O caminho para a “época de ouro” da América Latina passa pela igualdade

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O presidente do Peru, Ollanta Humala (esquerda) cumprimenta o ministro da Economia da França, Arnaud Montebourg (centro), junto ao secretário-geral da OCDE, o mexicano José Ángel Gurría. Foto: Alecia McKenzie/IPS

 

Paris, França, 2/7/2014 – A desigualdade, a má estrutura e a queda do comércio exterior são alguns dos problemas que a América Latina deve superar para alcançar uma “época de ouro”, segundo o presidente do Peru, Ollanta Humala. “Ainda não encontramos o ouro”, disse Humala, orador principal do Sexto Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, que terminou ontem em Paris. “Temos que construir um Estado mais moderno e eficiente que ofereça serviços a todos. Não podemos passar por cima das populações pobres ou vulneráveis”, acrescentou.

A conferência, intitulada Mais Além da Década de Ouro? Logística e Infraestrutura, Pilares de Integração Regional e Oportunidades do Comércio Mundial, reuniu, nos dias 30 de junho e 1º deste mês, dirigentes políticos, economistas, representantes do setor privado e especialistas da América Latina. Foram discutidas as medidas necessárias para conseguir o crescimento inclusivo e a transformação estrutural da região. Porém, os problemas específicos do Caribe brilharam por sua ausência na agenda.

O leitmotiv do encontro, repetido por muitos dos participantes, é que a desigualdade é um enorme obstáculo para o desenvolvimento da América Latina. “Erradicar a desigualdade é absolutamente fundamental porque a igualdade em si é um direito humano muito importante”, afirmou o vice-presidente do Uruguai, Danilo Astori. “Ao mesmo tempo, é uma chave para o desenvolvimento econômico e social. Nenhum país pode alcançar altos níveis de desenvolvimento com enormes níveis de desigualdade”, disse à IPS.

As brechas de renda entre os grupos têm origem étnica ou de gênero, e não são apenas “questões morais, também são temas macro”, assegurou Julie Katzman, vice-presidente executiva do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que organizou o Fórum junto com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Ministério de Economia e Finanças da França.

Katzman apontou que 70% das pessoas excluídas do sistema financeiro na região são mulheres, e que as mulheres proprietárias de pequenas e médias empresas sofrem déficit de financiamento de US$ 86 bilhões. Se essa situação for revertida até 2020, o produto interno bruto da América Latina crescerá 12% em 2030, previu a executiva.

“O setor privado tem um papel importante a desempenhar. Quando se combina a inclusão financeira e uma infraestrutura melhor, pode-se começar a abordar os problemas em discussão”, afirmou Katzman. Ela e outros participantes destacaram a necessidade de melhorar a infraestrutura como um “instrumento de desenvolvimento”, o tema principal da conferência.

Roberto Zurli Machado, diretor de Infraestrutura e Petroquímica Básica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Brasil, disse que a região deve se modernizar para levar sua infraestrutura ao nível desejado.

Segundo a OCDE, os custos logísticos da região representam entre 18% e 35% do valor dos produtos, em comparação com cerca de 8% nos 34 países dessa organização. A qualidade da rede viária na América Latina está abaixo do nível dos países de renda média, segundo dados da Organização. Os estudos também indicam que melhorias na logística poderiam aumentar a produtividade trabalhista da região em 35%.

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Danilo Astori, vice-presidente do Uruguai, durante o Fórum em Paris. Foto: Alecia McKenzie/IPS

 

“Tudo isso afeta a competitividade das exportações e o potencial de integração”, afirmou o mexicano José Ángel Gurría, secretário-geral da OCDE, que tem sede em Paris. Chile e México são os únicos países latino-americanos que integram essa organização. O desenvolvimento de uma política de logística integrada e a melhoria da eficiência dos trâmites aduaneiros, com ajuda da tecnologia, poderiam gerar importantes benefícios no curto prazo.

Essas medidas também repercutirão na desigualdade, segundo o secretário-geral da OCDE. “Precisamos gerar consciência e reforçar a cooperação”, pontuou à IPS. “A América Latina não é a região mais pobre, mas a mais desigual”, ressaltou. Gurría afirmou que a conferência, que anualmente reúne cerca de 400 especialistas, é uma maneira de abordar os problemas da região.

As análises deste ano são particularmente importantes porque, depois de uma década de crescimento relativamente forte, “as perspectivas econômicas da América Latina são cada vez mais complicadas”, afirmou Gurría. A região foi afetada pela debilidade da zona do euro e experimentou “um comércio exterior em queda, a moderação dos preços das matérias-primas e uma reserva crescente sobre as condições monetárias e financeiras externas”, acrescentou.

A OCDE destacou que a alta dos preços das exportações de produtos básicos “levou as economias latino-americanas a substuírem por importações produtos fabricados localmente, e contribuiu com certa redução da capacidade produtiva da região”. A Organização indicou que “um melhor desempenho da logística ajudaria a impulsionar a mudança estrutural na região e representaria uma oportunidade para a inserção do continente no comércio mundial”.

O presidente peruano afirmou que a região tem grande potencial, mas enfrenta muitos desafios, incluindo o impacto climático. Seu país será anfitrião em dezembro da 20ª Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática. A América Latina alcançará uma verdadeira “época de ouro” quando resolver seus problemas de produtividade e for mais igualitária. “A época de ouro se aproxima… Os tempos difíceis nos obrigam a buscar oportunidades”, enfatizou. Envolverde/IPS

A. D. McKenzie

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