Genebra, 16/07/2008 – Os erros da globalização se corrige com mais globalização, é a mensagem do Informe sobre o Comércio Mundial 2008 divulgado pela Organização Mundial do Comércio em um momento crítico para o sistema multilateral que essa instituição administra. A OMC sugere que se insista na abertura dos mercados, equilibrada com políticas complementares, o que equivale à aceitação de algum papel para o Estado, junto com iniciativas internacionais que “permitam abordar mais eficazmente os riscos próprios da globalização”.
A conjunção do comércio e a globalização, ou seja, a interdependência econômica entre os paises, contribuiu para melhorar as vidas de muitos milhões de pessoas no mundo, afirmou Pascal Lamy, diretor-geral da OMC, na apresentação do informe, ontem. Mas, os benefícios distribuídos por essa união não chegaram a todos, reconheceu. “São os excluídos”, afirmou. Por esse motivo, a opção de uma integração maior da economia mundial nem sempre gozou de popularidade e, em conseqüência, o cepticismo sobre o comércio é cada vez maior em determinados setores, admite o Informe.
Esse quadro se insere em uma fase decisiva da Rodada de Doha, as negociações iniciadas em novembro de 2001na capital do Qatar para aprofundar a liberalização do comércio. Essas negociações, várias vezes à beira do rompimento por divergências de interesses principalmente entre países industrializados e em desenvolvimento, enfrentarão na próxima semana um debate crucial com participação de ministros de 35 a 40 nações, das 153 que integram a OMC. Lamy se valeu desses antecedentes para propor uma reunião terminante com relação à sorte da globalização.
Os acordos que os ministros alcançarem na próxima semana serão julgados como um indicador da vontade e capacidade da comunidade internacional para compartilhar as rédeas da globalização de uma maneira eficaz e eqüitativa, afirmou. “Não estou dizendo que qualquer acordo é melhor do que nenhum. O que sugiro é que, com o que temos na mesa de negociação, a incapacidade para chegar a uma convergência substancial e de beneficio mútuo seria traumática”, alertou. Por essa razão o Informe de 2008, dedicado a “comércio em um mundo em processo de globalização”, não poderia chegar em melhor ocasião, acrescentou Lamy.
O documento, apresentado pelo economista-chefe da OMC, Patrick Low, examina os benefícios derivados do comércio internacional e os desafios que existem com um maior grau de integração. As pesquisas internacionais indicam que a maioria da população reconhece os benefícios que provêm da globalização, mas, sem impedir que haja preocupações sobre os desafios que acompanham esse fenômeno, diz o Informe. Embora uma grande maioria considere que o comércio internacional beneficia seus países, também temem as perturbações e desvantagens da participação na economia mundial.
O estudo recomenda a adoção de políticas nacionais para contrapor às limitações que reduzem os benefícios potenciais do comércio, com o investimento público em infra-estrutura física, bem como as reduções de custos mediante uma reforma do comércio e da regulamentação. No plano da cooperação internacional, o documento menciona as negociações sobre facilitação do comércio que reduzem custos de traslado e passagem fronteiriça dos bens. Da mesma forma se refere à iniciativa de Ajuda para o Comércio, que tende a favorecer os países em desenvolvimento com a criação da capacidade de oferta e a redução de outras limitações ao intercâmbio.
Para Lamy, o comércio pode dar uma pequena parte das soluções necessárias para enfrentar a atual situação econômica internacional “que não tem precedentes”, disse. “Não é que os fatores concorrentes careçam de precedentes, o que não se registrara antes é a simultaneidade desses fatores”, explicou. Mais importantes ainda são os efeitos sociais e políticos do que está ocorrendo. “Desta vez são maiores do que em crises anteriores porque basicamente atingem primeiro os mais pobres”, disse. Com relação ao que o comércio poderia dar para solucionar a crise, o diretor da OMC mencionou o caso do encarecimento dos alimentos, originado em um desequilíbrio entre oferta e demanda, cuja solução óbvia é aumentar a oferta, disse.
O lugar onde há uma capacidade de aumento da oferta a um custo ambiental baixo é, na maioria dos casos, nos paises em desenvolvimento. Mas é óbvio também que ninguém vai investir no setor da oferta agrícola se precisa combater os recursos financeiros que permitem aos Estados Unidos, à Europa e ao Japão, entre outros, conceder subvenções aos seus fazendeiros. O diretor da OMC se mostrou otimista sobre as chances de fechar um acordo nas negociações da próxima semana em Genebra. “Agora as possibilidades são maiores do que há algumas semanas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

