ALIMENTAÇÃO: Conselho de Segurança da ONU ignora crise alimentar

Nações Unidas, 08/05/2008 – A crise alimentar que originou protestos e distúrbios em quase 30 países, a maioria africanos, continua sem atrair a atenção do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.

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“Se não forem tomadas as medidas necessárias para evitar uma maior deterioração da crise alimentar mundial no tocante à segurança, o Conselho será negligente”, disse à IPS o alto representante da ONU para os países menos desenvolvidos, Anwarul Karim Chowdhury. No passado, acrescentou, este órgão discutiu assuntos como o possível impacto sobre a paz e a segurança da pandemia de Aids e da mudança climática, embora outras agências das Nações Unidas se ocupem diretamente dessas questões.

“Nem o Conselho Econômico e Social (Ecosoc) nem a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) têm entre suas faculdades tratar dos problemas de segurança relacionados com a crise alimentar”, disse Chowdhury. Por sua vez, o embaixador da Grã-Bretanha na ONU, John Sawers, que este mês preside as deliberações do Conselho de Segurança, afirmou à imprensa que a crise alimentar deve ser abordada em outras instancias. Sawers mencionou, especificamente, o Ecosoc, “onde todos podem participar em pé de igualdade para tratar, fundamentalmente, dos aspectos humanitários e de desenvolvimeno relacionados com a segurança alimentar”.

Integrado por 54 dos 192 Estados-membros da ONU, o Ecosoc coordena as iniciativas econômicas e sociais do fórum mundial e de suas agências especializadas. Mas, não tem as faculdades executivas e resolutórias do Conselho de Segurança. “Mais cedo ou mais tarde, o Conselho terá que deixar de lado seu enfoque eminentemente político dos conflitos para reconhecer que estes não podem ser prevenidos sem uma abordagem das condições econômicas e sociais”, disse James Paul, diretor-executivo do Fórum de Políticas Globais, com sede em Nova York, que avalia as atividades das Nações Unidas.

Para Paul, a crise alimentar e a mudança climática deixam claras essas perigosas limitações. “As duas crises vêm de muito tempo, mas, não foi tomada nenhuma ação internacional séria”, afirmou Paul a IPS. “Discutir qual é o organismo da ONU mais apropriado para tratar da crise alimentar é, em certo sentido, válido, mas não resulta completamente convincente, pois o Conselho de Segurança é um órgão poderoso e o Ecosoc, infelizmente, é relativamente fraco”, acrescentou. Enquanto as potências e alguns interesses poderosos se refugiam atrás dessa discussão, a crise se agrava, ressaltou Paul.

Nos últimos meses, cem milhões de pessoas em todo o mundo foram arrastadas para a fome e a desnutrição, enquanto a crise alimentar causou distúrbios em 30 países. “Apesar de tudo, o Conselho de Segurança continua manejando seus assuntos rotineiramente, com a esperança de que o problema desapareça”, afirmou Paul. “Quantos milhões de pessoas famintas são necessários para que a comunidade internacional considere ações de emergência? Não apenas fundos de ajuda alimentar, mas mudanças fundamentais na forma com os alimentos são produzidos e chegam ao consumidor”, acrescentou.

Chowdhury recordou que foi a Grã-Bretanha o país que tomou a iniciativa de levar ao Conselho de Segurança as discussões sobre mudança climática, pois entendeu que o fenômeno representava uma ameaça para a paz e a segurança. Porém, o Grupo dos 77, que reúne 130 países em desenvolvimento mais a China, questionou essa decisão, argumentando que o tema deveria ser abordado pelos órgãos da ONU responsáveis pelo desenvolvimento sustentável e não pelo Conselho de Segurança. Esse protesto não foi considerado. Nesta semana, entretanto, o representante britânico utilizou o mesmo argumento para assinalar que a crise alimentar deve ser tratada no contexto do Ecosoc. “É um caso clássico de hipocrisia política”, disse um diplomata alinhado com o Grupo dos 77. “Quanto tentamos fazer com que a mudança climática fosse discutida pelo Ecosoc e por agências ambientais das Nações Unidas, os britânicos se opuseram”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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