JORNALISMO-ÍNDIA: Crianças influem nas decisões políticas

Tonk, Índia, 18/06/2008 – Em boa parte da Índia rural existe um antigo ditado: que as crianças sejam vistas, mas não ouvidas. Em certas ocasiões esse ortodoxo esquema patriarcal se quebra. As crianças de algumas aldeias do Estado de Rajastão, o maior do país e um dos mais pobres, assumiram a função dos meios de comunicação ao abordarem assuntos sociais e de desenvolvimento que afetam seu bem-estar e seu futuro. A ação destes dinâmicos e jovens jornalistas começou a ter impacto nas decisões políticas em aldeias do distrito de Tonk, a cerca de 120 quilômetros da capital estadual, Jaipur.

Savitri, de 13 anos, estava preocupada pelos cabos elétricos soltos que ficavam pendurados a curta distância do chão, sobre os campos de sua aldeia, que impediam os moradores de trabalharem e cuidarem de suas plantações. A companhias de eletricidade não fazia nada, apesar das queixas. Na aldeia de Chanpura, de aproximadamente dois mil habitantes, um búfalo morreu eletrocutado, o que causou pânico. A indignada Savitri resolveu agitar a apática campanha. A intrépida adolescente escreveu um artigo curto, mas veemente, sobre os problemas enfrentados pelos aldeões de Chanpura e a atitude negligente da empresa. O artigo foi publicado no jornal local e as autoridades, que ficaram em evidencia, se viram obrigadas a atender as queixas.

Anand Yadav, de 16 anos, lançou uma cruzada para melhorar o fornecimento de energia elétrica na aldeia de Mendwas, onde vivem cerca de cinco mil pessoas. “Temos eletricidade apenas 12 horas por dia, e mesmo à noite vai e vem”, escreveu exasperado. As queixas e os pedidos às autoridades caíram, até agora, em ouvidos surdos. Mas Anand está decidido a levar sua campanha até o final. O jovem está otimista. Seus esforços jornalísticos e os de sua irmã mais nova, Suman, obrigaram o Departamento de Saúde a admitir o lamentável estado das mulheres e das crianças de sua aldeia, onde não há nenhum centro medico.

Na aldeia próxima de Khandwai, de 2.500 moradores, Dilip Singh, de 12 anos, ganha o respeito dos mais velhos visitando as casas para conscientizar a população sobre o saneamento e as boas práticas sanitárias. Além disso, distribui iodo e vacinas contra a poliomielite para menores de 5 anos. Também escreve um boletim diário sobre os problemas da aldeia e o coloca no quadro de avisos do escritório do “panchayat” (governo local).

Estes jovens e entusiastas jornalistas participam de uma iniciativa lançada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em colaboração com o governo de Rajastao, para envolver os jovens no desenvolvimento de suas aldeias. O projeto “Gram Shakthi”, lançado em maio de 2007 nas 1.030 aldeias de Tonk, é supervisionado pela ONG nacional Nehru Yuva Kendra (NYK) e implementado por seis instituições locais da sociedade civil. Cinqüenta e quatro crianças realizam tarefas de conscientização para o desenvolvimento social, físico e econômico de suas comunidades.

A necessidade de participação juvenil era sentida porque na maioria das sociedades locais as crianças não são atendidas, nem mesmo nas questões a elas relacionadas, disse Mahesh Kumar Sharma, coordenador distrital de jovens do NYK. Os 54 jornalistas com idades entre 11 e 18 anos foram selecionados em27 escolas após um rigoroso exame que envolveu redação e discursos. Depois, passaram por um programa de capacitação. Para Suman, o projeto o levou a compreender seu papel como cidadã responsável. “As meninas não são incentivadas a sair de casa ou da aldeia, mas faço as duas coisas. Sou uma jornalista que representa sua comunidade”, afirmou com orgulho. E o projeto lhe deu poder e uma voz respeitável tanto entre seus pares como entre os mais velhos.

“O programa de capacitação me mostrou que os jovens têm responsabilidades no desenvolvimento e no bem-estar de nossa comunidade”, acrescentou Anand. É comum ver os dois irmãos, armados com suas credenciais e seus cadernos, na aldeia e redondezas. Ashok Paliwal, que administra um posto telefônico local está muito orgulhoso deles. “Recebemos mais noticias destas crianças do que do jornal local”, afirmou. Os jovens repórteres dão visibilidade a assuntos como o registro obrigatório de nascimentos e mortes, a importância de partos feitos em um contexto institucional, o uso de sal iodado, água potável, higiene e cuidado com as grávidas.

Frequentemente enviam seus artigos aos jornais locais. Muitos foram publicados, destacou Meenakshi Sharma, coordenadora de bloco da Escola Pública Sanstha de Rajastao, uma das ONGs locais que implementam o projeto. “Através do boletim diário de noticias da aldeia queremos promover a irmandade e a harmonia comunitária e erradicar a discriminação social”, explicou. O jovem Dilip leva muito a sério sua responsabilidade cívica. “A maioria das pessoas não conhece os programas governamentais de bem-estar existentes. Como podem, então, aproveitá-los? Eu vou regularmente às casas informando as famílias”, contou. Dilip encontrou um firme mentor no cacique de sua aldeia, Ladulal Bhairwath, de 40 anos. “Incentivo e inclusive peço às crianças jornalistas que averiguem quais são os males que afetam suas aldeias, para que possamos dar passos positivos e corrigi-los”, disse. (IPS/Envolverde)

Nitin Jugran

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