Washington, 04/03/2008 – O senador Barack Obama, pré-candidato do Partido Democrata, espera fazer história nas eleições de novembro deste ano e se converter no primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Com o fervoroso apoio de eleitores jovens, afro-norte-americanos e brancos de classe média, venceu em uma sucessão de eleições primárias (internas) desde a Super Terça de 5 de fevereiro, quando houve eleições em mais de 20 Estados para designar o candidato presidencial da oposição e o eleitorado democrata dividiu-se entre Obama e a senadora Hillary Clinton, até então favorita.
Nesse momento o jovem senador conta com maior número de delegados, que são os que elegerão na Convenção Nacional Democrata o candidato do partido para as eleições presidenciais de novembro. Sua carreira é única. Este “fracote de nome engraçado”, segundo sua própria definição, encarna uma nova etapa na política norte-americana e não apenas por sua raça. Sua campanha está baseada na idéia da mudança, embora não limitando apenas à presidência ou ao governo nacional. Obama defende modificar a sensibilidade política do país em seu conjunto, inclusive do mundo.
Na carreira para a presidência atrai as pessoas não tanto por suas propostas concretas, mas graças à sua emotiva oratória, com a qual pede aos cidadãos que tenham “esperança” e se apresenta como o candidato “da mudança no qual podemos acreditar’. Alguns de seus críticos põem em dúvida sua capacidade para concretizá-la, desprezando sua retórica como o idealismo vazio de um jovem político. Ressaltam sua inexperiência e asseguram que não estará em condições de manejar uma pesada burocracia nem de mover as travas do governo.
“Peço à minha equipe que jamais me entregue um documento até dois segundos antes que o necessite, porque o perderia”, disse Obama ao ser perguntado sobre seus pontos fracos. “E o escritório do meu comitê não tem um aspecto muito bom”, acrescentou. Mas, apresenta-se como uma espécie de salvador da alma norte-americana, um homem pronto para oferecer uma saída à “política do passado” e a todos os males que causou às pessoas. “É a única pessoa desta raça que entende que antes de podermos trabalhar nos problemas temos de curar nossas almas, que estão quebradas nesta nação”, afirmou Michele, esposa de Obama.
Embora seus críticos o considerem um falso messias, no caso de vencer as eleições poderia aproveitar algumas oportunidades de início de mandato. Já que o aparentemente seguro aspirante à Casa Branca pelo Partido Republicano, John McCain, aparecerá como o “candidato da guerra”, tanto Obama quanto Clinton podem se apresentar como uma cara nova na política externa norte-americana. Mas acredita-se que, devido aos seus antecedentes multiculturais, Obama terá maior margem de manobra frente à opinião pública mundial e dará aos Estados Unidos melhores possibilidades de recompor sua imagem tanto com os aliados desiludidos quanto com os inimigos históricos.
Nasceu no Hawai. Sua mãe é uma mulher branca de classe média e seu pai um queniano muçulmano que estudou nos Estados Unidos. Durante sua juventude, Obama viveu vários anos na Indonésia. Isto, afirmam seus seguidores, fará o mundo saber que terá um enfoque mais global. Obama fez campanha em torno deste conceito, afirmando que estará aberto a conversações sem condicionamentos com qualquer líder estrangeiro, amigo ou adversário. Mas sua falta de experiência, novamente, gera críticas contra ele neste assunto. Embora sua juventude e idealismo tenham servido para traçar paralelos com o ex-presidente John F. Kennedy (1961-1963) alguns analistas recordam a inexperiência de Kennedy para por em dúvida a capacidade de Obama.
“Apesar de seus anos de experiência e sua perspicácia política, que Obama não pode igualar, Kennedy esteve muito mal preparado para manejar os dois grandes problemas que enfrentou em seu governo: a crise dos mísseis cubanos em 1962 e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos”, afirmou o comentarista político Earl Ofari Hutchinson. Obama, por outro lado, que foi eleito senador há apenas três anos, apresenta sua curta carreira política como um fato positivo: não está associado – argumenta – com os grupos de pressão que muitos eleitores vêem como uma influência que corrompe.
Além disso, tende a cercar-se de gente experiente, capaz de levar adiante o dia a dia da gestão governamental enquanto ele, com seu idealismo, fixa o curso para a nação em seu conjunto. Talvez isto remonte aos seus dias como organizador comunitário nos bairros da zona sul de Chicago. Este enfoque, como muitos dos pontos fortes de Obama, e algumas de suas fraquezas, emana de sua capacidade para montar-se sobre diversas linhas divisórias na sociedade norte-americana.
É negro, mas foi criado por uma família branca de classe media. Estudou na exclusiva Universidade de Harvard, mas também fez trabalho comunitário nas difíceis ruas do lado sul de Chicago. Neste ciclo de eleições primárias venceu em Estados tradicionalmente democratas e com grande número de eleitores afro-norte-americanos como Carolina do Sul, mas também em alguns com população majoritariamente branca, como Iowa, Idaho, Nebraska e Utah, onde a quantidade de pessoas que foi votar não tem precedentes.
Isto, entretanto, lhe causa problemas. Seus oponentes da direita o acusam de estar muito à esquerda, e este setor o questiona por não abraçar suas causas com suficiente convicção. Obama evita definir-se em muitos temas controversos. Quando o Senado examinou o projeto para declarar “organização terrorista” a Guarda Revolucionária Iraniana, simplesmente se absteve. O mais problemático desta posição, ou falta dela, é que mostra uma faceta muito mais calculadora na campanha de Obama do que na de sua rival interna, Clinton.
Embora tenha se oposto à invasão do Iraque em 2003, a partir de 2005, quando venceu as eleições para o Senado, votou com Hilary Clinton praticamente em todas as ocasiões em que temas ligados a esse país foram tratados. Alguns líderes do Partido Democrata temem que sua falta de sólidos antecedentes se converta em alvo dos ataques republicanos durante a campanha presidencial. Pessoas próximas à senadora o caracterizam como “uma incógnita”. Se assim for, Obama poderá necessitar levar seus discursos para além da simples retórica de pedir aos eleitores que “acreditem” e tenham “esperança”. (IPS/Envolverde)

