Palestina: A maior prisão a céu aberto

Jerusalém, 17/08/2005 – "O plano será bom para Israel em qualquer situação futura", disse o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, sobre a retirada unilateral da faixa de Gaza. A grande pergunta é se também será bom para os palestinos. Nesta terça-feira, à meia-noite, vencia o prazo dado pelo governo israelense para que os colonos judeus abandonassem de forma voluntária suas casas construídas em território palestino ocupado. Caso contrário, seriam retirados à força. Para muitos, a atitude unilateral israelense representa um importante avanço no processo de paz do Oriente Médio e uma vitória para os palestinos. Para outros, é apenas uma medida conveniente para Israel, destinada a bloquear para sempre o processo de paz e, por fim, a criação de um Estado palestino.

"Não é difícil encontrar razões para a retirada israelense de Gaza, já que foi planejada pelo próprio governo de Israel", disse à IPS Nadia Hijab, do Instituto de Estudos Palestinos, com sede em Beirute. Hijab citou Dov Weisglass, um dos principais assessores de Sharon, que disse: "A importância do plano de retirada reside no congelamento do processo de paz. Todo o pacote chamado 'Estado palestino', e tudo o que implica, foi eliminado de nossa agenda". Em entrevista à revista Haaretz, no ano passado, Weisglass havia explicado que "ao se congelar o processo, se impede a discussão sobre os refugiados, as fronteiras e Jerusalém", principais reivindicações palestinas. "A retirada fornece o formaldeído (substância química para a conservação dos corpos) necessário para que não haja um processo político com os palestinos", acrescentou Weisglass nessa entrevista.

Os palestinos reclamam o retorno dos refugiados para as terras de onde foram expulsos desde 1948, ano da fundação de Israel, e reivindicam Jerusalém oriental como capital de seu futuro Estado, enquanto os israelenses são contra a volta desses refugiados e defendem Jerusalém como sua "capital eterna e indivisível". Segundo Josh Ruebner, co-fundador do grupo Judeus pela Paz na Palestina e em Israel e coordenador da Campanha Norte-Americana para Pôr Fim à Ocupação Israelense, "o desmantelamento das colônias ilegais e das instalações militares na Faixa de Gaza é, definitivamente, um passo positivo e uma grande vitória para o povo palestino".

Entretanto, advertiu, "não conduzirá à paz, muito menos a uma paz justa e duradoura". "A retirada de Gaza apresenta dúvidas muito preocupantes, principalmente se essa área ficará sitiada depois da saída dos colonos", porque, "na realidade, Israel manterá pleno controle desse território por terra, mar e ar, que é exatamente o que a secretária de Estado norte-americana, Condoleeza Rice, disse que Israel não poderia fazer", observou. De fato, afirmou Ruebner, "a retirada transformará Gaza na maior prisão do mundo a céu aberto".

Enquanto a comunidade internacional concentra sua atenção na retirada de Gaza, e observa imagens de colonos judeus recebendo ordens de despejo, se esquece da expansão israelense na Cisjordânia e do muro de separação ilegal que Israel constrói nesse território, criando enclaves isolados de palestinos. "Sharon parece apostar que os israelenses podem manter uma situação 'nem de guerra, nem de paz', enquanto tragam mais terras palestinas na Cisjordânia, separando palestinos de israelenses e palestinos entre si, em pequenas superfícies cercadas por fronteiras impenetráveis", destacou Hijab. O "muro de segurança", que Israel começou a construir em 2002, tem mais de 600 quilômetros de extensão, de norte a sul da Cisjordânia (território palestino na margem ocidental do Rio Jordão), rodeia Jerusalém, e entra pela cidade.

Os palestinos afirmam que o muro implica a anexação de mais territórios e o caráter permanente de assentamentos judeus em suas terras, enquanto Israel afirma que o muro é necessário para proteger seus cidadãos dos atentados terroristas. O Tribunal Internacional de Justiça, com sede na cidade holandesa da Haia, o declarou ilegal em 2004. além disso, exortou Israel a devolver terras e outras propriedades e imóveis a "todos os palestinos que tenham sofrido qualquer forma de dano material em conseqüência da construção do muro". Entretanto, enquanto todos os olhos estavam voltados para Gaza, o gabinete israelense aprovou uma decisão de continuar a construção do muro em Jerusalém oriental, lembrou Ruebner. (IPS/Envolverde)

Ushani Agalawatta

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