IEMÊN: Chá para os manifestantes

Sana’a, Iêmen, 23/03/2011 – Pipoca, amendoim, cartazes de protesto, chá e a onipresente bandeira do Iêmen… Tudo pode ser comprado enquanto acontecem as manifestações contra o governo diante da Universidade de Sana’a.
Tudo que um manifestante precisa, pode ser encontrado na As mobilizações não param desde meados de fevereiro, apesar da forte repressão. Milhares integram a multidão que prometeu não retroceder até que o presidente do país, Ali Abdalá Saleh, deixe o cargo.

A situação no Iêmen se integra à onda de protestos antigovernamentais no mundo árabe que começou em janeiro, quando movimentos populares derrubaram na Tunísia o presidente Zine El Abidine Ben Ali. A seguir, protestos semelhantes no Egito acabaram com o regime de Hosni Mubarak. Em meados de fevereiro, iemenitas iniciaram protestos em todo o país.

Diante da Universidade de Sana’a, estudantes começaram sua própria manifestação, que foi crescendo. Agora o lugar está cheio de barracas. Alguns levaram televisores e conseguem eletricidade com comércios do local. Porém, o mais chamativo deste clima quase de festa é o imediato interesse de comerciantes em atender as necessidades dos manifestantes.

Gassiem al-Shi’ri, de 13 anos, vende uma variedade de bolsas com a bandeira nacional. Os manifestantes podem estar descontentes com seus líderes, mas amam seu país. “Estou aqui desde o primeiro dia de protestos. Ganhei entre mil e dois mil riales iemenitas (entre US$ 4 e US$ 8) por dia”, contou. Trata-se de uma renda decente para um país onde 40% de seus 24 milhões de habitantes vivem na pobreza. É uma das estatísticas que muitos esperam que mudem após a saída de Saleh do poder, que governa o país há 32 anos. “Fora, fora, fora. Se Deus quiser, o presidente deixará este país”, gritava o garoto.

Vários outros vendedores também oferecem cachecol com a bandeira iemenita, em vários tamanhos. Também é possível comprar cartazes coloridos com mensagens contra Saleh. Alguns incluem simples brincadeiras, mas outros são mais ameaçadores. Um deles apresentava uma imagem em que várias armas apontavam para a cabeça do mandatário. Entre tudo isto, o que mais se vende é chá. Os iemenitas desfrutam muito dessa bebida. Um vendedor criou sua própria marca aproveitando o sentimento geral: “Chá da Liberdade”.

Khaled Khaderi fechou sua loja de roupa para instalar um ponto de venda de chá na área que os manifestantes passaram a chamar de “Praça da Mudança”. Este “é o sabor da liberdade”, dizia Khaled enquanto entregava xícaras aos seus clientes. “Costumo vender roupas perto da Universidade, mas decidi pelo chá para ganhar mais. Ninguém vinha aqui para comprar roupa. Queriam chá”, afirmou.

Outros vendedores que já estavam instalados perto da Universidade aumentaram sua renda. Ahmed Salhed, que conserta sapatos na rua, disse que tem mais clientes desde que começaram os protestos. Najeeb al-Badri e Shayf Bin Ali contaram que seu negócio de “qat” – uma planta narcótica – também cresceu. Outro vendedor, de pipocas, na Cidade Antiga de Sana’a, se mudou para o local dos protestos. Agora vende um pacote a 100 riales (US$ 0,20). “Minha renda aumentou 80% por dia”, disse. Envolverde/IPS

Yazeed Kamaldien

Yazeed Kamaldien is a freelance journalist and photographer based in Cape Town, South Africa. He has worked with print, online, radio and television media in various countries. His website features some of his published stories and photos as well as news about his photographic exhibitions.

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