Washington, 28/03/2007 – O embargo imposto por Israel, União Européia e Estados Unidos contribuiu de maneira decisiva para a queda da economia da Palestina em 2006, que chegou entre 5% e 10%, segundo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Depois da modesta recuperação dos dois anos anteriores, “é óbvio que 2006 foi difícil para a economia e a população da palestina”, diz o estudo a respeito fito em conjunto pelo Banco Mundial e FMI e apresentado na segunda-feira. O informe assinala que a maior parte do fluxo de ajuda oficial e privada, mais forte do que o esperado, se dirigiu às áreas orçamentais manejadas pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas, apoiado pelo Ocidente.
Essas contribuições ajudaram a impedir uma queda mais grave da renda e do consumo no ano passado. Mas o produto interno bruto real por habitante fica quase 40% abaixo dos valores de 1999. O estudo destaca uma grande recessão em matéria de investimentos, partindo de registros já baixos e conduzindo ao que o estudo descreve como “um grande esvaziamento da economia palestina” a um aumento de sua dependência da ajuda estrangeira. Os palestinos vivem sob sanções internacionais impostas por Israel, Estados Unidos e União Européia depois da vitória nas urnas do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) nas eleições parlamentares de 25 de janeiro de 2006.
Os doadores internacionais, cujos fundos sustentaram a Autoridade Nacional Palestina durante boa parte de sua vida, suspenderam a ajuda, levando à bancarrota o governo do Hamas. O Banco Mundial calcula que US$ 1,1bilhão do orçamento da ANP em 2005 – cerca da metade do total – procediam, antes da vitória dos Hamas, de doadores estrangeiros. O Hamas disse que continuará combatendo Israel enquanto esse país ocupar terras palestinas. Mas depois de sua vitória, funcionários do partido islâmico propuseram a Israel estender por um ano a atual trégua.
Tanto os Estados Unidos quanto Israel qualificam o Hamas de organização terrorista, e insistem para o grupo renunciar à violência para levantar as sanções. A vitória eleitoral do Hamas agravou a tensão com os israelenses. Depois que o movimento islâmico seqüestro, em 25 de junho passado, o soldado israelense Guilad Shalit, o exército desse país voltou a ocupar Gaza. Esta força havia se retirado unilateralmente da faixa de Gaza em agosto de 2005. Israel intensificou suas restrições aos movimentos e à passagem de um a outro território durante 2006, particularmente em Gaza, o que limitou severamente o fluxo de bens e pessoas.
Israel também deteve vários ministros e parlamentares do Hamas, o que, na prática, impossibilitou o funcionamento do governo palestino. O informe diz que, desde março de 2006, Israel reteve a maior parte do dinheiro dos impostos indiretos que esse país arrecada em nome da ANP, o que contribuiu para a severa crise fiscal. O estudo também afirma que os ataques militares de Israel contra infra-estrutura palestina afetou a produção local.
“Houve perda de produção devido à total destruição de infra-estrutura física e de bens, ou foi desestimulada pelos numerosos fechamentos e postos de controle (israelenses), à escassez de fundos para financiar o gasto do governo, bem como pela maior incerteza sobre as perspectivas dos territórios palestinos”, diz o informe. Em outro documento, também divulgado na última segunda-feira, o FMI disse que no ano passado o governo palestino enfrentou uma severa crise fiscal, já que os recursos para financiar os recorrentes gastos do governo caíram mais de um terço, comparados com o ano anterior.
Os funcionários públicos receberam, em média, cerca da metade de seus salários, o que reduziu o gasto geral. A maioria dos doadores se absteve de dar ajuda financeira direta ao governo palestino e optou por usar canais que passaram por cima da Autoridade, liderada pelo Hamas. Mas o financiamento estrangeiro para apoiar operações orçamentárias chegou a quase US$ 750 milhões em 2006, mais do que o dobro da quantia recebida no ano anterior.
De todo modo, a maior parte dos fundos foi canalizada através do presidente Abbas – que tem apoio dos Estados Unidos e de Israel – e por outros rivais do Hamas. Israel afirma que deu a Abbas US$ 100 milhões e reteve US$ 475 milhões em impostos pertencentes aos palestinos. O informe também indica que as dificuldades políticas internas e as lutas entre Abbas e Hamas somente agravaram a situação para os palestinos comuns ao longo do ano passado.
O Fatah, partido secular e moderado liderado por Abbas, lutou com o Hamas pelo poder, o que freqüentemente resultou em violência e acrescentou dificuldades à vida diária do povo palestino, um dos mais pobres do mundo, segundo várias agências da Organização das Nações Unidas e instituições não-governamentais. As duas facções formaram um governo de coalizão no mês passado, com o patrocínio da Arábia Saudita. Os palestinos pobres foram os mais prejudicados, já que as famílias de baixa renda são as que mais dependem da assistência do governo.
Essas mesmas famílias restaram menos – se é que sobrou alguma – mercadorias para vender, e terão pouco ou nenhum acesso a bancos e outros meios de financiamento, prevê o informe. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) alertaram há pouco que o crescente desemprego e a pobreza ameaçam a segurança alimentar, deixando muitas famílias totalmente dependentes da assistência estrangeira.
Recentemente, a ONU informou que foi somente por meio de um aumento da ajuda humanitária e de uma forte solidariedade entre os palestinos que os pobres conseguiram evitar a fome m 2006. O estudo do Banco Mundial e do FMI conclui que é preciso um robusto esforço internacional para que a economia volte a equilibrar-se. “Será necessário um forte ajuste para colocar as finanças do governo em um caminho sustentável, mas, também continuará sendo necessário um considerável apoio externo no período de ajuste. Uma forte recuperação econômica ajudará muito no processo de ajuste”, diz o documento. (IPS/Envolverde)

