EUA: Um falcão para Condoleezza

Washington, 06/03/2007 – Para surpresa de muitos, a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, designou como conselheiro um destacado neoconservador promotor da guerra no Iraque. Porém, analistas acreditam que se trata de uma estratégia para frear possíveis críticas. Eliot A. Cohen, professor de História no Colégio Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados e membro da Mesa de Políticas de Defesa do Departamento de Defesa desde 2001, ocupará a partir do próximo mês o lugar deixado no ano passado pelo antigo confidente de Rice, Philip Zelikow, da ala “realista” no governo do presidente George W. Bush.

Amigo próximo e protegido do ex-secretário de Defesa Paul Wolfowitz (hoje presidindo o Banco Mundial) e membro assessor do direitista American Enterprise Institute, Cohen liderou recentemente um duro ataque neoconservador contra o Grupo de Estudo sobre o Iraque, criado pelo Congresso e integrado por figuras tanto do Partido Demcrata quanto do Partido Republicano. O Grupo propôs em dezembro uma retirada gradual da maioria das tropas de combate norte-americanas hoje no território iraquiano nos próximos 14 meses e uma intensificação dos esforços diplomáticos para que Irã e Síria, entre outros países vizinhos, se comprometam na estabilização do Iraque.

Como seus companheiros “falcões” – a ala mais belicista do governo Bush – Cohen condenou as recomendações do Grupo, entre elas a de reativar o processo de paz palestino-isralense, idéias que Rice explicitamente apoiou nas últimas semanas. “Este é um grupo composto, em sua maior parte, por destacados funcionários públicos aposentados, a maioria com experiência limitada ou nula na prática ou estudo da guerra”, escreveu Cohen em uma coluna publicada pelo The Wall Street Journal no dia seguinte à divulgação das recomendações do Grupo.

Dentro da administração Bush, os realistas, cujo reduto é o Departamento de Estado, preferem a ação multilateral e priorizam o fortalecimento das alianças tradicionais de Washington, em especial a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Por outro lado, os neoconservadores, ou falcões, encabeçados pelo vice-presidente, Dick Cheney, e com domínio no Departamento de Defesa, são hostis aos processos multilaterais, em geral, e à Organização das Nações Unidas, em particular. Seus postulados sobre política externa rechaçam o pragmatismo e apresentam os conflitos em termos morais.

“Eliot contribui muito à mesa como conselheiro. É alguém que pode funcionar como caixa de ressonância intelectual para Rice”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, ao confirmar na sexta-feira a nomeação de Cohen. Mas, alguns analistas dizem que a designação tem o objetivo de calar críticas previas de neoconservadores, dentro e fora do governo, pelas decisões que Rice tomar em política externa, sobretudo com relação ao Oriente Médio. O conselheiro do Departamento de Estado não tem autoridade executiva pode ser considerado, ou ignorando, de acordo com a vontade de Rice.

A secretária de Estado “talvez sinta que precisa de um neoconservador ao seu lado para proteger seus flancos”, disse Chris Nelson, editor do boletim sobre assuntos de governo The Nelson Report. “Se ela realmente planeja pressionar os israelenses, o que é necessário se quiser conseguir um verdadeiro processo de paz com os palestinos como parte de um acordo regional mais amplo com os sauditas e iranianos, então alguém como Cohen no sétimo andar (onde fica o Departamento de Estado) pode ajudar”, acrescentou. Por sua vez, Steven Clemos, diretor do Programa Estratégia Norte-americana da New America Foundation, disse que “trazer Cohen pode ajudar a inoculá-la das críticas que vierem desde o lado de Cheney”.

“Algo que tem sido constante é que Rice se mostra muito cuidadosa em não chamar alguém que depois possa colocar-se contra ela”, acrescentou Clemos. Nesse sentido, Cohen é quase a escolha ideal. Como Cheney, foi membro fundador em 1997 do Projeto para o Novo Século Norte-americano, cujas posições sobre como avançar na “guerra contra o terrorismo” – incluindo a invasão do Iraque – sempre apoiou. Embora careça de qualquer experiência no planejamento de políticas, Cohen foi nos últimos anos um autor prolífico de análises sobre o papel dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Cohen ganhou fama pouco depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, quando publicou no The Wall Street Journal uma coluna intitulada “A Quarta Guerra Mundial” – conceito que rapidamente foi adotado pelos demais conservadores – na qual apontou o “Islã militante” como o novo inimigo dos Estados Unidos. Cohen afirmou que, após derrotar o movimento islâmico afegão Talibã, Washington não deveria apenas “acabar” com o presidente iraquiano Saddam Hussein (1979-2003), a quem acusou de colaborar com a rede terrorista Al Qaeda, como, também, deveria derrubar os “mulás” no Irã, cuja substituição por um governo secular ou moderado seria uma vitória menos importante nesta guerra que visa a aniquilação de Osama bin Laden”. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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