EGITO-PALESTINA: Derrubando muros com pipas

Gaza, 18/06/2008 – O palestino Mahmoud Abu Teior, de 13 anos, jamais viu pessoalmente seu amigo Adbullah. Um vive na faixa de Gaza e outro no Egito, do outro lado da fronteira. Mas, conhece sua pipa. Mahmoud a identifica pelas cores, quando está no ar, muito mais acima do muro que marca a divisão e indiferente aos limites territoriais. O menino palestino também conhece a voz de seu amigo egípcio, porque puderam se falar em algumas ocasiões. Embora jamais tenham se conhecido, estão ligados através de suas pipas. Nesta temporada de férias, grande quantidade de crianças brincam juntas. E o muro que os separa não os impede de fazerem amizades.

Mahmoud sempre viu na fronteira entre Egito e Gaza um lugar para brincar. Ali ficava a casa da família, antes de ser demolida para dar lugar ao muro. “Sempre venho, porque estava a nossa casa”, diz, enquanto empina sua pipa. A maioria das crianças palestinas brinca onde ficavam suas casas, nos bairros que, quando existiam, se chamavam Bloco O, Bloco J, Yebna ou Al-Salam. É a terra de ninguém conhecida como “Corredor Filadélfia”, criado pelos escombros de 2.400 casas demolidas antes da “retirada” de Israel em 2005, que deixou cerca de 16.800 pessoas sem teto, segundo a Organização das Nações Unidas.

Agora, apenas as pipas podem cruzar a fronteira. Ao olhar para o céu é possível notar as diferenças entre umas e outras. A maioria é feita com papel comum e sacos plásticos como cola, com alguns espinhos para o “combate aéreo” nos céus de Gaza e Egito. Khalid Zanoun, de 12 anos, também escolhe empinar sua pipa onde uma vez esteve sua casa. “A perdi”, grita com os punhos apertados ao ver como sua pipa desaparece em uma dessas batalhas aéreas. Mas, logo esta contente novamente, armando outra para novo “combate” com seus amigos nunca vistos do outro lado da fronteira.

A curiosidade o levou, tempos atrás, a subir no muro para vê-los. “Já não deixam fazer isso”, lamentou. São impedidos de cada lado do muro, pelos guardas egípcios ou por membros do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que no ano passado tomou pelas armas o controle de Gaza, após vencer as eleições palestinas de 2006. Mas a proibição não é completa. Os meninos, definitivamente, sempre serão crianças, e sobem no muro mesmo que seja apenas para cumprimentar os soldados egípcios. Existe um mundo melhor, e para as crianças palestinas fica no Egito. Seus amigos desse país têm melhores pipas e melhores sapatos. Em Gaza, a maioria anda descalça sobre o solo ardente. O preço do calçado é inacessível para a maioria dos palestinos por causa do bloqueio econômico imposto por israel.

Quatro irmãos de Mahmoud vivem no Egito. Ele sonha juntar-se a eles, mas para trabalhar como engenheiro e não, como eles, de jornaleiro. “Estive no Egito uma vez”, contou, quando palestinos desesperados pelo bloqueio israelense e pela fronteira fechada derrubaram partes do muro em janeiro, com a intenção de se lançar em avalanche às compras de gêneros de primeira necessidade. “Fiquei encantado”, disse Mahmoud. Mas, ele tem dúvidas sobre a possibilidade de se formar engenheiro. Falta dinheiro para pagar os estudos universitários. Sua família chegou a Gaza em 1949, quando o Estado de Israel foi criado sobre as terras onde viviam. Agora, estão sem teto novamente, desalojados pela construção do muro que separa Egito de Gaza, e vivem, como antes, em um acampamento de refugiados.

Outro menino palestino chega para unir-se à brincadeira de Mahmoud. Levanta a camisa e mostra o ferimento causado por um estilhaço, que o atingiu durante um ataque israelense. Ele também perdeu sua casa. Mas, no momento, sua atenção está voltada para sua pipa. (IPS/Envolverde)

Mohammed Omer

Mohammed Omer reports for IPS about surviving in the blockaded Gaza Strip. Much of his work arises from his personal experience in the volatile situation of this Palestinian territory. He was the co-winner of the Martha Gellhorn Prize for Journalism 2007.

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