ENERGÍA-UNIÃO EUROPÉIA: Freio nos biocombustíveis

Paris, 29/07/2008 – Os ministros de Energia e Meio Ambiente da União Européia revisaram para baixo sua meta de uso de biocombustíveis, devido às novas evidências que atribuem, em parte, à sua produção a carestia mundial de alimentos. A UE declarou no ano passado seu objetivo de elevar a 10% a cota de biocombustíveis utilizados no transporte até 2010, dentro do plano da Comissão Européia (braço executivo do bloco) de reduzir em 20% as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2020. A maioria dos cientistas especializados em clima e energia garagem que esses gases, como o dióxido de carbono e o metano, são a principal causa do aquecimento global.

O vice-ministro alemão de Tecnologia e Energia, Jochen Oman, disse após uma reunião de ministros da UE realizada no começo deste mês que o bloco havia “descoberto” que as diretrizes da Comissão falavam em “fontes renováveis”, não apenas de biocombustíveis. Trata-se dos destilados de milho, cana-de-açúcar, soja e outros cultivos, que até há pouco tempo eram considerados combustíveis livres de carbono que podiam ser usados nos veículos sem produzir emissões de gases que causam o efeito estufa. Depois de se reunir com seus colegas em St. Cloud, nos arredores de Paris, o ministro de Meio Ambiente e Energia da França, Jean-Louis Borloo, disse que os biocombustíveis “são apenas uma alternativa, entre outras”.

Numerosos documentos da UE estabelece o objetivo de aumentar a participação destes combustíveis no setor do transporte, entre eles o artigo 3 de uma diretriz da Comissão de 2003 pedindo aos países que a fixassem em 5,75%. Nesse mesmo ano, o governo francês – do qual Barloo foi vice-ministro para o Desenvolvimento Urbano e, em seguida, do Trabalho e Assuntos Sociais – aprovou um plano para aumentar a cota de agrocombustíveis para 7% em 2010.

Outra recomendação européia, aprovada pelo Conselho da UE em março de 2007, estabelece “um objetivo obrigatório mínimo de 10%, a ser alcançado até 2020 por todos os Estados-membros em sua cota de biocombustíveis no consumo total de gasolina diesel para transporte, a ser introduzida de modo lucrativo”. Agora, após a correção feita em St. Cloud, a União Européia pode mudar seus pontos de vista oficiais sobre os biocombustíveis, outrora considerados a solução ideal para alimentar a crescente demanda por energia sem prejudicar o clima.

Isto se deve ao fato de novas evidências cientificas indicarem que os agrocombustíveis não são tão verdes como se pensava, e destacarem sua responsabilidade na escassez e no encarecimento dos alimentos. O Banco Mundial calculou que a produção de biocombustível é responsável por 75% da inflação alimentar. Um informe confidencial dessa instituição que vazou para a imprensa indica que o aumento de preços da energia e dos fertilizantes representou apenas 15% do aumento. A cifra contradiz os técnicos do governos dos Estados Unidos, segundo os quais os agrocombustíveis contribuíram com menos de 3% do aumento dos alimentos.

A UE também deu atenção ao informe O Panorama Agrícola 2007-2016, elaborado em conjunto com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), integrada por 30 nações ricas, e pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). O estudo indica que a pressão sobre os preços dos alimentos “pode ser direta, através da crescente demanda e das mudanças nos padrões de consumo pelo aumento da renda, ou indireta”, nesse caso “por usos alternativos de cultivos alimentares como insumos para combustíveis. Tudo isso conduziu a preços internos mais altos”.

A União Européia admitiu, com base no informe da OCE e da FAO, que “o crescimento dos mercados de biocombustíveis se traduz no forte aumento da demanda por produtos alimentares”. O documento prevê que o uso de trigo para produzir agrocombustíveis aumentará em 12 vezes, e até atingir 18 milhões de toneladas até 2016. “O aumento do uso de sementes oleaginosas (particularmente as de colza) e do milho é menos dramático, mas ainda chegarão a 21 milhões de toneladas e 5,2 milhões de toneladas até 2016, respectivamente”, acrescenta o documento.

Outro estudo, feito pela Agência para o Fomento da Proteção Ambiental (EPEA), com sede na cidade alemã de Hamburgo, diz que os agrocombustíveis “criam muito mais problemas do que os que resolvem”. A EPEA atribuiu a eles um agravamento do desmatamento, das emissões de gases causadores do efeito estufa, “uma insegurança alimentar potencializada, a geração de mais pobreza, maior degradação do solo, menor biodiversidade e o esgotamento acelerado dos recursos naturais”. Segundo Borloo, “ao longo dos anos os agrocombustíveis foram a única verdade” ambiental, mas “essa idéia está mudando com velocidade máxima. O que considerávamos a solução há uns dois meses agora caiu em desgraça”. (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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