Afeganistão: Baixas civis favorecem o Talibã

Cabul, 10/08/2007 – Enquanto aumentam as baixas civis no conflito do Afeganistão, a opinião pública se volta contra as forças da coalizão internacional e seus contrapartes da polícia e do exército afegãos, para vantagem do grupo Talibã, que já reimpôs seu controle em algumas zonas do sul do país. O Talibã é o grupo extremista islâmico que governou este país entre 1996 e 2001, quando foi derrubado pelos Estados Unidos e seus aliados, que o acusaram de proteger membros da organização terrorista Al Qaeda. “As baixas civis são um grande problema que enfrentamos”, confirmou o general Zahir Azimi, porta-voz do Ministério da Defesa afegão. “Buscamos formas de continuar a luta contra os inimigos e reduzir as vítimas civis”, ressaltou.

Em 26 de julho um avião da Força Internacional de Assistência para a Segurança (ISAF), encabeçada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), atacou objetivos talibãs na província de Helmand, sul do país, o que causou a morte de 78 civis e reduziu a escombros inúmeras casas de barro. Por essa razão, houve irados protestos no distrito de Gereshk contra as forças estrangeiras e o governo afegão. A administração de Hamid Karzai abordou em Cabul a questão das mortes de civis em uma reunião com os comandantes militares da ISAF.

Sultán Ahmad Bahin, porta-voz da chancelaria em Cabul, disse que Karzai pediu urgência várias vezes à coalizão para proteger os civis. “O governo disse aos comandantes da Otan que devem ser mais precisos em seus ataques aéreos”, insistiu. Lamentavelmente, acrescentou, a tarefa fica difícil porque os combatentes do Talibã usam a população civil como escudo humano. O general Azimi anunciou que estavam sendo completados os detalhes de uma estratégia conjunta entre as forças internacionais e as afegãs para evitar mortes desnecessárias de civis. Além disso, o governo considera fundamental encontrar uma maneira de enfrentar a propaganda do Talibã nas áreas de conflito, acrescentou.

O certo é que o governo parece estar perdendo a luta pela mente e o coração do povo, a favor do Talibã. Por isso considera fundamental conscientizar a população de que os ataques aéreos e terrestres são para protegê-la contra os combatentes islâmicos, que atacaram funcionários públicos, matando médicos e estudantes e destruindo escolas recém-construídas, em geral para meninas. O analista político Habilulá Rafi disse que as vítimas civis só diminuirão se as forças da coalizão coordenarem suas operações militares com as forças afegãs. “Desde a queda do Talibã pelas forças lideradas pelos Estados Unidos a quantidade de vítimas civis não deixou de aumentar. A maioria das vítimas dos ataques aéreos e de gente comum, que não são talibãs”, afirmou

Segundo Rafi, a presença de forças estrangeiras no Afeganistão não melhorou a vida dos afegãos. Ao contrário, ao terem bombardeadas festas de casamento e brutais invasões de suas casas por parte de soldados buscando militantes islâmicos, os civis forma obrigados a se defender unindo-se aos talibãs, afirmou. “Só a reconstrução deste país devastado pela guerra pode melhorar a vida das pessoas. Se as forças da coalizão usassem ferramentas em lugar de armas isto traria paz e prosperidade ao Afeganistão. A guerra pode ser ganha com a reconstrução, disse o analista”.

Para Farid Hamidi, membro da Comissão Independente pelos Direitos Humanos no Afeganistão, todas as partes do conflito violaram as normas da guerra. “Estas mortes de civis violam o direito internacional, as leis da guerra e os direitos fundamentais dos afegãos. Nenhuma das partes respeita estas normas”, ressalvou. Aos grupos extremistas que lutam por meios convencionais agora se somaram terroristas suicidas, pela primeira vez em quase três décadas de guerra. Segundo Rafi, há poucas esperanças para o povo afegão.

“Sempre foi refém de uma guerra interminável entre partes rivais. Toda elas dizem defender os direitos do povo, ms não o fazem porque usam meios ilegítimos para alcançar seus objetivos. Tudo o que as pessoas têm é pobreza e desgraça”, lamentou. No Afeganistão, a expectativa de vida é de 44,5 anos, 20% das crianças morrem antes dos 5 anos, e uma mulher morre por causas relacionadas com a gravidez e o parto a cada 30 minutos, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). (IPS/Envolverde)

* Colaboração de The Killid Group

Correspondentes da IPS

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