MOÇAMBIQUE: Linette Olofsson – Uma vida passada na política

Distrito de MOPEIA, Moçambique, 30/03/2011 – Não se pode ter uma conversa com Linette Olofsson sem se ser empurrado para a sua colecção de imagens sobre o projecto comunitário agrícola na província da Zambézia, no centro de Moçambique. Passaram sete anos desde que deixou o Parlamento moçambicano e iniciou o projecto Nfuma Yatho.

Nfuma Yatho, que significa “a nossa riqueza” na língua Sena local, integra diversos grupos comunitários: mulheres, líderes locais e famílias, que anteriormente não tinham outra fonte de rendimento. O projecto reúne gado, pescas, um moinho e uma padaria a lenha.

O projecto comunitário de Olofsson em Mopeia envolve principalmente jovens mulheres. A ideia do projecto surgiu durante uma visita ao distrito em 2000. Nessa altura, ela ainda era deputada da oposição e, quando um líder comunitário local na Zambézia lhe pediu que fizesse algo pela comunidade local, não resistiu.

“Desde que terminei o meu papel parlamentar, tenho-me dedicado ao projecto,” contou.

Uma história política tortuosa

Olofsson não iniciou a sua vida política em Moçambique, mas na Suécia. Casada com um cidadão sueco, fugiu de Moçambique em 1990, no pico da guerra civil.

Em 1994, foi membro do partido Social Democrata sueco e também a primeira mulher moçambicana a ser eleita para uma câmara municipal sueca. Olofsson foi ainda vereadora na área da habitação.

“Como imigrante, estava muito preocupada com a integração social dos estrangeiros na Suécia, com a promoção do acesso à habitação e com o evitar o crescimento de comunidades isoladas nos chamados guetos.”

Regressou a Moçambique em 1998, tendo entrado imediatamente no Parlamento como deputada pelo antigo grupo de guerrilha, a RENAMO – sigla portuguesa para Resistência Nacional de Moçambique.

A RENAMO travou uma longa guerra civil contra o governo entre 1975-1992, antes de se tornar o principal partido de oposição no Parlamento. Olofsson foi deputada da RENAMO entre 1999-2004. Deixou o partido quando lhe foi recusada a oportunidade para se candidatar a um segundo mandato.

Continua a ter uma vida política activa como membro fundador do Movimento Democrático Moçambicano (MDM) – um partido político criado em resultado de conflitos dentro da RENAMO.

Batalha difícil para as mulheres políticas

“Ser uma mulher na política… não é facíl, especialmente num país políticamente dominado por homens. E pertencer à oposição ainda é mais difícil devido à discriminação,” explicou.

Moçambique é um dos países da África Austral com uma maior proporção de mulheres no Parlamento e no governo. As mulheres ocupam oito dos 28 lugares ministeriais, cinco cargos vice ministeriais, e são do sexo feminino três dos onze governadores no país.

Trinta e cinco por cento dos actuais deputados do Parlamento moçambicano são mulheres e, pela primeira vez na sua história, o Parlamento tem uma mulher – Verónica Macamo da FRELIMO – como Presidente do Parlamento. Ambos os principais partidos políticos, a FRELIMO (sigla portuguesa para Frente de Libertação de Moçambique) e a RENAMO, reservaram um terço das suas listas eleitorais para mulheres. Ambos têm também mulheres como líderes dos seus blocos parlamentares.

“Uma sociedade que marginaliza as mulheres está a marginalizar-se a si própria porque, em último análise, não consegue contar com a contribuição de mais de metade da sua população,” afirmou Macamo durante uma reunião do Parlamento Pan-Africano em Outubro de 2010, que teve lugar na África do Sul.

Mas, para Olofsson, as mulheres moçambicanas na política podem fazer mais em prol do desenvolvimento do país. Segundo ela, as mulheres muitas vezes não são bem sucedidas devido à falta de experiência, visto que o país ainda é uma jovem democracia.

“Penso que ainda temos um papel muito débil e, por isso, ainda estamos longe de alcançar os nossos objectivos,” explica Oloffson.

“Um dos principais obstáculos é aquilo a que nós chamamos ‘disciplina partidária’. As mulheres moçambicanas no Parlamento não estão unidas. Estão mais empenhadas nas regras dos seus partidos do que com os objectivos das mulheres. Não confiam nas mulheres de um partido rival.”

Olofsson disse à IPS que, embora o número de mulheres no Parlamento represente uma mudança significativa, as mulheres moçambicanas – a maioria das quais vive em zonas rurais – ainda não estão verdadeiramente representadas no governo.

“Temos quantidade e não qualidade,” afirmou.

“Temos de investir mais nas associações locais para mulheres… dar às mulheres as ferramentas necessárias para alcançarem a sua própria autonomização, dar-lhes mais acesso à informação, especialmente nas zonas rurais.”

Charles Maraia

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