou. “Não é apenas uma nomeaçao”, disse Jim Paul, diretor-executivo do Global Policy fórum (Fórum de Políticas Mundiais), com sede em Nova York. “é mais do mesmo”, disse à IPS. A decisão confirma a prática de “feudos” que tradicionalmente entrega os principais cargos da ONU a cidadãos de países-membros permanentes do Conselho de Segurança, afirmou Pace. Esta prática persiste apesar de membros da Secretaria Geral jurarem não agir como representantes dos governos de seus países, permanecendo imparciais e leais à visão do fórum mundial em seu conjunto. “A escolha de Holmes sugere um paradoxo. No momento, o discurso do novo secretário-geral difere de suas ações”, concluiu. (IPS/Envolverde)

