Kigali, 12/06/2007 – O regresso, em 1996, a Ruanda de mais de um milhão de pessoas que haviam fugido do genocídio ocorrido dois anos antes, temendo a perseguição dos rebeldes tutsi, foi muito comemorado em seu momento. O retorno aconteceu porque os acampamentos de refugiados na vizinha República Democrática do Congo (na época Zaire) foram devastados pela cólera em 1994. Além disso, haviam ficado sob controle de militantes hutu, o que representava um importante obstáculo para a estabilização da região dos Grandes Lagos.
Mais de 800 mil membros da minoria tutsi e hutus moderados foram assassinados em um genocídio cometido por extremistas hutus que durou três meses, iniciado logo depois que um avião transportando o presidente ruandês, Juvenal Habyarimana, e seu colega do Burundi, Cyprien Ntaryamira, foi derrubado em Kigali no dia 6 de abril de 1994. Cerca de dois milhões de ruandeses foram obrigados a abandonar o país.
Com o regresso dos refugiados surgiram vários problemas ambientais na região de Gishwati. Essa outrora área de maravilhosa floresta perdeu grande parte de suas árvores nos últimos 10 anos, porque os que regressavam procuraram terras para plantar. Funcionários do governo dizem que a região foi prejudicada pelos criadores de gado e pela crescente demanda por madeira. O Ministério de Terras, Meio Ambiente e Recursos Florestais informou que os ruandeses dependem da madeira para 95% de suas necessidades de energia. Mas, as comunidades em Gishwati acusam o governo de destruição ambiental em sua região. Muitos moradores afirma que as autoridades agem de forma irresponsável na concessão de terras na floresta.
Madelein Mbabazi, da localidade de Bigogwe, foi mais além: “O corte descontrolado de árvores foi estimulado pela corrupção e pelos roubos nos mais altos níveis do Estado, a ponto de as autoridades não terem poder para enfrentar o desastre”. Bonaventure Bizumuremyi, diretor da publicação bimensal independente Umuco, de Kigali, também responsabilizou as autoridades. “É deplorável ver centenas de funcionários preocupados apenas com a ganância, enquanto as comunidades rurais continuam presas na miséria”, afirmou.
O que ninguém nega é a grande redução das áreas de floresta. Em um estudo de 2006 a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) diz que dos 28 mil hectares de florestas que Gishwati tinha há 10 anos, restam apenas 4.500. Donath Gapira, pequeno criador de gado de Nkamira, disse que o corte indiscriminado continua, e que está surgindo uma erosão dos solos. “Devem existir medidas rígidas para deter a destruição ecológica desta área”, acrescentou.
Paradoxalmente, o desaparecimento das florestas de Gishwati aconteceu enquanto o governo aplicava um plano para combater o desmatamento e reflorestar, pelo menos, 60% do território. Atualmente, cerca de 29% do país está coberto por floresta, segundo o Ministério de Terras. “Redigimos uma série de medidas rígidas para limitar a destruição de florestas. Se não adotarmos essas medidas, inevitavelmente haverá um risco de desastre ecológico”, disse à IPS o ministro de Terras, Christophe Bazivamo.
Entre as medidas se incluem pesadas multas para o corte ilegal, crime que antes era com uns poucos dias de prisão. Mas, uma pesquisa da Universidade Nacional de Ruanda diz que a pobreza rural no país continuará fomentando o desmatamento. Segundo o Informe de Desenvolvimento Humano 2006, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, quase 52% dos 9,4 milhões de habitantes do país vivem com menos de US$ 1 por dia, e cerca de 84% com menos de US$ 2 diários. (IPS/Envolverde)

