MULHERES-PALESTINA: E no último dia haverá escombros

Beitt Hanun, Palestina, 10/03/2009 – O Dia Internacional da Mulher, comemorado ontem, não tem nenhum sentido para as moradoras de Gaza, onde muitas, como Manwa Tarrabin e suas duas filhas, perderam a casa e o direito de possuí-la. As três viviam em um pequeno bangalô do bairro de Al-Amal, na cidade de Beitt Hanun, a 200 metros da fronteira, declarada “zona militar fechada” pelas autoridades de Israel após o fim do último ataque contra a faixa de Gaza, no dia 17 de janeiro. Sua casa ficava no alto de uma pequena colina, rodeada por oliveiras e árvores frutíferas.

Ao se retirarem, os soldados deixaram uma montanha de escombros. O exército demoliu 80 casas. O sujo caminho que leva ao que era o bangalô das Tarrabin atravessa áreas plantadas, destruídas por tanques e tratores, e escombros das casas demolidas no mesmo dia em que Israel declarou um cessar-fogo unilateral. As Tarrabin eram agricultoras e pastoras. Viviam de suas ovelhas e cabras e do que pudessem plantar no terreno em volta da casa. Elas não se foram quando começou o bombardeio, no dia 27 de dezembro. Manwa e sua filha Sharifa, de 22 anos, viram quando chegaram os tanques e as máquinas escavadoras.

“Fiquei tão apavorada que quase meu coração parou”, recordou Manwa. “Era por volta das 14h30 do dia 17 de janeiro e estávamos dentro de casa. Eram quatro tanques e dois tratores, um deles enorme. Os soldados israelenses nos ordenaram através de um megafone que fôssemos embora. “Nos disseram que a casa estava em uma zona militar fechada”, contou Manwa. “Disseram que era uma decisão superior e que tínhamos de partir imediatamente e caminhar até Gaza. Me neguei e procurei negociar com eles para poder tirar nossos pertences, mas não concordaram”. Os soldados as obrigaram a partir com a roupa do corpo. Nem mesmo puderam pegar documentos de identidade nem artigos de uso pessoal.

“Começamos a caminhar e quando já estávamos bem longe me voltei para ver os soldados”, disse Manwa. Por volta das 17h, menos de 12 horas antes do cessar-fogo, soldados israelenses demoliram a casa das Tarrabin. O fato ocorreu em uma área já controlada pelo exército de Israel desde os primeiros dias de janeiro, quando seus tanques cruzaram a fronteira. A população não pode se aproximar da Linha Verde, que marca o limite internacionalmente reconhecido entre este território palestino e o Estado judeu, porque as autoridades israelenses criaram uma “zona de contenção” em 2000, de forma unilateral. A área aumentou de 150 para 300, mas os soldados ocupantes disparam contra pessoas que avistam a 600 metros.

Os tanques e escavadeiras israelenses destruíram milhares de dunams (um dunam equivale a mil metros quadrados) de plantações afastadas da área de contenção e até hortas e avícolas que ficam a 2,5 quilômetros da fronteira. Os israelenses voltaram a ampliar, unilateralmente, a área de contenção e a levaram a um quilômetro da Linha Verde no dia 17 de janeiro. Cerca de 400 pessoas ficaram sem teto e sem terra pela destruição de casas em Beit Hanun, agora dentro da área proibida. As Tarrabin já haviam perdido plantações e terras de pastagem quando foi criada a zona de contenção, e como todos seus moradores, tiveram de correr o risco de regressar.

Doze dias depois daquela fatídica jornada, Manwa e suas filhas regressaram pela primeira vez ao lugar onde moravam, agora mais perigoso, acompanhadas de observadores internacionais de direitos humanos e uma equipe de filmagem. Dos dois lados do caminho que levam ao seu terreno há escombros e ruínas. “Ali vivia a família Khadera”, disse Manwa apontando para o que restou da construção. “A mãe morreu no bombardeio”. “Havia cabras e ovelhas na parte térrea desta casa”, disse, apontando para escombros nos quais seu antigo proprietário tentava por fogo para fazer um chá. “Os soldados arrasaram tudo”, afirmou.

Um pouco mais distante estavam os escombros da casa da família Wahadan. “Destruíram a casa, o poço e a bomba”, contou o voluntário Saber Al-Zaneen. Perto de onde viviam as Tarrabin, a casa da família Abu Jeremi ficou em pé. Freije Abu Jermi também voltou pela primeira vez desde que foi expulso pelos soldados israelenses no dia 27 de dezembro, e contou que coelhos, frangos e ovelhas que estavam no galpão morreram quanto foi derrubado. Al-Zaneen disse que Beitt Hanun é UA das áreas mais férteis deste território palestino. “Esta terra arrasada já teve 750 quilômetros quadrados de oliveiras, limoeiros e palmeiras”, contou, olhando a paisagem desolada. “Gente de toda Gaza trabalhou aqui”.

Manwa teve de se convencer de que não poderia recuperar nem uma peça de roupa, nem seu documento de identidade, nem algum dinheiro. Tudo ficou enterrado sob um bloco de concreto impossível de ser removido. Seria necessária uma escavadora, mas isso é impossível porque o Estado judeu não deixar entrar nenhuma que não seja de Israel. Entre os crimes de guerra apontados contra esse país está a destruição intencional de propriedades civis, proibida pelo direito humanitário internacional, incluída a Quarta Convenção de Genebra, que garante uma mínima proteção para a população civil em conflitos armados ou sob ocupação.

O mesmo ocorreu em outras partes do norte deste território palestino, como em Abed Rabbo, a leste de Jabaliya, e em Attatra, ao lado da cidade de Gaza.a organização Save the Children estima que cem mil pessoas, das quais 56% sendo crianças, não tem casa. Quando voltaram e tentaram recuperar alguns de seus pertences, Manwa e Sharifa tiveram de fugir rapidamente porque os soldados israelenses começaram a disparar contra o grupo que estava escavando. “Estive perto”, contou Al-Zaneen. “As balas passaram zumbindo”. As Tarrabin foram viver na casa de um parente na cidade de Khan Yunis, no outro extremo de Gaza. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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