EUA-NICARÁGUA: IV Frota inicia missão humanitária

Bilwi, Nicarágua, 20/08/2008 – A IV Frota dos Estados Unidos começou suas operações em águas latino-americanas com uma missão humanitária inaugurada na Nicarágua, a cargo de um grande navio de guerra que percorrerá seis países do Caribe, América Central e do Sul. O navio anfíbio USS Kearsarge da IV Frota do Comando Sul dos Estados Unidos ancorou no último dia 11 na Costa Mosquitia da Nicarágua, no mar do Caribe, com 1.600 pessoas a bordo, entre militares e pessoal norte-americano de saúde pública e voluntários de vários países, que permanecerão até o próximo dia 25.

Segundo o comodoro Frank Ponds, chefe da missão humanitária Promessa Contínua, o propósito são trabalhos médicos e de reconstrução de edifícios e infra-estruturas afetados em setembro de 2007 pelo furacão Félix. O navio está equipado para lançar três tipos de mísseis e realizar operações de assalto, transporte de forças especiais, evacuação de tropas e civis. Possui um moderno hospital flutuante. Transporta vários tipos de helicópteros e aviões de combate, veículos pesados, anfíbios e caminhões.

Lançado ao mar em 1992, realizou missões em operações bélicas em Serra Leoa, República Democrática do Congo, Bósnia-Herzegovina e Kosovo. Também participou de operações humanitárias na Turquia e na guerra norte-americana contra o Iraque. No mesmo dia em que ancorou em Bilwi, cabeceira departamental de Puerto Cabezas, na Região Autônoma do Atlântico Norte (RAAN), o presidente sandinista, Daniel Ortega, criticou sua presença.

O navio “pertence à IV Frota. Esses médicos, essas enfermeiras, esses paramédicos, esses especialistas que vêm nesse barco não vêm com a intenção de fazer um trabalho de inteligência”, disse o presidente em um recinto da marinha nicaragüense. “Eles vêm com a intenção de prestar um serviço humanitário, mas para isso há divisão de trabalho, e um navio como esse tem todas as condições para que atuem os especialistas que fazem trabalho de inteligência, enquanto os demais realizam a tarefa humanitária”, afirmou. “Damos as boas-vindas ao trabalho humanitário, claro que não podemos dar as boas-vindas ao trabalho de inteligência”, acrescentou.

A tripulação completa do USS Kearsarge é composta por dois mil fuzileiros, 1.100 marinheiros e 77 oficiais, segundo informa em seu site na Internet. Além dos militares, estão a bordo membros do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e de organizações não-governamentais como Projeto Esperança e Operação Sorriso, bem como voluntários civis de Brasil, França, Espanha, Holanda, Estados Unidos e Canadá. Em uma entrevista coletiva dada por Ponds, jornalistas estrangeiros questionaram o uso de um barco de guerra para realizar ações humanitárias em países como a Nicarágua, que nos anos 90 sofreu uma guerra civil promovida e financiada por Washington.

A resposta de Ponds foi: “eu não me meto nisso. Estou falando sobre cuidados médico, dental, de infra-estrutura, escolas e edifícios que serão reconstruídos e restaurados. É disso que estou falando”. Este tipo de operação em grande escala está apagando a tênue linha entre missões militares e humanitárias civis. Há organizações que se recusam a trabalhar com os militares, apesar de seu alto grau de organização e capacidade por essa razão, questionaram jornalistas norte-americanos ao comandante da frota.

“Como vocês se mantêm nesse fio entre missões militares e missões humanitárias? Como pensam entrar na Nicarágua neste grande navio cinza e quadrado e não assustar as pessoas?”, perguntaram os jornalistas. “Para as vítimas do tsunami (de 2004 no oceano Índico) não importava se éramos um grande barco cinza ou azul. O que lhes interessava era que levávamos ajuda humanitária em uma área de desastre, uma área que tinha sido despedaçada”, respondeu Ponds.

Segundo o escritório de imprensa da embaixada dos Estados Unidos em Manágua, a missão Promessa Contínua 2008 acontecerá durante quatro meses, passando por Nicarágua, Panamá, Colômbia, Trinidade e Tobago, Guiana e República Dominicana. Até agora, o pessoal realizou 2.500 consultas medicas gerais e quase cem intervenções cirúrgicas em membros das comunidades indígenas nicaragüenses de Betania, Tuapi, Yulu e Bilwi, que foram muito afetados pelo desastre causado pelo Félix. Os trabalhos de reconstrução incluem pontes e prédios públicos, instalação de redes de água e drenagem, bombas para poços, doação de equipamento médicos e esportivos aos jovens.

“O que vejo é uma grande missão de humanismo, não vejo ninguém remexendo em nada, mas ajudando os mais necessitados”, disse à IPS a prefeita de Puerto Cabezas, Elizabeth Enríquez, que recebeu oficialmente a delegação do USS Kearsarge. O governador da RAAN, Reynaldo Francis, disse que o navio chegou graças à gestão local em busca de ajuda internacional. “Através de nossa gestão hoje temos a grata presença deste equipamento de ajuda humanitária, e esperamos que continuem vindo. Que venham mais” afirmou.

No sábado passado, Ortega mudou em parte sua opinião sobre a presença do navio. “Há um barco de guerra em Bilwi, mas com ajuda médica, os navios dos Estados Unidos estão vindo ajudar as pessoas que devemos agradecer com sinceridade”, afirmou o presidente. Uma fonte da embaixada dos Estados Unidos disse à IPS que foi feito ao mandatário um convite para visitar o barco, mas ainda não foi dada resposta. A IPS não conseguiu declarações de fontes governamentais sobre esse ponto.

“O convidamos a outros eventos semelhantes e não chegou, mas enviamos a integrantes de seu governo”, disse à fonte diplomática, em referencia ao navio-hospital USS Comfrot, que no ano passado esteve na mesma região para atender mais de cinco mil pessoas após a passagem do furacão Félix. O líder indígena Osorno Coleman, candidato a prefeito pelo opositor e direitista Partido Liberal Constitucionalista, disse que “não ensinaram a Ortega o que fazer quando o inimigo lhe estende a mão. Ele disse muitas coisas ruins sobre os Estados Unidos e desqualifica esse país, mas desta vez não soube o que fazer quando seu inimigo lhe estendeu a mão, e agora aparece agradecido e dando as boas-vindas”, afirmou.

A IV Frota foi criada pelos Estados Unidos em 1943 em plena Segunda Guerra Mundial (!939-1945) para controlar o avanço de Alemanha e Japão sobre o Atlântico, mas em 1950 foi desativada. Por isso surpreendeu a determinação de reativá-la no final de abril sob a órbita do Comando Sul, com sede na Florida. A esquadra é formada por 11 navios de guerra. Segunto Thomas Shannon, subsecretário de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental, se decidiu pela reativação para dar resposta a desastres naturais, realizar operações humanitárias, de assistência medica, e também para combater o narcotráfico e cooperar em questões ambientais e tecnológicas. Esta formação “não tem capacidade ofensiva, nem porta-aviões, nem barcos de guerra. Sua maior embarcação é um hospital”, afirmou Shannon em declarações feitas em julho, quando visitou a Argentina.

Países como Brasil, Venezuela e Argentina expressaram descontentamento por esta decisão e advertiram que os navios da UV Frota não poderão entrar em suas águas territoriais. (IPS/Envolverde)

José Adán Silva

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