BLANTYRE, 13/10/2009 – Num país onde as colheitas de milho excedentárias enchem os armazéns nacionais até ao limite, Ida e Montfort Salijeni, agricultores, e os seus quatro filhos começaram a a comer tubérculos selvagens. A pouca sorte da família Salijeno assenta no facto de ter plantado uma cultura – o algodão – que não conseguiu vender.
Não são a única família de agricultores com dificuldades para sobreviver, visto que em todo o país existem outros agricultores de algodão em situação idêntica. É uma situação que muitos atribuem ao governo, que tem estado em desacordo permanente com os compradores sobre os preços mínimos.
Uma vez que os compradores acham que os preços prescritos pelo governo são demasiado elevados, muitos decidiram simplesmente não comprar algodão este ano. Esta decisão significa que a família Salijeno tem de alimentar-se à base de tubérculos selvagens. “Não tenho outra alternativa senão procurar estes (tubérculos). Tenho de alimentar os meus filhos. Se pudesse vender o meu algodão, teria dinheiro para comprar milho,” disse Montfort, descascando um tubérculo com forma de batata que encontrou no mato perto de sua casa em Chingale, Zomba, no sul do Malawi.
Chingale está localizada numa área que muitas vezes tem chuvas insuficientes. Embora o Malawi tenha produzido colheitas de milho excedentárias, em resultado do subsídio destinado a insumos agrícolas introduzido pela administração do Presidente Bingu wa Mutharika, em 2005, Chingale não tem colhido muito milho devido à seca.
Mas a área é uma das principais regiões produtoras de algodão no Malawi. De acordo com a população local, a elevada produção de algodão e boas vendas neutralizaram os efeitos da baixa produção de milho. O algodão tem trazido dinheiro muito necessário, permitindo às famílias comprar milho de outras zonas.
Mas, este ano, a maior parte dos agricultores diz que não vendeu um único quilo de algodão, na sequência do desacordo entre governo e compradores sobre os preços.
O governo do Malawi fixou o preço mínimo do algodão em 54 cêntimos por quilo, mas os compradores só ofereceram 30 cêntimos, afirmando que a crise financeira mundial reduzira a procura e, consequentemente, os preços. O governo recusou ceder. Sustenta que os agricultores de algodão são explorados há muito tempo e merecem ter bons retornos pelo seu trabalho.
O desacordo sobre os preços levou os grandes compradores, como a Cargill, que encerrou alguns dos seus escritórios no Malawi, a retirarem-se das principais áreas produtoras de algodão.
Desde que o período de vendas começou em Abril, os compradores de algodão não têm visitado Chingale, e as famílias locais estão agora desesperadas, visto que agora se aproxima a fome. No passado, a maior parte dos agricultores no Malawi vendia o seu algodão até Julho. Com a aproximação das chuvas, os agricultores de Chingale receiam que todas as suas culturas fiquem estragadas.
“Estamos num beco sem saída, porque nem sequer temos os recursos para transportar o nosso algodão até aos compradores. Se as primeiras chuvas chegarem no próximo mês, toda esta cultura de algodão vai aprodrecer aqui, e os nossos esforços serão em vão. Se a situação se mantiver, não vai demorar muito para que comecemos a falar de mortes causadas pela fome,” afirmou Davison Mbayisa, um dos 42 membros de um clube de agricultores de algodão, e pai de sete filhos.
O clube, que beneficiou do subsídio destinado a insumos agrícolas na última estação, colheu oito toneladas, mas ainda precisa de as vender. Um outro clube numa aldeia vizinha colheu sete toneladas e, tal como acontece com o clube em Chingale, ainda não vendeu a sua produção.
“À medida que se aproxima a estação chuvosa, o nosso desespero aumenta, porque a época das chuvas é difícil. Exige muito, incluindo alimentos e insumos agrícolas,” disse o chefe de uma aldeia na zona, que é membro de um clube com 64 agricultores.
Oa agricultores desejam agora que o governo tivesse aceitado o preço mais baixo oferecido pelos compradores.
“Sabemos que o governo queria proteger-nos e permitir que tivéssemos lucro com o nosso algodão, mas agora não temos alternativa. Gostaríamos que aqueles que podem comprar o nosso algodão a preço mais baixo venham comprar o nosso produto, porque senão vamos morrer de fome,” disse Ida Salijeni.
A fome chega a Chingale de forma mais dura durante a estação chuvosa, porque o acesso à zona é difícil, mesmo com camiões; as actividades que rendem dinheiro diminuem devido à má condição da estrada que liga a área às principais cidades de Blantyre e Zomba.
