MUDANÇA CLIMÁTICA-CHINA: os riscos do crescimento verde

Pequim, 08/12/2009 – A China propõe dar um grande salto adiante servindo-se da expressão da moda “baixo-carbono”, com a qual o governo se promove e a coloca como novo motor de crescimento. A motivação política e o fervor dos governos locais para não perder o trem da redução das emissões de dióxido de carbono, entretanto, fazem temer por uma superprodução industrial, o que pode piorar os atritos entre China e seus sócios comerciais.

As advertências recebidas por Pequim de que sua expansão no setor de energias verdes pode ter excedido certos limites coincidem com o começo, ontem, em Copenhague, das negociações da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP-15). Os representantes e delegados dos países e de diferentes instituições procurarão delinear um tratado para a redução de emissões de gases contaminantes, causadores do aquecimento global, que dê continuidade ao Protocolo de Kyoto, cujas metas foram estabelecidas para até 2012.

O Protocolo de Kyoto obriga os 37 países industriais que o ratificaram a reduzir suas emissões até 2012 em 5,2% com relação aos níveis de 1990. A Câmara de Comércio Europeia na China alertou Pequim na semana passada para o risco da reação comercial. Os enormes pacotes de estímulo proposto pelo governo chinês para reviver sua economia agravaram o problema da superprodução, o que pode derivar em um novo auge de exportações baratas.

O crescimento do setor de equipamentos para a energia eólica, por exemplo, é um dos que teve grande superprodução. Além disso, a Organização das Nações Unidas deixou de entregar fundos para projetos chineses de energia eólica até confirmar se foram aceitos de forma justa. Segundo o jornal The Financial Times, a ONU adotou essa decisão no último verão com as fazendas eólicas chinesas diante da possibilidade de que Pequim tivesse suspendido os subsídios para que pudessem formar parte do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, previsto no Protocolo de Kyoto.

O MDL permite que as nações ricas, obrigadas a reduzir sua contaminação climática, compensem parte de suas emissões de gás-estufa financiando projetos para reduzi-las em países em desenvolvimento, entre os quais o convênio coloca a China. Antes de a comunidade internacional e os empresários darem o alarme, autoridades chinesas começaram a se preocupar com a possibilidade de o novo impulso da energia limpa criar uma superprodução que pudesse se converter em uma carga para o país no longo prazo.

A estatal Comissão Nacional de Desenvolvimento e Planejamento divulgou em julho uma circular alertando para que a economia não fosse novamente aquecida. O Conselho de Estado, o gabinete chinês, anunciou em novembro medidas para limitar o aumento da produção em sete setores. “Não só Pequim tem projetos que emitem pouco dióxido de carbono, como também as 32 províncias chinesas têm os seus, o que, às vezes, até são mais ambiciosos do que as metas nacionais”, disse Wu Changhua, diretora da organização não-governamental Climate Group para a China, com sede na Grã-Bretanha. “Não parecem se dar conta de que não basta produzir tecnologia e ter energia limpa, mas também poder propagá-la”, acrescentou.

Uma exposição sobre tecnologia de baixo carbono realizada no mês passado em Nanchang, capital da central província de Jiangxi, competiam por adotar o novo conceito de baixo carbono. O governo provincial anunciou na oportunidade que tinha um projeto de cooperação com a Finlândia para construir uma cidade ecológica, com um mínimo de emissões de gases contaminantes, perto do lago Poyang, o maior de água doce do país. A cidade, conhecida como DigiEcoCity, foi planejada pela empresa finlandesa de mesmo nome e foi motivo de inveja de todas as outras localidades construídas pela empresa.

“O impulso da economia verde se politizou totalmente”, disse um dos participantes que não quis se identificar. “Todos os representantes provinciais cortejavam o arquiteto finlandês e lhe sugeriam escolher sua província para construir a próxima DigEcoCity”, acrescentou. A empresa finlandesa concordou em construir outra cidade ecológica no leste da província de Jiangsu e negocia com Pequim e Xangai para construir outras, informou a agência estatal de noticias Xinhua. “Ter uma dessas cidades é considerado um prestigio político”, afirmou a fonte.

Funcionários chineses também exploram possibilidades de cooperação com empresários britânicos para construir cidades ecológicas, com a intenção de ter algumas casas verdes-modelo na China, irmanadas com projetos de desenvolvimento semelhantes na Grã-Bretanha. “O perigo é que muitos funcionários aproveitam a conjuntura política, mas suas regiões não têm instalações nem recursos para apoiar a implementação de novos projetos verdes”, disse ao jornal China times Zhang Yongwei, do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento, do Conselho de Estado.

Apenas 2,2% da quantia total destinada por Pequim a investimentos em inovação tecnológica foram usados para esse fim, segundo pesquisa mencionada por Zhang, que foi publicada em outubro e realizada por um grupo de trabalho do Congresso Nacional do Povo (parlamento) sobre o uso dado por quatro províncias a esse dinheiro. “O governo disse que daria grande apoio à economia de baixo carbono, mas sua implementação no âmbito local é irregular porque muitos lugares carecem de fundos e de empresas fortes necessárias para sustentar um desenvolvimento verde”, acrescentou Zhang.

O desenvolvimento de energia eólica é um exemplo concreto. A China se propôs em maio último aumentar a geração elétrica para cem gigawatts até 2020, em relação aos 30 GW que o governo central havia fixado como objetivo 18 meses antes. A China se converteu neste ano no lugar onde mais cresceu a capacidade de geração de energia eólica, superando os Estados Unidos, segundo um informe da Global Wind Energy Council (Conselho Global de Energia Eólica), divulgado no último verão.

Mas o setor da energia eólica continua controvertido, porque as autoridades parecem mais interessadas em alcançar objetivos de capacidade de geração do que em garantir que a eletricidade produzida vá para a rede de fornecimento. Muitas turbinas instaladas ficaram fora de serviço porque os fornecedores descobriram que as redes de distribuição de energia não estavam preparadas para alimentar a rede elétrica. A suspeita de que Pequim cortou os subsídios para o setor para ficar sob o MDL e cumprir seus objetivos em matéria de energia não contaminante parece apoiar a decisão da ONU, divulgada na semana passada, de deixar de aprovar projetos de energia eólica da China. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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