Oriente Médio: “Uma grande oportunidade de paz”

Washington, 28/03/2007 – Enquanto a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, realizava sua “diplomacia de enlace” no Oriente Médio, diplomatas e especialistas internacionais reconheciam “uma grande oportunidade para alcançar um completo acordo árabe-israelense”. Mas os 24 membros da junta diretora do centro acadêmico Grupo Internacional de Crise (ICG), com sede em Bruxelas, destacaram que essa oportunidade não vai durar muito e que a situação atual não poderá manter-se de forma indefinida.

“Se a atual chance para uma saída (para o conflito) não for compreendia nos próximos meses – sendo os governos de Israel e dos Estados Unidos os que têm um papel-chave a respeito – existe uma grande possibilidade de o apoio à solução dos dois Estados por parte dos palestinos e de todo o mundo árabes desaparecer, com todas as renovadas tensões que isso irá gerar”, alertou o ICG. A junta é co-presidida por Chris Patten, ex-comissário de Relações Exteriores da União Européia, e Thomas Pickering, ex-embaixador norte-americano junto à Organização das Nações Unidas.

O ICG sugere intensificação nos esforços diplomáticos pela paz, começando com a Cúpula da Liga Árabe está semana em Riad, onde se espera que os líderes árabes reafirmem seu apoio à normalização das relações com Israel em troca de esse país retornar às fronteiras que possuía antes da Guerra dos Seis Dias, de 1967. Mas os acadêmicos também exortaram esses líderes a fazerem uma viagem internacional, que inclua Israel, para explicar sua “Iniciativa Árabe de Paz”, um plano de autoria saudita que foi aprovado pela Liga em sua cúpula de Beirute de 2002. O ICG também fez um chamado ao Quarteto (instância de mediação integrada por EUA, UE, Rússia e ONU) para oferecer seu próprio esboço de uma solução de dois Estados.

“Graças à iniciativa árabe e à renovada disposição da secretária de Estado em se envolver, existe um consenso maior do que antes quanto à necessidade de um enfoque que ponha fim” ao conflito, disse o instituto. “A comunidade internacional deve jogar a maior claridade possível sobre os conteúdos que deveria ter um acordo final, incluindo questões de fronteiras, refugiados e o status de Jerusalém, a fim de estimular os líderes israelenses e palestinos a assumirem os compromissos necessários”, acrescentou. Rice encerrou nesta terça-feira uma viagem pelo Oriente Médio após se reunir em Jerusalém com o ministro da Defesa de Israel, Amir Peretz.

Em entrevista coletiva, Rice anunciou que o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, e o presidente palestino, Mahmoud Abbas, se comprometeram a manter reuniões a cada duas semanas para reconstruir a confiança mútua e “desenvolver um horizonte político”. O ICG exortou a comunidade internacional a aliviar o boicote aplicado contra o governo de unidade nacional palestino, bem como manter contatos políticos com o Movimento de Resistência islâmica (Hamas) e a apoiar o reinicio das negociações de paz entre Síria e Israel.

A declaração do ICG, divulgada depois de uma visita a região feita por especialistas do grupo, foi apresentada em meio a um crescente apoio dentro de Israel no sentido de apoiar a Iniciativa Árabe de Paz, que se espera seja apoiada oficialmente pelo governo de unidade palestino nesta semana. Altos funcionários de governos israelenses, incluindo Olmert e seu chanceler Tzipi Livni, falaram de maneira positiva sobre a iniciativa nas últimas semanas, bem como o líder do direitista partido Likud e ex-primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu (1996-1999).

No sábado, mais de cem destacadas figuras israelenses e palestinas, incluindo parlamentares dos dois lados, divulgaram um comunicado conjunto destacando que a iniciativa árabe “dá a todas as partes interessadas e envolvidas um completo processo para solucionar cada um dos aspectos do conflito no Oriente Médio”. O porta-voz da organização norte-americana-israelense pela paz Americans for Peace Now, Ori Nir, destacou que “a iniciativa realmente ganha velocidade. Há apenas uma semana não estava na agenda pública israelense, mas agora os ministros falam sobre ela”.

Por outro lado, um estudo divulgado no final de semana pelo Centro Palestino de Pesquisa para Políticas e Estudos indicou que quase três em cada quatro palestinos consultados em Gaza e na Cisjordânia disseram ser partidários da iniciativa árabe. Essa mesma porcentagem apoiou negociações diretas com Israel para chegar a uma fase intermediária com a criação de um Estado palestino independente em Gaza e grande parte da Cisjordânia, deixando os demais assuntos, como refugiados e fronteiras, para futuras gestões.

A declaração do ICG, aprovada por unanimidade no fim de semana na cidade canadense de Vancouver, destaca a convergência de três assuntos-chave no mês passado: a formação de um novo governo palestino, com participação tanto do Hamas quanto do partido secular Al Fatah, o renovado compromisso da Liga Árabe com sua iniciativa e a mais positiva resposta que está recebeu em Israel. Assim, os especialistas concluíram que está combinação de fatores cria “uma genuína oportunidade” para uma solução do conflito “que não deve ser desperdiçada”.

Em particular, o ICG exortou a comunidade internacional a dialogar com o novo governo palestino, formado há apenas 10 dias, apesar de estar integrado pelo Hamas. O governo israelense explicou que somente negociará com o presidente Mahmoud Abbas, enquanto Estados Unidos, UE e ONU insistiram que continuarão boicotando os membros do Hamas, incluindo o primeiro-ministro Ismael Haniyeh, até que esse movimento renuncie explicitamente à violência, reconheça Israel e apóie todos os acordos de paz anteriores assinados pela Organização para a Libertação da Palestina.

“Qualquer tentativa de boicotar, prejudicar ou marginalizar o governo palestino dificultará os esforços para alcançar um cessar fogo e promover um acordo político”, alertou o ICG. “Em conversas com altos líderes do Hamas, a delegação do ICG descobriu um importante movimento sobre assuntos-chave para o avanço do processo de paz”, afirmou. É significativo que o ICG também inclua dois norte-americanos defensores da invasão do Iraque, que em geral se opuseram a exercer qualquer tipo de pressão sobre Israel para que faça concessões territoriais aos árabes. Trata-se do ex-representante Stephen Solarz, do opositor Partido Democrata, e o destacado neoconservador Kenneth Adelman, que ficou famoso por ter dido que a guerra do Iraque era “favas contadas”. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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