Nova York, 03/02/2005 – As autoridades dos Estados Unidos, especialmente a Agência de Proteção Ambiental (EPA), não conseguiram livrar os moradores do centro de Nova York das substâncias tóxicas deixadas pelo atentado de 11 de setembro de 2001. Milhares de trabalhadores e residentes do centro da área de Manhattan, um dos cinco "borroughs" (municípios) da cidade, estão enfermos pela exposição a produtos como asbesto, dioxina e bifenilo policlorado (PCB). "A EPA está obrigada a limpar os edifícios contaminados por ataques terroristas, mas se nega a cumprir a lei", afirmou Jerrold Nadler, membro por Nova York na Câmara de Representantes e integrante do Partido Democrata (oposição).
Em carta enviada ao presidente George W. Bush, Nadler expressou sua preocupação pelo fato de "dois dias depois do atentado a EPA ter iniciado uma estratégia para confundir o público e dar informação falsa sobre a qualidade do ar". Em agosto de 2003, quase dois anos depois dos atentados em que morreram três mil pessoas em Nova York e Washington, a agência admitiu ter subestimado o risco que supõe em Manhattan o pó venenoso e os escombros das Torres Gêmeas do World Trade Center. O inspetor-geral da EPA disse ter agido dessa maneira por instrução da Casa Branca. No entanto, a agência ainda não tomou atitudes decisivas desde a divulgação do informe de 2003, e Bush não respondeu à carta de Nadler, enviada em outubro passado.
A agência governamental garante ter analisado amostras de ar, pó e água potável e das correntes fluviais de Nova York. Também informou que forneceu milhares de aparelhos de assistência respiratória a trabalhadores, realizou estudos sobre os métodos de descontaminação dentro edifícios e os trabalhos de limpeza. Porém, Nadler, entre outros, acredita que a EPA fugiu de suas obrigações como principal agência encarregada de descontaminar a área, especialmente o prédio do Deutsche Bank, próximo ao destruído World Trade Center, onde o nível de asbesto é 150 mil vezes superior ao normal. Portanto, o legislador democrata levou suas queixas a Bush pessoalmente, junto com organizações sindicais, ambientalistas, comunitárias e de defesa do direito à saúde.
Na terça-feira Nadler se referiu a esse assunto durante entrevista coletiva em Nova York, pouco antes de embarcar no trem que o levaria a Washington, onde no dia seguinte o presidente Bush apresentaria no Congresso seu informe anual sobre o Estado da União. Na quinta-feira, Nadler e sua colega Carolyn Maloney voltaram a apresentar um projeto de lei para ampliar os programas médicos e o tratamento destinado às vítimas dos atentados que carecem de seguro. Também procuram ampliar o alcance do Fundo de Compensação para as Vítimas do 11 de Setembro a pessoas cujas doenças são diagnosticadas tardiamente ou pioram com o passar do tempo.
Das 12 mil pessoas atendidas no Centro de Medicina Ocupacional e Ambiental Monte Sinai em Manhattam, os médicos apontam 10% com resultados perturbadores. "Há alta incidência de problemas respiratórios entre trabalhadores que aparecem depois de dois ou três anos" após os atentados, disse o co-diretor do programa de acompanhamento das vítimas, Steven Levin, que participou da entrevista ao lado de Nadler. Muitos também apresentam problemas psicológicos, entre outras desordens causadas por estresse pós-traumático, acrescentou. O programa obteve financiamento por mais cinco anos, mas há casos de câncer originados pelas substâncias liberadas em razão do atentado na atmosfera que poderão ser detectados 20 anos mais tarde, acrescentou Levin.
O engenheiro de saneamento Kevin Mount, que trabalhou na limpeza dos escombros, disse à imprensa que sua experiência com o fundo de compensação para trabalhadores municipais foi "uma grande ilusão". Mount teve de lutar por três anos para conseguir assistência médica depois de ter sido hospitalizado em fevereiro de 2002 por obstrução respiratória, hepatite C, sinusite, refluxo gástrico e depressão. "Os promotores de Nova York questionaram todas e cada uma de minhas lesões", afirmou. Enquanto trabalhou no que restou do World Trade Center, Mount ficou exposto a "uma grande quantidade de fumaça, pó e substâncias tóxicas, bem como a partes humanas. A máscara de papel para deter o pó foi inútil", ressaltou. A municipalidade de Nova York pôs fim aos benefícios por doença de Mount em novembro, apesar de contar com numerosas cartas de médicos confirmando seus problemas.
Os trabalhadores de resgate e limpeza não foram os únicos que correram riscos. O Centro Médico da Universidade de Nova York detectou que 25% dos moradores da Baixa Manhattan sofrem sintomas de doenças respiratórias "persistentes". "Sou um exemplo de trabalhador administrativo de Manhattan que sofrerá problemas de pulmão por muito tempo devido à exposição aos escombros do World Trade Center", disse Robert Gulack, funcionário da Comissão de Seguros e Câmbio. Gulack toma cinco remédios diferentes para tratar suas enfermidades pulmonares crônicas, diagnosticadas pouco depois de lhe dizerem que era seguro voltar ao seu escritório, a um quarteirão de distância das ainda fumegantes ruínas do WTC.
O ambiente dentro do edifício onde Gulack trabalha apresenta concentração de asbesto 850 vezes acima do máximo permitido. "Parece que o plano da EPA para limpar o pó do World Trade Center é deixar que os nova-iorquinos coloquem tudo em seus pulmões", afirmou. "Três anos depois de entrar na Segunda Guerra Mundial, havíamos recuperado a França… Por que é mais fácil tirar os nazistas de Paris do que colocar a EPA no Brooklyn?", se perguntou. (IPS/Envolverde)

