Palestina-Israel: ONU acusada de parcialidade

Nações Unidas, 18/06/2007 – O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se mostrou mais preocupado com a divulgação publica de um documento interno sobre o diálogo de paz entre Israel e Palestina por seu conteúdo, crítico em relação ao papel da comunidade internacional nas negociações. O informe do ex-subsecretário-geral da ONU, Álvaro de Soto, coordenador especial do fórum mundial para o processo de paz do Oriente Médio, acusa a própria instituição de enfraquecer os esforços para a criação de um Estado palestino. “O vazamento do documento para a imprensa foi algo infeliz”, afirmou Ban aos jornalistas, na semana passada. “Quero deixar claro que essa é a visão pessoal de De Soto”, acrescentou. O subsecretário está há 25 anos na ONU e prepara sua saída.

O editor da revista especializada Middle East Report – publicada em Washington -, Chris Toesing, questionou Ban por evitar em suas respostas as perguntas mais politicamente comprometedoras feitas pelos jornalistas. “Bravo, De Soto, que colocou no documento suas opiniões sem nenhuma tipo de maquiagem”, disse Toesing à IPS. “É uma vergonha que o secretário-geral rejeite os pontos de vista deste destacado diplomata. Isto indica que ele, como seu antecessor, Kofi Annan, sacrifica a independência das Nações Unidas para ganhar a atenção de Washington”, acrescentou o editor.

A co-diretora do escritório em Washington do Instituto de Estudos Palestinos, Nadia Hijab, também criticou Ban e aplaudiu o trabalho de De Soto. “Seu informe dever ser leitura obrigatório para todos que trabalham na ONU ou pretenda trabalhar”, disse à IPS. “Soa o alarme quando uma organização e seu secretário-geral são obrigados a manter obediência às políticas das potências mundiais em lugar de agir com neutralidade entre as nações e defender as leis internacionais”, acrescentou Hijab.

Um diplomata árabe disse à IPS que a ONU, historicamente, nunca foi considerada mediadora imparcial no Oriente Médio, principalmente pela pressão dos Estados Unidos. “A julgar pelos comentários de Ban, ele não é melhor do que seus antecessores e continuará percorrendo o mesmo caminho”, acrescentou a fonte. De Soto escreveu, em seu informe de 52 páginas, que “os passos dados pela comunidade internacional com o suposto objetivo de estabelecer uma entidade palestina que viveria em paz com Israel teve o efeito contrário”. O documento destaca que a idéia de criar um só Estado que englobe Israel e Palestina ganha terreno rapidamente.

“A combinação do declínio institucional da Autoridade Nacional Palestina e a expansão dos assentamentos israelenses fomenta a idéia, entre palestinos e israelenses de origem árabe, bem como no caso de alguns judeus de extrema esquerda, de que os melhores dias da solução baseada em dois Estados ficaram para trás”, escreveu De Soto. Segundo o documento confidencial, revelado pela imprensa britânica, tanto Ban quanto Annan deram cobertura política aos Estados Unidos e à União Européia em seus esforços para marginalizar o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) apesar de seus triunfos eleitorais nos territórios ocupados.

Annan foi acusado de criar obstaculizar os esforços de De Soto para manter um contato político regular com a direção do Hamas. O ex-secretário-geral da ONU também foi criticado por assumir uma posição favorável aos pontos de vista dos Estados Unidos. Uma acusação semelhante foi feita por várias organizações não-governamentais contra Ban, que teria uma dívida de gratidão com Washington pelo apoio que recebeu para se converter em secretário-geral. De Soto tem pouca ou nenhuma esperança de que Washington, a UE, a ONU e a Rússia (que integram o chamado Quarteto, que promove a paz no Oriente Médio acertada pela comunidade internacional) dêem uma solução imparcial ao conflito.

Os críticos do Quarteto dizem que sua função é fornecer um “escudo” político aos Estados Unidos e à União Européia para que levem à bancarrota o governo palestino. “A imparcialidade está reduzida à submissão”, disse De Soto. Ao mesmo tempo, o subsecretário criticou os lideres do Hamas por continuarem propiciando a destruição de Israel. Também caracterizou o Quarteto como uma “distração” e aconselhou as Nações Unidas a se retirarem do grupo. “Não concordo com De Soto quando diz que se trata de uma espécie de distração”, foi a resposta de Ban às críticas. Segundo Toensing, da Middle East Report, “o incendiário informe de De Soto retira o véu sobre os alcances da desonestidade do governo de George W. Bush em sua tentativa de enfraquecer o processo democrático na Palestina e enterrar as perspectivas de paz na região”.

O documento de De Soto demonstra com exatidão o motivo de os enfrentamentos entre facções palestinas rivais estarem relacionados com o conflito entre Israel e Palestina, acrescentou o editor. Toesing disse que Estados Unidos e Israel empurraram o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e outros dirigentes do Fatah, o partido moderado e secular cujo líder histórico foi o falecido Yasser Arafat, ao confronto com o Hamas. “O mais interessante, além da revelação de De Soto sobre a satisfação de funcionários norte-americanos quando começaram os choques entre Fatah e Hamas, é sua convicção de que Abbas sempre quis captar seus rivais islâmicos antes de enfrentá-los. Agora, em grande parte graças à Casa Branca, essa opção estratégica se perdeu”, acrescentou.

Hijab disse que quando o mundo olha com horror e assombro a sangrenta luta pelo poder entre palestinos, o oportuno informe de De Soto revela porque se chegou a esta situação. Citou, em particular, a insistência de Washington para isolar o Hamas depois de sua vitória nas eleições parlamentares de janeiro de 2006. “As sanções internacionais contra um governo eleito livremente lideradas pelos Estados Unidos devastaram a economia e empurraram a grande maioria dos palestinos para baixo da linha de pobreza. E quando Fatah e Hamas trataram de aproximar-se em um governo de unidade as sanções não foram levantadas”, acrescentou.

Segundo Hijab, os Estados Unidos entregaram armas e treinaram membros do Fatah para que combatessem o Hamas. “E foi incapaz, ou não teve vontade política, de fazer Israel assumir suas obrigações como potência ocupante e as derivadas dos acordos que assinou”, afirmou Hijab. “Este comprometedor informe de De Soto deveria ser leitura obrigatória para todos que tomam decisões políticas nos Estados Unidos, porque explica as razões pelas quais as iniciativas de Washington no Oriente Médio sempre se converteram em um bumerangue”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *