Madurai, Índia, 10/08/2009 – Nos Estados indianos de Tamilnadu e Uttar Pradesh os aldeões revivem antigos sistemas de armazenamento de água subterrânea e superficial que os ajudam a mitigar a mudança climática. As iniciativas dessas comunidades rurais, ajudadas por organizações não-governamentais, são apoiadas pela recém-criada filial indiana da Oxfam, que agora promove estas práticas como modelos de adaptação para o restante da Índia. “Há vários exemplos sobre como os setores pobres do meio rural podem adaptar-se à mudança climática”, disse Aditi Kapoor, especialista em justiça econômica dessa organização. “Estes são modelos que o governo pode repetir”, acrescentou.
Segundo o último informe do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), os monções da Índia sofrerao modificações significativas, aumentando sua intensidade e diminuindo a duração. Prevê-se que essa mudança prejudicará os agricultores, 60% deles minifundiários. Tamilnadu é o mais propenso às secas. Ali os rios fluem somente durante as breves chuvas de inverno, com a bacia do Gundar abastecendo de água Madurai e seus quatro distritos vizinhos. Mas, atualmente a mudança climática transformou as chuvas indianas em imprevisíveis e intensas, quando caem, causando inundações e desastres.
Agora revive-se um antigo sistema de irrigação que data do ano 300 antes de Cristo ao 200 dC, que canalizou estas chuvas estacionais por meio de diques e canais e que levam a tanques artesanais. Historicamente, a água foi armazenada em diferentes sistemas cavados na terra para ser usada na agricultura, para beber e com fins domésticos. O solo de Tamilnadu, que tem base de granito, proporciona uma plataforma ideal para o armazenamento, à prova de vazamentos. A Fundação Dhan, que opera em 12 Estados indianos, trabalha com as comunidades locais e o governo para reparar e reutilizar estes antigos sistemas de armazenamento que funcionaram durante milênios para minimizar as secas e conservar a água.
“É muito significativo que os agricultores de Gundar já sejam entendidos em matéria de adaptação à mudança climática, porque os sistemas de mitigação de inundações e moderadores de secas estão com eles desde tempos ancestrais”, disse MP Vasimalai, da Fundação Dhan. Esta entidade organizou as aldeias com tanques para que formem uma associação de irrigação ou “Vayalagam” com membros que paguem. Quem usar o beneficio da reparação de um tanque tem de pagar um imposto de acordo com o tamanho de suas terras. O dinheiro é usado para pagar em parte a reparação de tanques e canais. O restante dos fundos necessários é fornecido por programas do governo ou doadores. “Esse é nosso êxito: eles pagam”, disse S. Sethuraman, presidente da Vayalagam do antigo tanque de Villur, no distrito de Madurai.
O Vyalagam também conta com poupança e um sistema de empréstimos. Possui um fundo de alívio de secas de pelos menos 20 mil rúpias (mais de US$ 400) para manutenção do tanque ou para empréstimo aos que querem conservar o solo e a água. Os reparos e a posterior coleta hídrica são suficientemente efetivas para estender a superfície do tanque de 10 para 40 hectares, e o rendimento do arrozal de Sethuraman aumentou 750 quilos por temporada.
Na aldeia de Parepatti, a Fundação Dhan ajuda as mulheres pobres dos setores sociais mais baixos da Índia a limpar e reconstruir o antigo tanque de Kanmoi. Ali, Manjamma, de 54 anos, organizou as mulheres em várias associações de irrigação e juntou fundos para reparo de tanques. “Os homens não se apresentaram”, disse. Mas, com os tanques funcionando, “os benefícios ficaram claros para que todos visse”, afirmou Manjamma. “O gado obteve água, as mulheres plantaram verduras junto com arroz, cuja produção duplicou, e houve água suficiente para colher um segundo cultivo de milho miúdo”, acrescentou.
Até agora, 400 dos 200 tanques do distrito de Madurai foram reparados e estão novamente em uso, mas A. Gurunathan, da Fundação Dhan, disse que são necessários entre sete e 12 anos para tornar toda a bacia sustentável. “De outro modo não funcionará”, ressaltou. O principal funcionário administrativo de Madurai, Udaya Chandran, está familiarizado com os esforços de restauração de tanques das aldeias. Disse que uma agência competente como a Fundação Dhan pode ajudar a criar um espírito comunitário que pode ser aproveitado por programas do governo. “Esta é uma área onde todos os participantes começam a trabalhar conjuntamente”, disse Chandran.
Milhares de quilômetros ao norte de Madurai, na agreste paisagem de Bundelkhand, em Uttar Pradesh, aldeias que estão em um raio de 80 quilômetros tiveram êxito com suas terras secas e degradadas. Construíram canais e pequenas represas para ajudar a reter água da chuva e, assim, reabastecer a água subterrânea. Nas aldeias de Sunderpura e Tajpura, agora os agricultores podem aproveitar a água subterrânea por meio de tubulações que a extrai de poços, sem importar o estado do tempo. Em Sunderpura, onde os produtores utilizam compost (adubo orgânico) elaborado com esterco dos próprios estabelecimentos rurais, bem como pesticidas, quase 10 hectares de terra estão sendo irrigados pela primeira vez. “A vantagem é que agora os paramos se converteram em terras agrícolas construtivas com um sistema de segurança contra a mudança climática que também freou a migração para as cidades”, disse Anil Singh, da Parmarth, a organizações não-governamental que iniciou o trabalho com apoio da Oxfam.
Na aldeia de Tajpura, Ajan Singh, de 42 anos, cultiva verduras com um sistema natural e de baixo custo que ganhou reputação por sua qualidade. Tudo o que produz vende localmente a preços mais altos do que os do mercado. Singh ganha no mínimo 40 mil rúpias anuais (US$ 1 mil) mediante um sistema que o coloca em boa posição para enfrentar a redução das chuvas e o aumento das temperaturas na região. “Assim, não é que estas pessoas nada saibam sobre os impactos ecológicos da mudança climática. É inato nelas devido à sua paisagem” seca, afirmou Radhey Krishna.
O método agrícola usado pelos aldeões, com compost, cultivos mistos e sementes do lugar é tão antigo quanto os tanques comunitários de Tamilnadu, mas as políticas governamentais que incentivam as monoculturas e o uso de produtos químicos e sementes hibridas frearam esta prática ancestral.
(IPS/Envolverde)

