Colômbia: Governo e ELN conversam em segredo

Havana, 28/02/2007 – Em um hermetismo que contrasta com reuniões anteriores, delegados do governo da Colômbia e do Exército de Libertação Nacional mantêm em Havana conversações que começaram sem discursos nem declarações à imprensa. A razão da reserva é a enorme pressão para que o ELN aceite o cessar-fogo. Se houver avanços, esta “reunião formal ou reunião de trabalho” – como a chamam fontes ligadas ao processo – , se converteria na quinta rodada de conversações com vista a eventuais negociações de paz.

Nesse caso, a Comissão de Garantidores, formada por membros da sociedade civil colombiana e que fomenta os diálogos, viajara a Havana. Em dezembro, está comissão lançou um cronograma que propõe o cessar-fogo a partir de 1º de maio. Desde a quarta rodada, em outubro de 2006, foram feitas seis ou sete reuniões de trabalho semelhantes à atual, tanto em Caracas quanto na Casa da Paz, perto de Medellín, capital do departamento colombiano de Antioquia e promovida pela Comissão de Garantidores.

Nas conversações iniciadas domingo, quatro dias depois do previsto, participam Luis Carlos Restrepo, alto comissário para a paz do presidente Álvaro Uribe, acompanhado do embaixador colombiano em Cuba, Julio Londoño, e os comandantes do grupo guerrilheiro Pablo Beltrán, Francisco Galán e Juan Carlos Cuéllar. Beltrán, terceiro na linha de comando do esquerdista ELN, foi reconhecido em janeiro pelo governo colombiano como novo representante da organização guerrilheira nestas reuniões que têm por sede a capital cubana desde 2005.

Desde a primeira rodada de diálogo exploratório até quarta-feira, realizada desde o daí 20 até 25 de outubro do ano passado, a delegação guerrilheira era liderada por Antonio García, responsável militar do ELN. Até o último fim de semana não estava claro se García iria a está nova reunião. Segundo a imprensa colombiana, espera-se que a presença de Beltrán, “um dos chefes mais próximos ao comandante Gabino” (Nicolas Rodríguez Bautista), chefe do Comando Central da ELN, assegure “o início formal” da negociação de paz.

A quinta rodada deveria avançar na definição da agenda para tratar na mesa de negociações, mas, ao que parece, ainda falta muito a percorrer para chegar a resultados concretos. “Talvez nesta rodada não surjam resultados concretos. Por isso há uma expectativa menor e isso pode fazer bem ao processo. Mas, as partes trabalharam seriamente em Caracas e na Casa da Paz para gerar esse nível de confiança”, disse à imprensa em Bogotá o economista e industrial Moritz Ackermann.

Ackermann é membro da Comissão de Garantidores do processo de aproximação entre o governo de Uribe e o ELN, junto com o coordenador da Campanha Colombiana contra as Minas, Álvaro Jiménez; o catedrático Alejo Vargas; o ex-alto comissário de Paz, Daniel García Pena, historiador e diretor do não-governamental Planeta e Paz, e Gustavo Ruiz, representante da sociedade civil.

Nesta ocasião os garantidores permanecem em Bogotá como “uma forma de comunicar que estamos prontos para quando for necessário estarmos presentes, e que se houver passos concretos haverá total acompanhamento da sociedade”, disse o empresário. Mas, os que conhecem de perto a história das tentativas de paz com o ELN afirmaram à IPS que quando de designa Beltrán “é sinal de que o ELN vai fundo na negociação”. O cerebral Beltrán tem muito peso no ELN e conhecem bem sua gente, acrescentaram essas fontes.

Segundo foi anunciado em dias anteriores ao novo encontro em Cuba, as delegações deveriam avançar para a assinatura de um “acordo-base” sobre dois eixos fundamentais que têm a ver com um ambiente para a paz e a participação da sociedade civil dentro do processo. O ELN, que, calcula-se, tenha entre 2.500 e cinco mil efetivos, é a segunda guerrilha, depois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Vários confrontos nos últimos meses entre estas duas forças acrescentam tensões que podem afetar o desenvolvimento do processo de diálogo.

Em pelo menos três regiões, nos departamentos de Cauca, Nariño e Arauca, as frentes locais dos dois grupos de esquerda se enfrentam desde o final de 2005 pelo controle de territórios e suas correspondentes fontes de renda, incluindo o tráfico de drogas, segundo diferentes fontes ouvidas pela IPS. O comandante das Farc, Manuel Marulanda, e o Comando Central do ELN trocaram na semana passada documentos escritos nos quais concordam quanto à necessidade de “se absterem de mais ações com qualquer pretexto”.

O Comando Central propôs às Farc converter essa expressão, originalmente no escrito de Marulanda, em uma “ordem para suspender imediatamente o confronto”. Segundo fontes oficiais, está “guerra de guerrilhas” já causou entre 300 e 500 mortos, muitos deles civis. Agora, espera-se para ver se a partir dessas comunicações a matança seja suspensa. Nesse contexto pouco favorável também se inscreve a crise que vive o governo de Uribe devido ao escândalo que levou à renúncia da chanceler Maria Consuelo Araújo no último dia 19.

Araújo e demitiu, segundo disse, para evitar interferências no julgamento de seu pai, um irmão e um primo-irmão, acusados de integrarem grupos paramilitares de ultradireita. Seu sucessor, Fernando Araújo (sem parentesco com sua antecessora), foi regatado pelo exército no dia 5 de janeiro após seis anos como refém das Farc. Uribe, que apoiou Consuele, a apresentou não só como uma funcionaria eficiente, mas também como uma vítima das circunstâncias da longa duração da guerra civil nesse país.

Internamente considera-se muito mais grave a detenção do ex-czar da inteligência do governo de Uribe, Jorge Noguera, por permitir a infiltração de paramilitares no Departamento Administrativo de Segurança (DAS), órgão que dirigiu nos três primeiros anos do governo de Uribe, iniciado em 2002. Além disso, estão presos oito parlamentares da bancada oficialista, outros seis podem ser detidos e um está foragido, entre dezenas que têm sobre si o olho da justiça (IPS/Envolverde)

* Constanza Vieira desde Bogotá.

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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