Rio de Janeiro, 27/05/2010 – Com o lema “Entrelaçando culturas, construindo a paz”, começará amanhã, no Rio de Janeiro, o III Fórum Mundial da Aliança de Civilizações, com cerca de três mil participantes, entre governantes, parlamentares e delegados de órgãos multilaterais e da sociedade civil. Trata-se da reunião internacional de mais alto nível já organizada na cidade do Rio de Janeiro desde 1992, quando foi sede da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Cúpula da Terra.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em mensagem que enviou ao Fórum que a escolha recaiu sobre o Rio de Janeiro para este encontro porque “nesta cidade, assim como em todo o país, as pessoas transformam suas diferenças culturais em um fator de enriquecimento. Somos um povo mestiço, e gostamos de ser assim”. O alto representante das Nações Unidas na Aliança de Civilizações, Jorge Sampaio, concordou com Lula, ao falar à IPS que o encontro “está destinado a ter grandes repercussões para o futuro desta iniciativa, já que o Brasil, representante de uma sociedade de grande diversidade cultural, contribui de forma muito estimulante para mostrar que a proposta tem caráter global”.
Sampaio, que presidiu Portugal entre 1996 e 2006, se referia ao fato de, pela primeira vez, a sede desta reunião ficar distante da região do Mar Mediterrâneo, onde nasceu, para acontecer na América do Sul. “Essa mudança contribuiu para que a iniciativa conte, a partir de agora, com uma representação muito maior de países latino-americanos”, afirmou. Apesar de não obter resultados concretos para os grandes problemas do mundo atual, houve “avanço na conscientização de que é possível a tolerância e o respeito mútuo entre culturas diferentes”, acrescentou Sampaio, ao avaliar o que foi feito pela Aliança de Civilizações das Nações Unidas (Unaoc) desde sua criação, em 2005.
A ideia de uma aliança deste tipo foi sugerida um ano antes pelo primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, e seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, para promover o diálogo entre o Ocidente e o mundo árabe-islâmico e assim contribuir para que o Século 21 seja uma época de justiça e paz. Foi a resposta encontrada por esses líderes para enfrentar a tese de inevitável confrontação, ou choque de civilizações, defendida por ideólogos do governo norte-americano durante a administração de George W. Bush, após os atentados terroristas em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Em 2005, a ideia foi adotada pelo então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, que criou um Grupo de Alto Nível para promover a implementação da iniciativa.
Entre as personalidades que confirmaram presença no Rio de Janeiro, além dos promotores da iniciativa, Zapatero e Erdogan, estão os presidentes Evo Morales, da Bolívia; Cristina Fernández, da Argentina; Abdoulaye Wade, do Senegal; Pedro Pires, de Cabo Verde, e o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates. O presidente Barack Obama, que em maio assinou a integração dos Estados Unidos como o 100º na lista da Unaoc, será representado por sua subsecretária de Estado, Esther Brimmer, responsável pelo Departamento de Organizações Internacionais.
A mudança de atitude de Washington após a chegada de Obama ao governo foi destacada por Sampaio, para quem se trata de um fato muito positivo a participação de Brimmer, com atuação em áreas de direitos humanos, ajuda humanitária e mudança climática. A prioridade do Fórum é favorecer a aproximação e não o confronto e promover medidas para minimizar as desigualdades econômicas existentes no mundo, além de potencializar o intercâmbio comercial e cultural de interesse mútuo, explicaram seus promotores.
Nesse sentido, entre as atividades prévias à abertura da reunião, está prevista uma marcha pelo centro do Rio de Janeiro com jovens de todos os continentes, representando organizações de 62 países. O trajeto da manifestação inclui uma visita simbólica a uma área comercial muito popular da cidade conhecida pela sigla Saara (Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), lembrando o deserto do Saara. Esta região foi escolhida porque em poucos quarteirões convivem, em harmonia e com elevado grau de colaboração entre si, imigrantes de diversas origens, a maioria árabes e judeus. Por isso, é considerada o exemplo mais claro da tolerância cultural e religiosa característica do Brasil.
E o país parece destinado a ter um protagonismo internacional como nunca teve até agora. O encontro acontecerá poucos dias depois que o presidente Lula assinou um acordo de cooperação nuclear com Irã e Turquia, que se cruza com as tentativas das grandes potências de votar sanções contra Teerã no Conselho de Segurança da ONU. Para Brasília, as sanções contribuiriam apenas para agravar a situação. O embaixador brasileiro José Augusto Lindgren Alves disse à IPS que o governo “ofereceu o Rio de Janeiro para sede deste Fórum porque queria demonstrar que o diálogo de civilizações não pode ficar limitado a um diálogo da Europa com o mundo islâmico”.
“Pretendemos trabalhar para que haja cooperação entre as civilizações, porque acreditamos que esse é o caminho correto e que todos os países têm de participar desse esforço”, completou Alves, coordenador para a Aliança de Civilizações, novo cargo criado pela chancelaria brasileira para cuidar dos assuntos relativos a este Fórum. “É que o conflito não é entre civilizações, mas entre fanáticos”, que existem em todas as culturas, acrescentou. IPS/Envolverde

