Havana, 10/06/2009 – O governo cubano ratificou ontem que se absterá de retornar à Organização dos Estados Americanos e que continuará impulsionando uma integração latino-americana e caribenha sem os Estados Unidos, a quem acusa de manter um “controle opressivo” sobre esse fórum. Em uma declaração oficial, o governo de Raúl Castro considera que as ânsias de concertação da América Latina e do Caribe são cada vez mais claras. “Cuba participa ativamente e se propôs a continuar fazendo-o, nos mecanismos regionais representativos da região, incluindo todo o Caribe insular”, afirma.
“Fortalecer, expandir e harmonizar esses organismos e agrupações é o caminho escolhido por Cuba; não pela peregrina ilusão de regressar a uma organização que não admite reforma e que já foi condenada pela história acrescenta o comunicado, que no final traz um agradecimento aos governos que defenderam “o direito de Cuba” regressar à OEA. Para analistas ouvidos pela IPS, esse será, sem dúvidas, o eixo “do futuro” da diplomacia cubana, que “não passa” pelo retorno à essa organização, mas pela promoção de uma organização da área sem a presença dos Estados Unidos e com fortalecimento dos mecanismos de integração regional já existentes.
O governo cubano reagiu vários dias depois da reunião em Honduras na qual foi aprovada por consenso a revogação da resolução de 1962 que suspendeu a participação de Cuba na OEA, porque sua identificação com o marxismo-leninismo era “incompatível com os princípios e propósitos do sistema interamericano”. Mas, era previsível e foi praticamente “pré-anunciada” pelo ex-presidente Fidel Castro sem uas colunas de opinião publicadas pela imprensa estatal sob o título “Reflexões do companheiro Fidel”, nas quais insistiu em acusar a OEA de cumplicidade “em todos os crimes cometidos contra Cuba”.
“Não sei quantas vezes dissemos o mesmo: o que ocorreu ontem (dia 3) não modifica em nada o que Cuba pensava ontem, anteontem e hoje”, afirmou, por sua vez, 0 o presidente do parlamento cubano, Ricardo Alarcón, no dia seguinte à decisão dos chanceleres. Segundo a nota oficial, a decisão de deixar sem efeito a resolução VI da Oitava Reunião de Consulta de Ministros das Relações Exteriores da OEA constitui um desacato inquestionável à política seguida pelos Estados Unidos contra Cuba desde 1959.
Na reunião de Honduras os países membros da OEA adotaram por consenso um texto onde se esclarece que a “participação de Cuba na OEA será o resultado de um processo de diálogo iniciado a pedido do governo de Cuba e de conformidade com as práticas, os propósitos e princípios da OEA”. Cuba “recebe com satisfação esta expressão de soberania e civismo, e agrade aos governos que, com espírito de solidariedade, independência e justiça, defenderam o direito de Cuba regressar à organização. Cuba, porém, ratifica novamente que não voltará à OEA”, afirma a declaração.
A esse respeito, analistas políticos disseram à IPS que essa posição já era conhecida e não pode ser interpretada como algo desairoso em relação aos demais governos da região que coincidiram sobre o anacrônico daquela clausula no atual contexto internacional. “A política externa cubana para a região não passa pelo retorno à OEA, mas em continuar trabalhando em função de uma organização sem a presença dos Estados Unidos”, reiterou o pesquisador e acadêmico cubano Luis Suárez, especialista em assuntos de integração. O embrião desse empenho parece partir da cúpula da América Latina e do Caribe sobre Integração e Desenvolvimento, de 2008, no Brasil, em cujo contexto se fez oficial, também, a entrada de Cuba no Grupo do Rio, o principal fórum político da região.
Segundo está previsto, nova cúpula acontecerá provavelmente no próximo ano no México, mas já teriam começado as negociações diplomáticas para a formação de uma união latino-americana e caribenha. Segundo Suárez, essa é a “mãe de todas as batalhas” próximas pela integração. Em sua opinião, enquanto se concretiza esse objetivo a região deve continuar fortalecendo todos os órgãos já existentes de concertação, cooperação e integração econômica, com a Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), União de Nações Sul-ameicanas (Unasul) e Comunidade do Caribe (Caricom).
A posição coletiva desses mecanismos de integração será muito importante, talvez decisiva, no processo de formação da nova organização (ou União) de estados latino-americanos e caribenhos, disse Suárez. Cuba pertence à Alba desde sua fundação, junto com Bolívia, Dominicana, Honduras, Nicarágua e Venezuela, e mantém uma estreita e dinâmica relação política e de cooperação com a Caricom. No final do ano passado, Raúl Castro foi,inclusive, anfitrião de uma cúpula com os membros da Caricom, antes da reunião do Brasil, onde foi acordado trabalhar “ativamente” a favor dos atuais esforços de integração e concertação da América Latina e do Caribe. IPS/Envolverde

