CONGO-BRAZZAVILLE:: Crianças da Rua Reinseridas na Sociedade

BRAZZAVILLE,, 07/03/2007 – Embora ainda não terminou a sua formação de cabelereiro Bamanandoki Pitchou, de 16 anos, já tem o seu pequeno negócio. O Pitchou que vivia nas ruas de Kinsoundi – um subúrbio no sul do capital congolês de Brazzaville – vai a escola de manhã e atende aos seus clientes de tarde. “Ele mudou completamente em pouco tempo;já não é a criança da rua em farrapos que soubemos há poucos meses “, relatou o Jean Didier Kibinda, o Chefe do Projeto da Reinserção Familiar das Crianças da Rua, um dos grupos que estão a ajudar as crianças vivendo nas ruas da República Democrática do Congo.

Segundo um estudo realizado pela organização humanitária Social Action (Ação Social), há três anos houve 1.900 crianças vivendo nas ruas dos grandes centros urbanos do Congo.

“Hoje estimamos que cerca de 3.000 se não mais estão nas ruas como este tendência vai aumentando nas cidades”, indicou a Florent Niama, a Direitora Geral de Social Action.

Enquanto há tantas diferenças nas histórias das crianças como há fatores que as empurraram a rua, a maioria das crianças têm pais divorciados, apontou Kibinda. Ele acrescentou que muitos tornaram se orfãos durante a guerra civíl de 1997 a 1999 ou quando perderam os pais ao SIDA. Segundo o Programa Conjunta das Nações Unidas sobre o VIH/SIDA (ONUSIDA), a prevalência do vírus de imunodeficiência humana nos adultos é de 5,3 por cento.

O Projeto da Reinserção Familiar das Crianças da Rua foi lançado pelo governo em agosto de 2005 com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

“O nosso objetivo é de ir e buscar as crianças dos 'ngundas' (refúgios) deles e entregá-las aos seus pais ou até aos seus parentes distantes, se estes as aceitarem “, disse Kibinda a IPS “Na fase pilóta reintegrámos 60 crianças das quais 40 estavam em Brazzaville e 20 em Pointe Noire, uma cidade portuária no sul do país, onde temos um centro da organização humanitária Caritas para cuidar delas”, acrescentou ele.

Mais umas 40 crianças foram reunidas com as suas famílias no ano passado. Algumas destas já vão a escola e as outras estão a apreender uma profissão em alguns workshops organizados pelo projeto.

“Damos o apoio financeiro ás famílias que recebem as crianças reinseradas para que possam realizar as atividades que geram rendimentos para sustentar estas crianças. Reconhecemos que as crianças da rua são consideradas como um sinal de pobreza”, indicou o Kibinda..

“No ano passado trabalhámos com um orçamento de 40.000 dólares. Este ano esperamos aumentar as nossas atividades para reinserirmos mais umas 400 crianças”, continuou ele.

Há uma outra iniciativa governamental chamada o Centro da Inserção e Reinserção das Crianças Vulneráveis (CIREV).

“Atualmente estamos a cuidar de 84 crianças que tirámos da rua. 32 destas vivem com os seus pais, más nós continuamos a tomar cargo da educação e do emprego futuro delas. Se estas crianças não passam pelo centro a meio dia, levamos a comida as casas delas a tarde”, o Martin Malanda o assistente do presidente do CIREV, disse a IPS.

“Para além das crianças que ingressámos ou reingressámos na escola, temos mais 20 que estão a participar numa variedade cursos práticos. Há, por exemplo, seis na marroquinaria, quatro na costura e quatro na cozedura “, disse o Malanda.

“Como estes jovens ainda não têm 18 anos, ainda não podem trabalhar, é proibido pela lei. Por isso prolongamos a formação deles de mais três anos “, explicou o Malanda.

O CIREV só trata dos rapazes de oito a 17 anos.

O Centro Jarot de Brazzaville também cuida dos jovens da rua. Embora seja uma iniciativa privada, recebe algum apoio do governo, particularmente para as 60 famílias que aceitaram albergar aos jovens.

O Gildas Okoungou, de 19 anos, é um dos beneficiários desta organização. Com o apoio de UNICEF e de Don Bosco, uma organização humanitária católica, ele começou uma sapataria, no mercado Total – o maior no Brazzaville, naqual trabalha com o tecido das calças de ganga e de sacos velhos de couro.

“Antes das freiras católicas me socorrem, eu dormía por debaixo da Ponte Centenária de Brazzaville. Vivia de mendigar, de fazer poucos trabalhos e as vezes eu roubava. Agora ganho a cerca de 10 dólares por dia e até posso cuidar da minha avó e das outras crianças da rua que vêm mendigar de mim “, Okoungou relatou a IPS.

A Ponte Centenário foi inaugurada en 1980 pelo presidente francês atual o Jacques Chirac, o então presidente da câmara municipal de Paris, para comemorar os 100 anos de Brazzaville.

O Okoungou explicou que depois da morte dos seus pais na guerra, ele fiocu a cargo da sua avó que não tinha recursos para educá-lo.

Conseguir fundos para apoiar os programas das crianças da rua continua a ser um grande desafio.

Das crianças que foram ajudadas pelo Projeto da Reinserção Familiar das Crianças da Rua, 11 voltaram as ruas devido a falta de recursos para o seguimento dos casos delas.

“Se vamos conseguir dobrar o número de crianças reinserida este ano, também temos que dobrar o financiamento. Lamentávelmente isto é um grande problema. Para além dos 135.000 dólares que recibimos de UNICEF em 2006, o Estado apenas deu nos 40.000 dólares”, apontou a Niama, de Social Action.

“Isto é muito menos do que esperavamos. Estamos a bater nas outras portas para ver como podemos melhor administrar este projeto “, acrescentou a Niama, que é também a coordenadora de todos os programas da reinseração.

“Com o apoio de UNESCO, (a Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura) conseguimos apoiar 12 jovens que hoje têm uma profissão, “, disse ele, reparando que mais uns 20 jovens hão de terminar a formação deles no próximo ano.

Um grande números das crianças que passaram pelas diversas iniciativas da reinserção conseguiram tornar a vida deles numa história com um fim feliz. “Temos muitos casos atestados de sucesso. Alguns são taxistas, motoristas, padeiros, costureiros”, acrescentou a Niama.

O Malanda também se queixou da falta de financiamento. “Hoje (2006) temos um orçamento de 84,000 dólares, más os mecanismos do desembolso deste dinheiro são tão complexos que nem podemos ter acesso a todo o dinehiro. Parece que há uma falta de interesse na parte das autoridades.”

O CIREV começou a funcionar em 2004 com 6,000 dólares de UNESCO.

Segundo o Kibinda, “O fenómeno das crianças da rua é grave e envergonha o nosso país, que é considerado muito rico graças ao pertóleo. É possível que não possamos eradicar este fenómeno, más estamos a tentar reduzí-lo.”

Arsène Séverin

Arsène Séverin, journaliste reporter, né à Brazzaville au Congo. Correspondant de IPS depuis 2006, il a un ferme goût pour l'environnement, les droits de l'Homme et l'agriculture. Il anime un blog depuis 2009, sur lequel il poste des papiers piquants sur la politique de son pays.

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