Ramalá, 23/11/2007 – Enquanto os líderes de Israel e da Palestina se preparam para negociar na próxima semana em Annapolis, nos Estados Unidos, o povoado de Al Walajeh, na Cisjordânia, continua sofrendo uma lenta e dolorosa agonia pela demolição de casas por parte de forças israelenses. Al Walajeh já foi um lugar tranqüilo, mas cheio de atividade. A quatro quilômetros de Belém e 8,5 quilômetros de Jerusalém, suas colinas repletas de árvores frutíferas e florestas naturais ornadas com uma enorme vegetação o faziam um povoado agrícola por excelência. O fácil acesso a grandes mercados permitia à sua população desfrutar de uma relativa prosperidade. A vida era boa. Hoje, tudo isso mudou.
“A demolição de casas é algo que ocorre quase semanalmente em Al Walajeh”, disse à IPS a integrante do conselho local Sheerin Alaraj. “As pessoas não têm para onde ir. Há pelo menos três famílias vivendo em cada casa, e às vezes mais. Algumas famílias foram obrigadas a morar em cavernas”, afirmou. Desde o início da ocupação militar em grande escala da Cisjordânia, as forças israelenses demoliram mais de 12 mil casas palestinas. O povoado de Alaraj, onde vivem cerca de 1.700 palestinos, estão sob assedio, mas ela se nega a abandoná-lo, como o restante de sua comunidade.
A construção por Israel de um muro ao redor da Cisjordânia, além de tomar terras de colonos judeus, dizimou as construções os moradores locais, bem como a renda que lhes permitia viver. Hoje, al Walajeh consta de apenas 4,5 quilômetros quadrados de terras. Isto é, 22% de seu tamanho original. Em junho de 2004, o Tribunal Internacional de Justiça, ramo judicial da Organização das Nações Unidas e com sede na cidade holandesa de Haia, determinou que a construção do muro “contraria o direito internacional”.
“Israel está obrigado a por fim à construção e desmantelar o muro”, acrescentou. além disso, “Israel deve compensar os proprietários de terras confiscadas para construir a barreira e os que forem prejudicados por ela. Todos os Estados estão obrigados a desconhecer a situação criada e garantir que Israel cumpra o direito internacional”. Israel não aceitou a sentença, que carece de caráter obrigatório, e continuou construindo o muro que, no final, terá 703 quilômetros ao redor da Cisjordânia, com freqüência atravessando áreas da “linha verde”, fronteira internacionalmente reconhecida, demarcada com a Jordânia em 1949. O governo israelense assegurou que sua intenção é impedir atentados suicidas, mas observadores afirmam que pretende anexar tanta terra quanto puder da Cisjordânia para os assentamentos judeus em expansão.
A terra outrora fértil ao redor de Al Walajeh desapareceu em meio ao concreto de três grandes assentamentos judeus: Gilo, Har-Gilo e Giv’at Yael. As escassas árvores que restam são alvo de ataque: o exército israelense as derruba para construir um novo pedaço do muro. Quando as obras concluírem, a população de al Walajeh perderá acesso a 90% de suas terras agrícolas. O centro urbano, reduzido a uma área de apenas 2,2 quilômetros quadrados, ficará completamente cercado pelo muro. Seus moradores serão obrigados a pedir autorização em um posto de controle israelense para entrar e sair de seu próprio povoado. Porém, a população se nega a partir.
“Os moradores de al Walajeh são manipulados e intimidados pelo Estado judeu, que lhes propõe abandonar voluntarimente o lugar”, diz um estudo conjunto do Instituto de Pesquisas Aplicadas e do Centro de Pesquisas sobre a Terra, ambos com sede em Jerusalém. Mas essa política tem fracassado. Para os moradores que vivem no sitio projetado do muro ou do outro lado, a demolição é iminente. A casa de Munthar Hamad foi destruída duas vezes, primeiro em janeiro de 2006 e depois em dezembro. Hoje não tem teto. “Hamad investiu 50 mil shekels (US$ 12 mil) para reconstruir sua casa de 120 metros quadrados pela segunda vez. Israel não só o deixou na falência como o converteu, e aos outros cinco membros de sua família, em pessoas sem-teto”, diz o informe.
“A Quarta convenção de Genebra proíbe a destruição de propriedade privada por uma potência ocupante, a menos que essa destruição esteja legalmente justificada por um imperativo de segurança. Para os 12 mil palestinos que perderam suas casas em demolições israelenses é difícil entender que a segurança de Israel depende de eles ficarem sem teto. Os moradores de al Walajeh em breve se converterão em prisioneiros dentro de seu próprio povoado, cercados por assentamentos judeus ao norte, sul e oeste e confinados pelo muro que Israel constrói. “É como uma condenação à prisão perpétua para todos aqui, inclusive para os que ainda nem nasceram”, disse Alaraj. (IPS/Envolverde)

