GRIPE: Entre a saúde e o negócio

Genebra, 21/05/2009 – Um enorme mecanismo de prevenção sanitária mundial, que pode imunizar milhares de milhões de pessoas contra a gripe suína e também encher os cofres de um punhado de multinacionais farmacêuticas, foi posto em movimento ontem de forma paralela à Assembléia Mundial da Saúde. O grupo estratégico de especialistas assessores da Organização Mundial da Saúde sobre a vacina contra a gripe suína, conhecido pela sigla Sage, estimou que no caso de a epidemia se estender pelo mundo serão necessários 4,9 bilhões de doses de uma eventual vacina.

Uma idéia aproximada dos valores em jogo surge da comparação com os preços da vacina comum contra a gripe estacionária que nos Estados Unidos, por exemplo, oscilam em torno dos US$ 10 a dose. Nessa iniciativa, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e a diretora-geral da OMS, Margareth Chan, patrocinaram um acordo com executivos de 30 indústrias farmacêuticas para a produção de uma vacina contra a gripe A/H1N1, nome institucional da gripe suína.

Entretanto, o número de laboratórios em condições de fabricar uma vacina se reduz a três ou quatro, pois o setor é um dos mais concentrados do mundo, mais ainda do que o petroleiro, disse a jornalistas o presidente da Fundação Butantã, Isaías Raw, que participou do encontro entre Ban e Chan com executivos do setor farmacêutico. A Fundação Butantã é uma entidade privada que colabora com o Instituto Butantã, centro de pesquisa biomédica vinculado à Secretária da Saúde do Estado de São Paulo. Além do Brasil, os países em desenvolvimento estiveram representados na reunião por China, Egito, Índia, Indonésia, Irã, México e Vietnã.

Porém, a capacidade de produção dos laboratórios dos países do Sul é muito reduzida, disse Raw. Apesar desses limites, as indústrias farmacêuticas das nações do Sul anunciaram que 10% de sua produção da nova vacina serão distribuídos entre as agências da ONU a preços suficientes para cobrir o custo. Raw disse ser favorável à eliminação do regime de patentes para vacinas e remédios antivirais destinados no caso da gripe suína, e reivindicou o direito de todos os países receberem mostras das cepas da nova variante da gripe para realizar pesquisas. O cientista brasileiro também propôs a criação de um fundo global para sustentar o desenvolvimento de centros de pesquisa nos países em desenvolvimento.

A diretora da OMS concordou que “não é nada fácil colocar em acordo 30 empresas farmacêuticas”, originarias também da Áustria, Bélgica, Coréia do Sul, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Holanda, Japão, Romênia, Rússia e Suíça. Chan disse que laboratórios do Norte e do sul se comprometeram a trabalhar com a OMS. Também relatou que exortou os executivos das empresas farmacêuticas a, em união com a comunidade internacional, garantirem que as nações em desenvolvimento e os países mais pobres não sejam excluídos por sua falta de recursos.

A capacidade de produção da vacina contra a gripe cresceu de maneira impressionante nos últimos anos graças aos esforços da indústria, mas, também pelos investimentos governamentais, afirmou Chan, que se declarou otimista quanto à capacidade máxima do setor farmacêutico, embora aceitando que tudo dependerá do número de doses de vacinas necessárias.pode ser preciso uma dose, ou duas, como no caso da gripo H5N1, u aviaria, lembrou. A gripe do frango, que em seu último foco surgiu em 1997 na Ásia e, a partir de 2003, aumentou sua gravidade, com a morte de 50 a 60 pessoas em cada cem infectadas, disse a diretora da OMS.

A 62ª Assembléia Mundial da Saúde começou segunda-feira e terminará na próxima sexta-feira nesta cidade suíça, sede da OMS. No momento, a organização mantém o critério de dar prioridade à fabricação da vacina contra a gripe estacionária, que tem forte demanda neste período por parte dos países do hemisfério sul, na maior parte nações em desenvolvimento. Especialistas próximos à OMS expressaram dúvidas sobre o acerto de uma iniciativa apressada em criar milhares de milhões de doses de vacinas para um tipo de gripe que até agora se apresenta de maneira bastante benigna, como reconhecem os próprios relatórios oficiais da instituição.

“A gripe comum estacionária é muito mais agressiva, forte e mortal do que a que suína que estamos vivendo”, disse uma fonte científica à IPS. Mas, as autoridades dos países industrializados e a própria OMS somente recomenda administrar a vacina no inverno em pessoas com riscos respiratórios ou cardíacos e maiores de 60 anos. “Com esta nova gripe, que até agora se apresenta mais benigna, vamos fabricar uma vacina para aplicar em toda a população de um país?”, perguntou a fonte. Para as três ou quatro grandes indústrias farmacêuticas transnacionais “este é o negócio do século”, acrescentou. IPS/Envolverde

Gustavo Capdevila

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