Grant Nyongolo (28 anos) anda de bicicleta durante quatro horas, duas vezes por semana, para chegar a Bantyre, onde compra milho, que depois vende na sua terra de origem. Mas, depois das chuvas começarem, este negócio pára; os rios a transbordar de água e o difícil terreno impedem Nyongolo de continuar a utilizar este caminho.
Nyongolo vive numa aldeia a apenas uma hora de distância do entreposto da Admarc, a companhia paraestatal cerelífera do Malawi, mas o entreposto não tem milho durante a estação chuvosa, porque é bastante difícil os camiões provenientes dos armazéns desta companhia paraestatal chegarem a esta área.
“Aqui enfrentamos a fome todos os anos porque, na altura em que mais precisamos de alimentos, o entreposto não tem nada. Depois das pessoas venderem o seu algodão, compram milho antecipadamente e preparam-se para a estação das chuvas. Agora que as vendas de algodão pioraram, não sei o que vai acontecer às pessoas nesta área,” disse Nyongolo, que é pai de dois filhos.
A chefe de uma aldeia próxima partilha a sua preocupação.
“As pessoas vão morrer aqui. Se não fosse o programa de alimentação escolar (que oferece papa de aveia às crianças na escola), as coisas agora seriam terríveis para algumas das crianças na aldeia,” disse.
Falando com a IPS sobre o impasse da venda de algodão, a Vice-Secretária da Agricultura, Erica Maganga, referiu-se a uma anterior declaração do Ministéri, dizendo que o governo tinha licenciado alguns compradores que estavam preparados para comprar o algodão a 54 cêntimos por quilo, afirmando também que os agricultores iriam vender a sua produção de algodão “brevemente”.
Relativamente à ameaça de fome, Maganga disse que o seu Ministério lidava apenas com a produção, e encaminhou a IPS para o Departamento de Prevenção e Gestão de Catástrofes, sob a alçada do gabinete presidencial e do governo.
Mas a Secretária desse Departamento, Lillian Ng'oma, afirmou que o seu gabinete não registara qualquer pedido de ajuda proveniente da área de Chingale.
“Tenho uma lista das zonas que vamos contactar para proporcionar ajuda, mas essa aldeia não faz parte da lista, e o Departamento nada pode fazer sobre esse assunto. Primeiro recebemos um parecer de um comité que avalia a situação alimentar depois da época das colheitas. Sem o parecer do comité, não podemos fazer nada,” afirmou.
Falando durante uma entrevista, o presidente do Sindicato dos Agricultores do Malawi, Prince Kapondamgaga, apontou a ligação entre culturas de rendimento e segurança alimentar.
“Não se consegue (segurança alimentar) só com o facto de haver alimentos em casa. Também se consegue através de finanças, e é por isso que as culturas de rendimento fazem parte da segurança alimentar. A situação ideal seria ter alimentos e dinheiro,” disse Kapondamgaga.
Acrescentou que não era justo que os agricultores que enfrentam dificuldades para vender o seu algodão descrevam o Malawi como um país com insegurança alimentar,
“No geral, o Malawi tem excesso de alimentos, embora possamos queixar-nos da entrega tardia de ajuda alimentar às zonas onde ela é necessária,” explicou.
Antes das eleições gerais em Maio, o Ministro das Finanças emitiu um relatório afirmando que o aumento geral da produção, na sequência das reformas agrícolas introduzidas pelo governo de Mutharika, queria dizer que os Malawianos – especialmente os que vivem nas zonas rurais – tinham conseguido aumentar o seu rendimento.
Na sua analíse, o relatório do Ministério disse que, nos últimos cinco anos, a pobreza tinha baixado 25 por cento. Quando o governo de Mutharika chegou ao poder em 2004, 52 por cento dos Malawianos viviam abaixo do limiar da pobreza, com um dólar por dia. Segundo o relatório, em Dezembro de 2008, só 40 por cento continuavam a viver abaixo do limiar da pobreza.
Em reacção a este relatório, o governo anunciou que não iria incluir as culturas de rendimento, como o algodão, na lista dos beneficiários do subsídio destinados a insumos agrícolas nesta estação.
Ao apresentar o orçamento para 2009/10, o Ministro das Finanças disse que o preço mundial dos fertilizantes tinha baixado e que, portanto, os agricultores de culturas de rendimento tinham meios para comprar esses insumos. Mas, em resposta, alguns pequenos produtores de algodão dizem que não vão cultivar algodão no próximo ano, porque os preços dos insumos são demasiado elevados.

