JOGOS OLÍMPICOS: Especialistas não acreditam em ameaça terrorista

Melbourne, Austrália, 17/06/2008 – Faltando menos de dois meses para os Jogos Olímpicos de Pequim, os especialistas não consideram que o terrorismo represente uma grande ameaça, apesar de informes das autoridades chinesas sobre “atividade militante”. No mês passado, o especialista em segurança australiano Neil Fergus disse que a principal ameaça é representada pelo Movimento Islâmico do Turquistão Oriental (Etim). Fergus foi diretor de inteligência em 2000 nos Jogos Olímpicos de Sidney. Também trabalhou como consultor nas Olimpíadas de Atenas em 2004 e, agora, nos de Pequim.

“Mais de cem membros do Etim foram treinados pela Al Qaeda no Afeganistão, antes da invasão de 2001 pelos Estados Unidos, por isso não há dúvidas sobre os laços, que são muito fortes”, afirmou. O Etim é uma organização muçulmana radical, uma das muitas do povo uigur que reclamam a independência da área que chamam de Turquistão oriental e que a China denomina Região Autônoma Uigur de Xianjiang, no extremo noroeste do país. China, Estados Unidos, Paquistão e União Européia o consideram terrorista.

Segundo o censo de 2000, os uigures (parte da grande família de povos turcos) constituem o grupo étnico majoritário em Xinjiang. Mas, a porcentagem de moradores pertencente à etnia han, a mais populosa da china, aumentou desde 1949, quando Pequim ocupou a anexou a região. A estimativa de Fergus, que por 21 anos pertenceu ao serviço de inteligência australiano e estabeleceu em 2001 uma consultoria para assuntos de segurança, é compartilhada pelas autoridades chinesas. O ministro da Segurança, Jianzhu Meng, disse em abril que “não há dúvida de que o terrorismo é a maior ameaça que os Jogos enfrentam. Temos que enfrentar o desafio dos grupos separatistas, extremistas e terroristas”.

O secretário-geral da Interpol, Ronald Noble, também disse que “devemos estar preparados para a possibilidade de a Al Qaeda ou algum outro grupo terrorista tentar um ataque mortal durante os Jogos”. Pequim continua se preparando para enfrentar essa ameaça. A Agência Internacional de Energia Atômica deu treinamento sobre o que fazer em caso de um ataque, e as forças antiterroristas chinesas intensificaram sua preparação. Mas, segundo Clive Williams, do Centro de Inteligência e Contraterrorismo da Universidade Macquarie, com sede em Sidney, a ameaça não é tão séria com se diz. “Creio que a China tem um ambiente operacional muito difícil e, em geral, os terrorista escolhem áreas que apresentam menos complicações”, disse à IPS.

Também considera altamente improvável um ataque da Al Qaeda. “Houve mudanças desde os dias em que se embarcava diretamente em operações e agora recorre mais a grupos locais que realizam atos coerentes com seus objetivos”, Afirmou Williams. Este especialista também não considera muito forte a ameaça que o Etim possa representar. Acredita que conta com uma baixa capacidade operacional, especialmente fora de Xinjiang, e que seus laços com a organização de Osama bin Laden não são tão estreitos como se afirma. O Etim tem apenas contato intermitente com outros grupos, como o Movimento Islâmico do Uzbequistão, “porque está sendo perseguido pela China”, disse.

Para Williams, superestimar o vínculo entre o Etim e a Al Qaeda funciona para os interesses de Pequim, já que a aproxima de uma maior corrente de simpatia internacional. A China caracterizou o Etim como grupo terrorista em 2003, enquanto a Organização das Nações Unidas o considera associado da Al Qaeda. Um analista que não quis revelar seu nome disse à IPS que embora no início dos anos 90 tenha havido em Xinjiang grupos e militantes com laços com outras organizações no Afeganistão, Quirguistão e Uzbequistão, já não possuem a mesma capacidade operacional.

“Com a formação em 1996 do grupo de segurança integrado por China, Rússia e Estados da Ásia Central, agora chamado Organização de Cooperação de Xangai, e a derrubada do poder da milícia islâmica Talibã no Afeganistão, estes lugares já não são viáveis para os militantes uigures. Creio que qualquer movimento armado organizado dessa origem acabou ali”, acrescentou. Porém, há vários informes elaborados por Pequim sobre atividades relacionadas com o Etim.

Em janeiro de 2007, informou-se que 18 pessoas morreram em um ataque policial contra um acampamento de treinamento desse grupo, e um ano mais tarde dois supostos integrantes perderam a vida e 15 foram presos em uma operação de segurança na capital de Xinjiang, Urumqi. Segundo as autoridades chinesas, o grupo havia planejado um ataque aos Jogos Olímpicos. A China também anunciou que em março desbaratou uma suposta tentativa de seqüestro de um avião comercial que fazia a rota Urumqi-Pequim. Mas observadores duvidam desses informes, especialmente os vinculados com o seqüestro do avião.

O analista ouvido pela IPS disse que é difícil obter notícias confiáveis procedentes de Xinjiang. “Jornalistas e acadêmicos que ali trabalham estão sob intensa vigilância e para os uigures é muito perigoso falar de política com estrangeiros”, afirmou. O governo chinês e os meios de imprensa controlados pelo Estado – prosseguiu – estão desejosos de demonstrar que o terrorismo uigur representa uma ameaça à nação, o que lhes dará uma justificativa para reprimir os dissidentes em Xinjiang e outras regiões, com o Tibet, disse. (IPS/Envolverde )

Correspondentes da IPS

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