Eleitores do Sudão do Sul morrem em emboscada

Juba, Sudão, 12/01/2011 – Pelo menos 11 pessoas morreram em enfrentamentos no contexto do histórico referendo no qual o Sudão do Sul decide sua separação, ou não, do Norte.

Eleitores em Juba, capital do Sudão do Sul. - Ranjit Bashkar/Al Jazeera

Eleitores em Juba, capital do Sudão do Sul. - Ranjit Bashkar/Al Jazeera

O major-general Gier Chuang Aluong, ministro do Interior do Sudão do Sul, disse que dez pessoas que tentavam chegar ao seu lugar de votação foram assassinadas no dia 10 em uma emboscada. A denúncia foi feita ontem, no terceiro dia de votação, na qual os eleitores devem escolher entre duas papeletas: uma mostrando uma mão solitária, apoiando a independência, e outra com duas mãos entrelaçadas, a favor da unidade.

Acredita-se que combatentes da tribo misseriya estão por trás do último ataque, ocorrido em Kurdufan, no lado Norte da disputada região. “Eles, como tribo, pertencem a um país, a um Estado e a uma liderança. Alguém deve assumir a responsabilidade e prestar contas sobre o ocorrido”, disse Gier, insistindo que o Norte deve se declarar culpado.

Mohammad Wad Abuk, veterano membro dos nômades árabes misseriya, negou qualquer participação no ataque. “Isto é mentira, os misseriya não atacaram nenhum comboio. O Movimento Popular de Libertação do Sudão só quer explorar a situação na área para criar confusão”, disse, referindo-se ao partido dominante no Sul. O último ataque aconteceu quatro dias depois de enfrentamentos entre os nômades misseriya, a polícia do Sul e jovens, na disputada região fronteiriça de Abyei.

Os observadores temem que esta última onda de mal-estar possa provocar mais lutas em meio a um referendo que poderia ser pacífico. Abyei é o ponto mais disputado entre o Norte e o Sul, após uma guerra civil de duas décadas que deixou dois milhões de mortos. Em Abyei, onde há depósitos de petróleo, foi prometida sua própria consulta popular sobre a autodeterminação. Entretanto, ainda é incerto se continuará sendo parte do Sudão ou se se unirá ao Sul independente.

É provável que os sete dias de eleições no Sul do Sudão apresentem um resultado esmagadoramente favorável à independência, e o presidente, Omar al-Bashir, disse que deixará que o Sul, rico em petróleo, se separe de modo pacífico. A proporção de participação dos eleitores nos primeiros dias de votação deixou muitos no Sul desconfiados de que estavam no caminho correto para atingir os 60% fixado em 2005 pelo Completo Acordo de Paz para que o referendo seja válido.

Espera-se que os resultados preliminares sejam anunciados no dia 7 de fevereiro, prevendo cinco dias para apelações, antes da divulgação dos resultados finais no dia 14. O Sul do Sudão é uma das áreas mais pobres do mundo. Toda a região conta com apenas 50 quilômetros de estradas pavimentadas. No entanto, a maior parte do petróleo sudanês está no Sul, enquanto os oleodutos que se dirigem ao mar atravessam o Norte, vinculando economicamente as duas regiões.

Bashir declarou ter dito ao ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter que o Norte assumiria toda a dívida do Sudão, de quase US$ 38 bilhões, se o Sul se separar. Carter, que atualmente é observador internacional nesse país, disse que, “de algum modo, o Sul do Sudão inicia uma conta nova em matéria de dívida”. Entretanto, Emad Sayed Ahmed, porta-voz da Presidência sudanesa, negou isto em um comunicado divulgado pela agência estatal de notícias.

Bashir simplesmente disse a Carter que dividir a dívida não ajudará nem o Norte nem o Sul, porque ambos carecem de recursos para fazer os pagamentos, disse Ahmed em um comunicado. O escritório de Bashir afirmou que dividir a divida entre o Norte e uma possível nova nação no Sul não terá nenhuma utilidade, porque o futuro Estado não poderá pagá-la. O comunicado propôs que a dívida do Sudão seja resolvida de maneira conjunta, acrescentando que “é responsabilidade do Norte, do Sul e da comunidade internacional”. Envolverde/IPS

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *